
# Os Evangelhos: Marcos

O evangelho de ação que apresenta Jesus como servo poderoso, repleto de milagres e autoridade divina.

## Sumário

- Lição 1 – As Boas-Novas do Evangelho de Cristo
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - 1. Autor do Evangelho de Marcos
  - 2. Data, Local e Para Quem o Evangelho Foi Escrito
  - 3. As Principais Características do Evangelho Segundo Marcos
  - 4. A Mensagem Central
  - Conclusão
- Lição 2 – A Natureza dos Milagres no Evangelho de Marcos
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - 1. Os Milagres no Evangelho de Marcos
  - 2. Os Milagres de Natureza
  - 3. Os Milagres de Libertação
  - 4. Os Milagres de Cura
  - Conclusão
- Lição 3 – A Autoridade de Jesus em Ação
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - 1. A Importância da Fé na Realização de Milagres
  - 2. A Autoridade de Jesus Sobre as Doenças e a Morte
  - 3. A Reação das Pessoas Diante dos Milagres
  - 4. A Demonstração do Reino de Deus por Meio da Pregação de Jesus
  - Conclusão
- Lição 4 – O Chamado ao Discipulado de Jesus
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - 1. A Eleição dos Doze
  - 2. Discipulado: O Mais Fascinante Projeto de Vida
  - 3. O Servir de Cristo e o Desejo de Grandeza dos Discípulos
  - 4. O Chamado à Participação nos Milagres
  - Conclusão
- Referências Bibliográficas
- Editorial

## Lição 1 – As Boas-Novas do Evangelho de Cristo

### Objetivo Geral

Ensinar ao leitor sobre as particularidades do livro de Marcos, suas características, seu autor, bem como entender a mensagem central desse livro.

### Introdução

O Livro de Marcos é um dos evangelhos sinóticos. O termo sinótico vem de duas palavras gregas, cujo significado é “ver conjuntamente”. Dessa forma, Mateus, Marcos e Lucas tratam basicamente dos mesmos aspectos da vida e ministério de Cristo. Dos evangelhos sinóticos, Marcos é o evangelho mais curto da Bíblia.

Segundo Darrell Bock (2006), o Evangelho de Marcos é geralmente considerado o primeiro evangelho que foi escrito, ainda que esse fato não tenha um consenso unânime, a maioria dos estudiosos crê que Marcos foi escrito antes dos outros. Por isso, William Barclay (2009) o considerava o livro mais importante do mundo, já que serviu de fonte para os outros evangelhos.

Contudo, fica a pergunta, por qual motivo quatro evangelhos? Temos quatro, pois cada um foi escrito a um público diferente, vejamos: Mateus foi escrito para os judeus e apresentou Jesus como rei, já Marcos escreveu para os romanos, povo guerreiro, e apresentou Jesus como servo, enquanto Lucas, ele escreveu para os gregos e mostrou Jesus como o homem perfeito, por fim, temos João que escreveu um evangelho universal e apresentou Jesus como Deus, o verbo encarnado. Acrescente-se que, o evangelho de Marcos fornece uma breve narrativa de três anos da campanha conduzida pelo “comandante” da salvação da humanidade, visando à libertação das almas e à derrota de Satanás, e completada pelas obras, os sofrimentos, a morte, a ressurreição e o triunfo final de Cristo. Assim, os evangelhos foram destinados a pessoas diferentes e com propósitos variados.

### 1. Autor do Evangelho de Marcos

O Livro de Marcos foi escrito por um homem chamado João Marcos, que acompanhou Paulo, Barnabé e Pedro em suas missões. Diante disso, duas coisas nos chamam atenção: a primeira é a identidade de Marcos descrita nas Escrituras, pois seu nome completo era João Marcos, sendo que João era seu nome hebraico e Marcos seu nome romano. A segunda coisa que nos chama a atenção é que Marcos é considerado o autor do Evangelho que leva o seu nome. Embora ele não tenha sido um discípulo de Cristo, ele presenciou muitos fatos da sua vida, uma vez que morava em Jerusalém e sua casa se tornou um ponto de encontro da igreja. Logo, Marcos não foi discípulo de Jesus, mas de Pedro. Ademais, temos várias informações importantes sobre esse personagem nas Escrituras.

Marcos era filho de Maria, mulher de Jerusalém, cuja casa estava aberta para os primeiros cristãos (At 12.12). Isso significa que João Marcos procedia de uma família de muitos bens materiais e tinha familiaridade com a Igreja.

João Marcos acompanhou Paulo e Barnabé em sua primeira viagem missionária. A contemplação dos perigos que ameaçavam esse pequeno grupo ao viajar pelas regiões desconhecidas, parece tê-lo preocupado de tal maneira que voltou a Jerusalém (At 13.13). Diante desse fato, mais tarde, a proposta de Barnabé de levá-lo consigo na segunda viagem missionária provocou uma contenda entre Barnabé e Paulo. Assim, o apóstolo julgou melhor não levar com eles um “desertor”. Porém, Barnabé, que era primo de Marcos, achava que ele deveria ter a oportunidade de se redimir e, assim, separou-se de Paulo e levou Marcos consigo para Chipre (At 15.36-41). João Marcos justificou a confiança de Barnabé, pois relatos posteriores demonstram que foi bem-sucedido no ministério. Isso fica claro quando Pedro o mencionou favoravelmente (1 Pe 5.13), e Paulo mudou sua opinião a respeito dele, pois Marcos foi chamado por ele para ajuda-lo no final da sua vida, a ponto de escrever: “Traga Marcos com você, porque ele me é útil para o ministério” (2 Tm 4:11). Isso nos prova a mudança de conduta e o conceito de Paulo acerca de Marcos.

Além disso, o testemunho abundante dos pais da Igreja torna bastante claro que Marcos acompanhou Pedro a Roma como seu intérprete e que compilou esse evangelho aproveitando as pregações de Pedro. Seu nome latino – Marcos – parece indicar que foi educado nos círculos romanos. Esses dados o tornam adequado para escrever um evangelho aos romanos.

### 2. Data, Local e Para Quem o Evangelho Foi Escrito

Como dito antes, o evangelho de Marcos foi o primeiro a ser escrito. Não existe um consenso unânime acerca da data da sua redação; todavia, ele deve ter sido escrito entre 55 e 70 d.C., ou seja, antes da destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., uma vez que ele não faz qualquer menção desse fato predito por Jesus. Jerusalém foi destruída pelo exército romano sob a liderança de Tito, depois de 143 dias de cerco. Durante essa batalha, 600 mil judeus foram mortos e milhares levados cativos.

Irineu e outros pais da igreja defenderam a tese de que Marcos foi escrito depois do martírio de Pedro e Paulo. Contudo, essa posição contraria a tese da maioria dos estudiosos que afirmam que Marcos foi o primeiro evangelho escrito, sendo a fonte primária dos demais.

O consenso entre os estudiosos é que Marcos foi escrito de Roma para os cristãos que viviam em Roma, pois Marcos está presente com Paulo em sua primeira prisão e é chamado para estar com ele em sua segunda prisão. Nesse tempo, Roma era a maior cidade do mundo, com mais de um milhão de habitantes, e Nero era o imperador. Nero começou a reinar em 54 d.C., com a idade de 16 anos. Os primeiros anos do seu reinado foram de relativa paz e, por isso, por volta do ano 60 d.C., Paulo apelou para ser julgado em Roma (At 25. 10,11).

Para os estudiosos, o relato de Marcos foi redigido para satisfazer o pedido urgente do povo de Roma por um resumo dos ensinos de Pedro. As evidências podem ser destacadas a seguir: em primeiro lugar, Marcos enfatiza mais as obras de Cristo que seus ensinos, a ênfase nesse evangelho é sobre atividade, pois os romanos estavam mais interessados em ação que em palavras, por isso Marcos descreve mais os milagres de Cristo que seus ensinos; em segundo lugar, Marcos apresenta Jesus como servo, por esta causa o Evangelho de Marcos não se inicia com genealogia, uma vez que os romanos não estavam interessados em genealogia, mas em ação; em terceiro lugar, Marcos se detém em explicar os termos judaicos aos seus leitores; quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, tomou-a pela mão e lhe disse: “Talita cume”, que quer dizer: “Menina eu te mando, levanta-te” (Mc 5.21); em quarto lugar, Marcos preocupou-se em explicar os costumes judaicos para seus leitores (Mc 7.3,4; 7.11; 14.12); em quinto lugar, Marcos usou várias palavras latinas, isso pode ser constatado observando alguns textos (Mc 5.9; 12.15); em sexto lugar, Marcos foi o evangelista que menos citou o Antigo Testamento, por exemplo, não cita o termo “lei”; e por último, Marcos usou a contagem de tempo romano, como vimos em Mc 6.48. Logo, essas evidências nos indicam que Marcos escreveu esse evangelho para os romanos.

### 3. As Principais Características do Evangelho Segundo Marcos

Várias peculiaridades surpreendentes da versão de Marcos tornam-na única entre os Evangelhos. O estilo de escrever foi descrito como vigoroso e dramático. Como um Evangelho vigoroso, Marcos descreve os eventos da vida de Jesus, de modo sucinto e vívido, com a perícia pitoresca de um gênio literário. Um realismo vivo caracteriza tanto o estilo de Marcos como o seu relato não rebuscado dos fatos. Além disso, os acontecimentos são descritos sem alteração ou interpretação extensiva, e sua apresentação é marcada por uma qualidade objetiva encontrada nos relatórios de testemunhas oculares, ou seja, Marcos fala diretamente aos seus leitores, usando perguntas retóricas que os próprios leitores gostariam de fazer a si mesmos, tais como: “Mas quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Ainda podemos sentir, em qualquer parte do texto, um vigor e tom de urgência. Acrescente-se que, a palavra característica deste Evangelho de ação é euthys, que ocorre 41 vezes e é traduzida nas várias versões como “diretamente”, “imediatamente”, “em seguida”, e “logo”.

Outras características importantes distinguem o Evangelho de Marcos:

Sendo um Evangelho de ação, ele enfatiza mais aquilo que Jesus fez, do que suas palavras. Por isso, Marcos registrar 18 milagres de Jesus, mas somente quatro das suas parábolas. Jesus é apresentado como servo que está sempre em atividade. Ele descreve Cristo, ocupado, deslocando-se de um lugar para outro, curando, libertando, pregando, e ensinando as pessoas;

O livro é totalmente kerigmático em sua ênfase, ou seja, o livro começa focando o cerne da sua mensagem: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”(1.1). Jesus apresenta-se nesse evangelho como pregador, proclamador, por essa mensagem deve-se dar a vida, ela deve ser pregada ao mundo inteiro (Mc 13.10; 14.9; 16.15);

Podemos observar ainda que Marcos enfatiza a popularidade do ministério de Jesus, porque quando Jesus ensinava e por onde andava, as multidões se reuniam ao seu redor (Mc 1.33, 45), enfatiza ainda a identidade de Cristo, por exemplo, quando o Pai lhe disse: “Tu és meu filho amado” (Mc 1.11; 9.7);

Jesus disse ao povo, aos discípulos, aos líderes religiosos e aos opositores que ele era o Filho de Deus. Ele demonstrou seu poder para perdoar, curar, libertar e deter as forças da natureza. Ele provou ser o Filho de Deus rompendo os grilhões da morte e saindo da sepultura;

O autor apresenta Jesus como aquele que tem poder para operar milagres, uma vez que ressalta mais os milagres de Cristo do que seus sermões. Em cada capítulo do evangelho, até seu ministério final em Jerusalém, há registro de pelo menos um milagre;

Por fim, Marcos enfatiza o sofrimento de Cristo, porque nenhum outro evangelho deu tanta ênfase à paixão de Cristo.

### 4. A Mensagem Central

O primeiro versículo desse evangelho é tanto o título do livro quanto a síntese do seu conteúdo. Alguns comentaristas como William Hendriksen relaciona a palavra “princípio” com a atuação de João Batista nos versículos seguintes, mas a melhor compreensão é que Marcos está introduzindo o conteúdo de todo o evangelho.

A Bíblia menciona três começos, vejamos:

Primeiro, no princípio era o verbo (Jo 1.1) – esse princípio está antes do tempo, no bojo da eternidade. Ele não pode ser datado.

Segundo, no princípio criou Deus os céus e a terra (Gn 1.1) – esse começo é quando nos movemos da eternidade para o tempo. Nenhum estudioso conseguiu precisamente datar esse princípio, embora ele esteja dentro do tempo.

Terceiro, princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1.1) – esse princípio começa quando Jesus Cristo se fez carne. Jesus Cristo é o evangelho. Esse princípio pode ser datado. Marcos fala do princípio do evangelho, porque o evangelho estende-se à obra de Cristo por meio do seu Espírito e sua igreja, conforme o ensino de Atos 1.1.

Porém, a parte mais importante do evangelho não é o que nós devemos fazer, mas o que Deus fez por nós em Cristo. O evangelho não é discussão nem debate, mas uma proclamação, ele está centrado na pessoa de Jesus Cristo. Logo, o conteúdo do evangelho é Jesus Cristo: sua vida, obra, morte, ressurreição, governo e segunda vinda. Ademais, como Marcos escreveu seu evangelho para os romanos, que davam grande importância à concisão, vai direto ao assunto, e já no princípio do versículo destaca o título pleno do Senhor, que abarca sua humanidade, sua missão redentora e sua divindade. Ele é plenamente homem (Jesus). Ele é o ungido de Deus (Cristo). Ele é plenamente divino (Filho de Deus).

Finalmente, Marcos iniciou sua mensagem, revelando-nos a essência do evangelho. Sem essa doutrina não teremos nada sólido debaixo dos nossos pés, pois nossos corações são fracos e são muitos os nossos pecados. Assim, precisamos de um redentor que seja capaz de salvar completamente e libertar- nos da ira vindoura. Nós temos esse Salvador em Jesus Cristo, Ele é o Deus forte (Is 9.6).

### Conclusão

Por tudo que estudamos até aqui, podemos concluir que o Evangelho de Marcos é único. Ele não se trata de uma biografia de Jesus como as descritas nos livros de Mateus e Lucas, mas relata as obras de Cristo e tudo o que Ele fez, apresentando Jesus como o Rei Salvador, nosso redentor. Aquele que venceu os demônios, a enfermidade e a morte. Sua ênfase nas obras poderosas e miraculosas de Cristo torna esse livro repleto de ação, expressivo e muito atraente.

Como vimos, ainda, Marcos é o evangelho de ação. Nele Jesus é apresentado como um servo constantemente em atividade, sempre ocupado, deslocando-se de um lugar para outro, curando, libertando, pregando e ensinando às pessoas. Marcos enfatiza mais as obras de Cristo que suas palavras. Aprendemos que, a parte mais importante do evangelho não é o que devemos fazer, mas o que Deus fez por nós em Cristo.

## Lição 2 – A Natureza dos Milagres no Evangelho de Marcos

### Objetivo Geral

Abordar os primeiros milagres de Jesus identificados no Evangelho de Marcos.

### Introdução

A Natureza do Miraculoso, o que vem a ser isso? O termo milagre é aplicado a ocasiões incomuns, até mesmo por aqueles que não acreditam no sobrenatural. Nem sempre é fácil atribuir o verdadeiro significado bíblico à palavra. É provável que a definição mais simples, segundo C. S. Lewis, seja: “Uma interferência na natureza por um poder sobrenatural”. Para J. Gresham Machen (1984): “Um milagre é um evento no mundo exterior, que é trabalhado pelo poder imediato de Deus”, ou seja, a obra divina é milagrosa quando Deus utiliza o seu poder criativo, como o utilizou quando fez todas as coisas a partir do nada. Além disso, um milagre está além da capacidade intelectual do homem.

Qual o propósito dos milagres? Alguns veem os milagres como eventos isolados na vida dos profetas ou do Senhor Jesus Cristo. No entanto o que podemos enxergar nos textos bíblicos é que o desespero de uma pessoa, a seriedade de uma situação, ou a iniciativa de um profeta ditou se um milagre deveria ou não ser realizado. Mas os milagres não estão espalhados em uma confusão geral ao longo da Bíblia Sagrada,. Em cada caso, os milagres serviriam para dar crédito à mensagem e ao mensageiro de Deus, em ligações importantes no desenvolvimento da tradição judaico-cristã, além disso, eles preservaram a verdade de Deus.

Na nossa lição, vamos evidenciar alguns dos milagres de Jesus, uma vez que durante seu ministério terreno, Ele os usou para demonstrar a sua divindade, para provar que era o Enviado de Deus, para sustentar o seu Messianato, para ministrar com compaixão às multidões necessitadas, para guiar seus seguidores à fé salvadora, para evidenciar um renascimento espiritual interior, e como auxílio na instrução e preparação de seus discípulos para o ministério que eles estavam prestes a desempenhar. Os milagres de Jesus estão relatados ao longo dos quatro Evangelhos, e alguns milagres são mencionados em mais de um Evangelho.

Sendo assim, Marcos dedica a maior parte do seu Evangelho a contar os milagres de Jesus mais do que qualquer um dos demais autores. Para ele, esses milagres eram a demonstração do poder de Jesus – Seu poder sobre as enfermidades, as forças do mal e, até mesmo, a natureza. Assim, muitos o procuravam para serem curados e saciados, alguns se perguntavam quem era Jesus realmente, e outros o seguiam.

### 1. Os Milagres no Evangelho de Marcos

No evangelho de Marcos (1.21-45) podemos observar os primeiros milagres de Jesus registrados pelo autor. Para o teólogo Adolf Pohl esse trecho esboça algo como um dia de trabalho de 24 horas de Jesus na cidade de Cafarnaum. Pela manhã, Ele inicia com o culto de sábado (1.21b), depois Jesus segue na casa de Pedro (1.29), à noite na rua (1.32), continua antes do raiar do sol (1.35) e termina durante a manhã com a partida da cidade (1.38). Os quatro períodos do dia correspondem a quatro cenários (sinagoga, casa, rua e deserto) e quatro plateias (judeus piedosos, grupo dos discípulos, multidão e tentador). Nesses trechos bíblicos podemos observar a autoridade do Filho de Deus para ensinar, sobre os demônios e para curar.

Nesse contexto, vimos Jesus como um pregador estratégico, pois Cafarnaum era a maior e mais populosa das cidades pesqueiras que estavam ao redor do mar da Galiléia. Esse era um lugar apropriado para Ele expor a hipocrisia de alguns judeus e gentios com o evangelho do Reino de Deus.

Em Marcos 1.22, é enfatizado a autoridade de Jesus para ensinar. Cerca de 42% dos versículos deste evangelho citam os ensinamentos de Cristo. Todos “maravilharam-se da sua doutrina”, pois era diferente da doutrina dos escribas e fariseus. Ele não se baseava na sabedoria de outros mestres ou rabinos. Sua autoridade vinha de si mesmo. Jesus tinha autoridade para ensinar, pois Ele é a própria verdade.

Quanto à autoridade sobre os demônios, precisamos antes lembrar que a possessão demoníaca é um fato inegável. Na possessão os espíritos malignos assumem o controle da personalidade humana, e muitas vezes os demônios se infiltram no meio da congregação do povo de Deus. Contudo, Jesus, quando curou o endemoninhado de Cafarnaum (Mc 1.24-29), mostrou Sua autoridade sobre eles. Assim, segundo os registros de Marcos, Jesus sempre enfrentou os espíritos malignos e cerca de 20%, dos 35 milagres que Ele realizou, foram para libertar homens desses espíritos. Em um desses casos, o demônio reconheceu Jesus como o Santo de Deus, mas Cristo recusou o testemunho de uma fonte tão indigna. Marcos percebeu a relevante repercussão que esse milagre de Jesus teve e decidiu enfatizar que “logo correu a sua fama (de Jesus) por toda a província da Galiléia”(Mc 1.28).

Podemos ver também a autoridade de Jesus para curar, nesse caso, a sogra de Pedro (Paulo relata que Pedro era casado, assim como outros discípulos (1 Co 9.5)) e um leproso (Mc 1.29-45). No primeiro caso, Jesus curou totalmente a sogra de Simão Pedro, pois não apenas a febre passou, mas as forças daquela senhora foram renovadas, para que ela servisse a Jesus a aos Seus discípulos. Na segunda situação, Jesus, movido de grande compaixão, não somente curou o leproso, mas também o tocou. Quantas vezes vemos a necessidade de alguém, mas não nos sentimos tocados por ela nem nos envolvemos na situação? A Bíblia apresenta mais de 400 passagens que nos exortam a cuidar dos necessitados.

Dessarte, tanto a cura dos enfermos como a expulsão de demônios das pessoas devem ter perdurado por toda a noite, porque Jesus tinha plena ciência de que somente Lhe restavam cerca de três anos e meio de vida aqui na terra para cumprir Sua missão.

### 2. Os Milagres de Natureza

Segundo D. L. Moody, Jesus, provavelmente, por necessidade de isolamento e descanso, propôs uma viagem através do lago da Galiléia, quando enfrenta uma grande tempestade. Essa tempestade é descrita por Marcos (4.35- 41). Logo em seguida ele descreve a libertação do homem endemoninhado que Cristo encontrou do outro lado (5.1-20), assunto esse que versaremos no tópico seguinte.

Ir “para a outra margem” do mar da Galiléia, que na verdade é um lago, é velejar por mais de 12 quilômetros, o que parecer ser fácil. No entanto, sua geografia é capaz de surpreender com variações climáticas das mais diversas. Até hoje é comum um grande temporal de vento acontecer durante a noite nesse mar. O ar quente tropical que surge da superfície do lago se junta ao ar frio das colinas ao redor, e o resultado turbulento disso faz com que se levantem grandes ondas, que tornam a navegação perigosa. Entretanto, o que nos chama a atenção é que Jesus diante dessa situação estava dormindo e o fato de estar dormindo demonstra Sua verdadeira humanidade. Porém, quando Jesus dá ordens ao vento e ao mar, expressam como Sua deidade era completa, pois somente o Deus Criador pode acalmar o vento e o mar e é isso que Jesus faz em nossas vidas quando estamos diante de uma situação inesperada.

Mesmo diante dos relatos desse evangelho, às vezes, não conseguimos ver a bondade de Deus nas circunstâncias da vida, no entanto, mesmo assim, Deus continua sendo sempre bom. Dessa forma, as tempestades da vida não anulam a bondade de Deus. Só conseguimos enxergar a majestade dos montes quando estamos no vale e é das profundezas da nossa angústia que nos erguemos para as maiores conquistas da vida, por intermédio de Cristo. Logo, podemos aprender algumas lições com as tempestades da vida, vejamos:

Primeiro, elas são inesperadas, elas chegam a nossa vida sem mandar recado, sem pedir licença. Pode ser um acidente, uma enfermidade, uma crise no casamento, um desemprego. Como seguidores de Cristo, devemos estar preparados para as tempestades que acontecerão. As aflições e as tempestades fazem parte da jornada de todo cristão;

Segundo, elas são perigosas, Lucas diz que sobreveio uma tempestade de vento no lago, correndo eles o perigo de naufragar (Lc 8.23). Muitas vezes, as tempestades chegam de forma tão intensa que deixam as estruturas da nossa vida abalada. Elas podem colocar no chão aquilo que levamos anos para construir;

Terceiro, elas podem não ser administráveis, sendo maiores do que nossa força. Os discípulos se esforçaram para contornar o problema, mas eles não puderam enfrentar a fúria do vento. Seus esforços não puderam vencer o problema, eles precisaram clamar a Jesus, pois o problema era maior do que a capacidade deles de resolver.

Enfim, apresentando um contraste, Marcos narra a ordem que Cristo deu à tempestade: “Cala-te, aquieta-te”. O tempo verbal usado no grego bíblico mostra que ele repreendeu o vento uma vez (ação imediata), e houve grande bonança, ou seja, não houve necessidade de repetir a ordem, pois suscitou obediência imediata. Vimos então que Jesus é perfeitamente Deus. Ele é o criador e interventor na natureza. O vento ouve a sua voz, o mar se acalma quando ele fala. Todo o universo se curva diante da sua autoridade, Ele é o verdadeiro Deus. É ele quem acalma os terremotos da nossa alma. Logo, as tempestades fazem parte do currículo de Jesus para nos fortalecer na fé, pois as provas não vêm para nos destruir, mas para nos fortalecer. Um escritor registrou: “Quase todas as joias de Deus são lágrimas cristalizadas”. Apesar de todas as obras que os discípulos testemunharam, este milagre foi tão fenomenal que ficaram imaginando quem realmente seria seu mestre. “Quem é este”?

### 3. Os Milagres de Libertação

A história do “endemoninhado gadareno” está relatada em Marcos 5.1-20. Aqui Marcos descreve na íntegra como Cristo lidou com o endemoninhado de Gadara. Já Lucas relata toda a história em 11 versículos (Lc 8.23-34), enquanto Mateus usa apenas sete (Mt 8.28-33). Marcos, porém, conta-nos todos os detalhes. Diante deste texto bíblico vamos analisar um relato de libertação de uma pessoa possuída por forças demoníacas.

Duas perguntas se tornam importantes para a nossa análise: quanto vale uma vida para Jesus? Quanto vale uma vida para Satanás? Jesus fez um alto investimento na vida desse homem gadareno, pois enfrentou a fúria do mar (Mc 4.35-41) e depois a fúria desse homem possesso. O escritor desse Evangelho vai de um mar agitado para um homem agitado. Humanamente, ambos eram indomáveis, mas Jesus os subjugou. E para Satanás? Quanto vale uma vida? Satanás roubou tudo de precioso que aquele homem possuíra: família, liberdade, saúde física e mental, dignidade, paz e decência. Logo, Satanás não faz nada pelas pessoas, mas contra elas, pois domina as pessoas através da possessão, arrasta- as para a impureza, bem como tornam-nas violentas.

Um dos principais objetivos do Evangelho, segundo Marcos, é o propósito de derrotar Satanás e suas hostes demoníacas. Logo, o poder de Jesus sobre Satanás fica claramente demonstrado na expulsão de demônios. Além disso, o que Jesus faz pelas pessoas e fez na vida do gadareno? Primeiro, Jesus libertou esse homem da escravidão dos demônios (5.6-15), porque Cristo é o libertador dos homens. Segundo, Jesus devolveu a ele a dignidade da vida, restituiu a sua sanidade mental, pois quando Jesus age, Ele restaura a mente, o corpo e a alma. Aquele homem não era mais violento, não ofereceu mais nenhum perigo à família nem à sociedade. Jesus continua transformando monstros em homens santos; escravos de Satanás em homens livres, abortos vivos da sociedade em vasos de honra. Em terceiro lugar, Jesus dá ao gadareno uma gloriosa missão, pois o enviou como missionário para sua casa, para ser uma testemunha na sua terra. Antes ele espalhava medo e pavor, agora, anuncia as boas-novas de salvação. O gadareno tornou-se um dos primeiros missionários entre os gentios. Jesus saiu de Gadara, mas deixou uma grande testemunha ali. “Todos se maravilhavam quando ouviam quão grandes coisas Jesus lhe fizera”. Ao final, o gadareno permaneceu dando um vivo e poderoso testemunho da graça e do poder de Jesus.

### 4. Os Milagres de Cura

Vários milagres de cura são registrados na Bíblia. No AT, esses milagres parecem centralizar-se em torno da época do Êxodo e do ministério de Elias e Eliseu. Por outro lado, o NT registra uma proporção maior de milagres de cura, quando foram operados por Cristo ou por seus seguidores, em seu nome. Dos 35 milagres de Cristo registrados no NT, 26 foram de cura. Dentre os de cura vamos destacar o da mulher hemorrágica por meio do toque da fé (Mc 5.24-34).

Ao ser expulso de Gadara, Jesus foi alegremente recebido por uma multidão em Cafarnaum, do outro lado do mar. A multidão o apertava, mas duas pessoas se destacam nesse trecho: Jairo e a mulher hemorrágica. Entretanto, quem era essa mulher? Ela era uma mulher anônima, excluída da comunidade, que perdera todos os seus bens na busca por saúde, pois sofria há doze anos de uma doença que a impedia de ser mãe. Ela aproximou-se de Jesus e com um toque silencioso e anônimo foi curada. Esta cura foi excepcional, não simplesmente porque foi instantânea, mas porque aconteceu sem qualquer participação aparentemente consciente de Cristo. Entretanto, Jesus logo tomou conhecimento do que aconteceu. Não devemos imaginar que o tocar nos vestidos tivesse algum efeito mágico, mas que Jesus em sua onisciência reconheceu o toque da fé e satisfez o desejo da mulher. Quanto à expressão “toque da fé”, cabe três destaques:

Primeiro, o “toque da fé” começa com a consciência de uma grande necessidade (Mc 5.25) – aquela mulher apresentava um sofrimento prolongado, pois buscou a cura durante 12 anos. Apresentava um sofrimento que destruía os seus sonhos, porque perdia sangue diariamente, e ela não apenas estava perdendo a vida, como não poderia gerar vida. Ela sofria também de segregação conjugal, social e religiosa, pois segundo a lei mosaica, uma mulher com fluxo de sangue não podia relacionar-se com as pessoas, nem poderia entrar no templo nem na sinagoga;

Segundo, o “toque da fé” acontece quando nos voltamos a Jesus (Mc 5.27) – os nossos problemas não apenas nos afligem, eles também nos arrastam aos pés de Jesus. A mulher com fluxo de sangue depois de procurar vários médicos buscou a Jesus, pois ela ouvira falar Dele e das maravilhas que Ele fazia. Quando nossos problemas parecem insolúveis, ainda podemos ter esperança. Aquela mulher ao buscar Jesus e tocá-lo recebeu cura física, emocional e espiritual;

Terceiro, o “toque da fé” acontece quando o contato pessoal com Jesus é o nosso maior objetivo de vida (Mc 5.27-34). Enquanto muitos comprimem a Cristo, mas poucos o tocavam pela fé. Jesus frequentemente estava no meio da multidão, infelizmente, muitos seguem a Jesus por curiosidade, mas não auferem nenhum benefício Dele. Agostinho, comentando essa passagem, disse que “uma multidão o aperta, mas só aquela mulher o toca, só ela recebe a cura”.

Desse modo, a mulher com o fluxo de sangue recebeu cura imediata e completa. Ela voltou para casa livre, perdoada e salva, pois Jesus disse à mulher: “Vai-te em paz e fica livre do seu mal”. A benção que Jesus deu a mulher é uma promessa para nós.

### Conclusão

Os milagres descritos no evangelho de Marcos revelam a profunda conexão entre o divino e o humano, mostrando como a intervenção de Deus pode transformar vidas de maneiras surpreendentes e poderosas. Através das ações de Jesus, vemos o alcance do poder divino em áreas da existência humana: cura, libertação e controle sobre a natureza. Cada milagre não apenas demonstra a autoridade de Jesus, mas também sublinha sua compaixão e preocupação com as necessidades das pessoas.

Os milagres de cura, em particular, destacam a capacidade de Jesus de restaurar a saúde e a dignidade daqueles que sofrem. Esses atos de cura são um testemunho do amor de Deus e da sua disposição para intervir nas situações mais desesperadoras da vida.

Além dos milagres de cura, os milagres de natureza, como a calmaria da tempestade, mostram o domínio de Jesus sobre as forças naturais. Estes eventos reforçam a ideia de que Jesus é o Criador, com autoridade sobre toda a criação. As tempestades que ele acalma não são apenas físicas, mas também simbólicas das tempestades espirituais e emocionais que enfrentamos. A mensagem é clara: em meio às crises, Jesus é a nossa paz e segurança.

Os milagres de libertação, como a cura do endemoninhado gadareno, revelam a luta contra as forças do mal e a vitória definitiva de Jesus sobre Satanás. Estes milagres demonstram o poder de Jesus para libertar os cativos e transformar vidas, reafirmando que ninguém está fora do alcance da graça de Deus.

Para os cristãos protestantes, os milagres de Jesus devem servir como fonte constante de inspiração e fortalecimento da fé. Eles nos lembram que o mesmo poder que operou através de Jesus está disponível para nós hoje, através do Espírito Santo. Enfrentamos desafios e provações, mas devemos lembrar que Jesus está conosco, pronto para intervir em nossas vidas. Que possamos viver com a confiança de que o Deus dos milagres ainda está ativo, que nossa fé seja fortalecida por esses relatos e que possamos ser testemunhas vivas do seu amor e poder transformador em nosso mundo.

## Lição 3 – A Autoridade de Jesus em Ação

### Objetivo Geral

Discorrer sobre a demonstração do Reino de Deus por meio da pregação de Jesus.

### Introdução

Jesus inicia seu ministério com a seguinte mensagem: “arrependei-vos e crede no evangelho”. Para Ele, você só poderá crer, de fato, se mudar sua maneira de viver. Os milagres do Seu ministério são um chamado para vivermos não de acordo com o que os olhos podem ver, mas segundo a fé. Seguir Jesus para os primeiros discípulos era viver de milagres. Em Marcos 9:23-24 um homem chega a Jesus com o filho lunático e Lhe diz: “Mestre, ajuda-me na minha falta de fé”. A resposta do Mestre foi “Se puderes crer, tudo é possível ao que crê”. Então, ter fé realiza o impossível, realiza milagres e curas.

Apresentaremos também Jesus como soberano e poderoso. Diante de Jesus, o maior de todos os homens, João Batista se sente indigno de desatar-lhe as correias das sandálias. Diante Dele, todo o joelho se dobra no céu, na Terra e debaixo da Terra. João reconheceu: “Após mim vem aquele que é mais poderoso do que eu” (Mc 1.7). Ele tem poder sobre a natureza, os demônios, a enfermidade e a morte. Ele tem toda a autoridade e todo poder no céu e na terra. Falaremos de um homem chamado Jairo, que como João Batista, também crê na autoridade e poder de Jesus sobre a morte e doença.

Nas Escrituras, podemos ver algumas reações das pessoas diante dos milagres de Jesus, encontramos incrédulos e crentes. A incredulidade traz morte ao mundo e fecha as portas para os milagres de Jesus. Ela é o mais tolo e inconsequente dos pecados, pois leva as pessoas a recusarem a mais clara evidência, a fechar os olhos ao mais límpido testemunho, e ainda a crer em enganosas mentiras. Já para os que têm fé, as portas são abertas para os milagres, curas e para a salvação.

A pregação é o instrumento usado por Deus para chamar os pecadores e é a maior necessidade da igreja e do mundo. As referências bíblicas sobre a pregação possuem relação com uma proclamação pública. A palavra mais característica no NT é keruso (mais de 60 vezes), que significa “proclamar como um arauto”. No mundo da Antiguidade o arauto era a figura principal para transmitir informações oficiais e todos os decretos reais. A mensagem do evangelho do NT, surgiu conforme o que poderíamos chamar de dois estágios, primeiro, apareceu João Batista como um arauto messiânico proclamando “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3.2), depois veio o Senhor Jesus proclamando a chegada do Reino de Deus.

### 1. A Importância da Fé na Realização de Milagres

No evangelho escrito por Marcos (11.22-24) observamos a ilustração de Jesus sobre o uso da fé quando diz que é possível que um monte seja lançado ao mar, que é o exemplo de algo simplesmente impossível a compreensão humana. Logo, a intenção de Cristo é deixar claro que crer é a chave para a realização. No entanto, todas as nossas petições devem ser feitas em nome de Jesus (Jo 15.16) e para que tudo seja segundo a Sua vontade (1 Jo 5.14). O que nos leva a crer poderosamente é o objeto da nossa fé: a verdade.

Em que sentido a fé move montanhas? Dizer que a fé move montanhas significa que não há nada impossível para aquele que confia plenamente em Deus. Em Mateus 17:19, os discípulos de Jesus não conseguiram expulsar um demônio que atormentava um jovem. Eles perguntaram a Jesus por que isso aconteceu, já que anteriormente haviam expulsado demônios. Jesus respondeu advertindo-os sobre a importância da fé e sua falta de perseverança na oração. Ele explicou que a verdadeira fé, mesmo que do tamanho de um grão de mostarda, permite a realização de coisas extraordinárias, ou seja, milagres (Mt 17:20). Quem possui tal fé é capaz de dizer a uma montanha: "Vá daqui para lá", e ela irá; e nada lhes será impossível (Mc 11:23).

Além disso, Jesus fala de uma fé que pode operar milagres e curas, e realizar grandes coisas para Deus. Trata-se de uma fé genuína, eficaz, que produz resultados. Essa fé não é uma crença na “fé” como uma força ou poder, mas sim “fé em Deus”, uma obra de Deus que se manifesta no coração do cristão (Mc 9:24). É a plena certeza que Deus transmite ao coração de que nossas orações serão respondidas (Mc 11:23). Essa fé é gerada internamente no crente pelo Espírito Santo, não podendo ser produzida pela nossa própria mente (Rm 12:3). Dependemos de Cristo em tudo, pois "Sem mim nada podereis fazer" (Jo 15:5). Devemos buscar Jesus, que é o autor e consumador da nossa fé (Hb 12:2). Sua presença real em nossas vidas e nossa obediência à Sua Palavra são a origem e o segredo da verdadeira fé, que opera sob o controle de Deus.

Por fim, a verdadeira fé sempre opera de acordo com a Palavra de Deus, não se baseando em desejos humanos, mas na vontade de Deus. Essa fé está intimamente ligada à perseverança na oração, à disciplina de santificação e, principalmente, à meditação na Palavra de Deus, pois é através das Escrituras que Ele se revela e expressa Sua vontade.

### 2. A Autoridade de Jesus Sobre as Doenças e a Morte

Em Marcos 5:35-43, encontramos mais um milagre de Jesus, onde Ele ressuscita a filha única de Jairo, um líder religioso, demonstrando Seu poder e autoridade sobre a morte e a doença. Jairo, um dos principais da sinagoga (lugar de adoração e ensino da Lei mosaica), era um líder leigo encarregado de supervisionar os serviços da sinagoga. Por já saber que Jesus tinha autoridade para operar milagres, Jairo foi ao Seu encontro com a maior necessidade que já havia enfrentado, pois ele acreditava que Cristo podia resolver seu problema. Aquele homem acreditava que apenas o toque do Mestre poderia curar sua filha, que estava muito enferma. Embora soubéssemos que Jesus poderia curar à distância, a fé de Jairo era inabalável.

No texto de Marcos 5:22-23, vemos Jairo indo a Jesus, levando sua causa desesperadora. Ele reconhece a autoridade de Jesus e O busca com um profundo senso de urgência. O sofrimento muitas vezes nos conduz a Deus. Ernesto Trenchard afirma que a aflição é frequentemente a voz de Deus. As aflições se tornam fontes de bênçãos quando nos trazem a Jesus. Assim, Jairo acreditava que se Jesus fosse com ele e impusesse as mãos sobre sua filha, ela seria salva e viveria. Ele confiava na eficácia do toque de Jesus e via nEle a esperança para sua necessidade urgente. Quando Jairo encontrou Jesus, ele demonstrou três atitudes marcantes: humilhou-se diante de Jesus, clamou com perseverança e com fé. John Henrique Burn diz: “não há lugar na terra mais alto do que aos pés de Jesus”. Jairo acreditava que Cristo tinha autoridade para levantar sua filha do leito da morte.

Jesus então vai com Jairo, levando esperança para seu desespero (Mc 5:24). Quando Jesus está conosco, podemos ter a certeza de que Ele se importa com nossa dor e com as pessoas, incluindo nós. Além disso, quando Jesus está conosco, os imprevistos humanos não podem frustrar os propósitos divinos. No caminho, Jesus parou para conversar com uma mulher e libertá-la de seu mal (Mc 5:25). Com isso, Jairo deve ter ficado aflito quando Jesus interrompeu a caminhada até sua casa, mas nada pega Jesus de surpresa, pois Ele tem toda a autoridade. Aquele pai então recebe a notícia de casa: sua filha já morreu, não adianta mais incomodar o Mestre (Mc 5:35). A causa parecia perdida, mas Jesus, ao ouvir aquelas palavras, disse a Jairo: “Não temas, crê somente” (Mc 5:36). Quando Jesus está conosco, a morte e a doença não têm a última palavra (Mc 5:40-42); pelo contrário, precisam se retirar diante da autoridade de Jesus.

Diante da voz do onipotente Filho de Deus, a morte se curva, dobra os joelhos e se prostra, vencida, perante o Criador. Quando Jesus chega à casa do principal da sinagoga, os presentes riram Dele, pois não conheciam o Deus vivo, e por isso, riram incrédulos. Mas Jesus, diante do coro da morte, ergue-se no solo da ressurreição: “Tomando-a pela mão, disse: Talita cumi, que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te! Imediatamente, a menina se levantou e pôs-se a andar…” (Mc 5:41-42). Para Jesus, não existe causa perdida.

### 3. A Reação das Pessoas Diante dos Milagres

O capítulo 5 do livro de Marcos apresenta o triunfo da fé, enquanto o capítulo 6 registra a tragédia da incredulidade. Aquele capítulo é um sinal luminoso do poder de Jesus no meio da escuridão da miséria humana. Vemos nele o triunfo de Cristo sobre o diabo, a doença e a morte. No entanto, no capítulo 6, vemos a incredulidade dos nazarenos, de Herodes e dos próprios discípulos. Logo, veremos neste tópico a reação das pessoas diante dos milagres, consideraremos duas situações, a saber: portas fechadas pela incredulidade e portas abertas pela proclamação do evangelho.

Quanto a incredulidade a encontramos nos versículos 1 e 2, do capítulo 6 desse evangelho. Jesus passa a ministrar em sua terra, na região de Nazaré, onde Ele havia crescido. Nesta ocasião as pessoas reconheceram a sabedoria e as maravilhas de Jesus, mas rejeitaram Sua mensagem por causa da dureza de coração e da frieza espiritual. Entre os versículos de 1 a 6, destacamos alguns pontos importantes:

Primeiro, Jesus oferece uma segunda chance à cidade de Nazaré, pois no início do Seu ministério (Lc 4.16-30), Ele já havia sido expulso da sinagoga dessa cidade. Agora, Jesus volta em Nazaré dando ao povo uma nova oportunidade. O Povo de Nazaré deveria se sentir o povo mais privilegiado do mundo, pois ali o Filho de Deus havia passado sua infância e juventude, vendo os nazarenos muito de perto a (…) glória de Deus, na face de Cristo (2 Co 4.6), porém eles rejeitaram o mensageiro e a mensagem.

Segundo, a incredulidade fecha as portas da oportunidade para Nazaré, uma vez que, Jesus não permaneceu lá. Ele foi adiante, não insistiu, Jesus seguiu procurando aqueles que pudessem responder aos Seus milagres e à Sua mensagem. Ele deixou Nazaré pela segunda vez, e não há menção de que tenha voltado lá. Assim, a maioria das pessoas pensa que tem ilimitadas oportunidades para crer, mas isso é engano.

Terceiro, a incredulidade de Nazaré fecha as portas para os milagres de Jesus. Jesus não “pôde” fazer em Nazaré nenhum milagre, pois onde se rejeita o doador, a dádiva é sem sentido. Como um princípio geral, o poder segue a fé.

Com relação às portas para a proclamação do evangelho, podemos observar que quando uma porta se fecha, Deus abre outras. Nesse sentido, Jesus ampliou Seu ministério comissionando os apóstolos, não os chamou apenas para estarem com Ele, mas também para os enviar a pregar e a expelir demônios (Mc 3.14-21). Jesus deu aos apóstolos a mensagem, quando eles saíram a pregar aos homens, não criaram a mensagem; levaram a mensagem. Eles não levaram aos homens as suas opiniões, mas a verdade de Deus. Os apóstolos pregaram o arrependimento, curaram os enfermos, expulsaram demônios, eles tinham a palavra e o poder.

### 4. A Demonstração do Reino de Deus por Meio da Pregação de Jesus

A pregação é a obra mais importante que se pode fazer no mundo. Nenhum trabalho pode ser mais primordial e mais urgente do que a pregação. Jesus Cristo, o Filho de Deus, tornou-se um pregador sendo uma de suas funções enquanto esteve no mundo. Ele não apenas foi pregador, mas o pregador modelo.

Sobre o ministério de pregação de Jesus, Marcos (1.14-15) começa sua narrativa com os eventos que aconteceram depois que João Batista foi entregue à prisão, assim como fizeram os escritores dos outros Evangelhos Sinóticos. No versículo 16, Jesus anunciou o Reino de Deus, pois esse era o tema de muitas profecias do Antigo Testamento e algo muito familiar para aqueles que ouviam Jesus. O “Arrependei-vos e crede” são atos de fé. Quando alguém aceita o único e verdadeiro objeto de sua fé, deixa de ser uma pessoa comum, porque só Jesus pode preencher o vazio de Deus que há em nós. No trecho em questão, Marcos fala sobre duas verdades acerca da pregação de Jesus:

Em primeiro lugar, Jesus só iniciou o seu ministério de pregação depois que foi revestido com o Espírito Santo e confirmado pelo Pai (1.10,11), pois não há pregação sem capacitação divina. Jesus também só iniciou a sua pregação depois que triunfou sobre o diabo no deserto (1.12,13). Logo, aqueles que querem ter um ministério de pregação precisam da unção do Espírito, da aprovação do Pai, do conhecimento da Palavra e da vitória sobre Satanás.

Em segundo lugar, Jesus evita os holofotes ou conflitos humanos. Possivelmente, qualquer pregador famoso gostaria de iniciar sua cruzada de pregação pela grande capital religiosa do mundo, a monumental cidade de Jerusalém, pois ela era a cidade da fé. Porém, Cristo direciona Seu ministério para uma região desprezada, a Galiléia, que era considerada uma região de trevas, era chamada Galiléia dos gentios, era terra de gente pobre, desprezada, enferma, possessa. Era um lugar atrasado, o fim do mundo, longe dos holofotes da fama. Foi nesse berço de trevas, conflitos, preconceitos e paganismo que o evangelho começou a ser proclamado.

Além dos locais geográficos, cabe destacar tambem os temas das pregações de Jesus, sendo ele subdividido em tema gral e particular, vejamos:

Quanto ao tema geral, Jesus pregou o evangelho de Deus. O proclamado inicia seu ministério sendo o proclamador. Jesus começou espalhando a alegria das boas-novas num berço de trevas e opressão. O evangelho de Deus deve ser o tema de toda pregação cristã. Mas, o que significa a palavra evangelho? Ela significa boas-novas, Jesus veio para trazer boas notícias. O evangelho é a promessa de vida; de perdão, de libertação, e de salvação. Esse tema é a mais esplêndida notícia que já soou neste mundo. O homem sem o evangelho está em trevas, o homem não podia conhecer quem é Deus. Jesus veio mostrar a verdade acerca de Deus.

Quanto ao tema particular, consiste na plenitude do tempo, pois o próprio Deus põe fim à espera, uma vez que o povo esperou a vinda do Messias milhares de anos e, finalmente, eis o dia chegado. Jesus veio ao mundo na plenitude dos tempos (Gl 4.4). Essa chegada trouxe também o Reino, que traz salvação aos homens, indica a soberania, o domínio, o reinado de Deus, reconhecido no coração e ativo na vida do seu povo, efetuando completa salvação.

Com relação ao Reino de Deus, fica uma pergunta: quais as condições para se entrar nele? Jesus não tinha apenas uma boa-nova para anunciar, mas também uma exigência a fazer. Ele apresenta duas condições para se entrar no Reino: arrependimento e crer no evangelho: Arrependimento, é uma palavra grega, metanoia, que significa mudança de mente, J.B. Carvalho, em seu livro Metanoia, fala que “para a maioria dos cristãos, na tradição e na tradução, metanoia se tornou arrependimento – seria uma mudança de rota, a conversão, o novo nascimento. Contudo, metanoia é mais que uma única experiência de mudança de mente, é uma mudança de mente continuada e sustentada. A metanoia começa na conversão e dura para toda a vida. Arrependimento é o início e não o fim da metanoia”. O começo da mensagem de Jesus ao mundo foi: “arrependei-vos e crede no evangelho”; E o que significa crer no evangelho? Egidio Gioia responde: “Significa crer em Deus, pois o evangelho é de Deus. Significa crer no Filho de Deus, pois Jesus pregou o evangelho de Deus. Significa crer no Espírito Santo, pois o Espírito Santo ungiu a Jesus para pregar o evangelho (…) Crer no evangelho é crer em Cristo crucificado, ressuscitado e glorificado. Crer em Cristo é ter a vida eterna”.

### Conclusão

Posto isso, as escrituras nos ensinam que com a fé podemos realizar milagres, e que ter fé em Deus realiza o impossível. Assim, dependemos de Cristo em tudo, “Sem mim nada podereis fazer” (Jo 15.5). Logo, buscamos, nesse estudo, destacar a autoridade de Jesus, mostramos Ele como soberano, pois o Filho de Deus tem a preeminência. Diante Dele, todo o joelho se dobra no céu, na terra e debaixo da terra. Ele tem poder sobre a natureza, os demônios, a enfermidade e a morte. Ele tem toda a autoridade e todo poder no Céu e na Terra.

Descrevemos ainda dois tipos de reações diante dos milagres de Jesus, a incredulidade e a fé. Quando Jesus chega a sua terra, Nazaré, para ministrar, os habitantes daquela região rejeitaram Sua mensagem e devido a incredulidade deles, Cristo não foi capaz de realizar ali nenhum milagre. Onde o Senhor Jesus deveria ter podido encontrar a maior fé Nele, descobriu a mais persistente incredulidade. Porém, diferente daquela reação, temos as pessoas com fé suficiente, que recebiam e criam na mensagem, eram abençoadas, criam na Palavra de Deus, ficavam maravilhadas com os milagres que Jesus e os apóstolos faziam.

Por fim, vimos que a pregação é a obra mais importante que se pode fazer no mundo, pois por meio dela, Jesus anunciou o Reino de Deus, bem como, as condições para se entrar no Reino: o arrependimento e crer no Evangelho. Entre o céu e a terra há um grande abismo, onde somente Jesus pode nos transportar em segurança para o céu. Logo, precisamos confiar Nele e agarrar-nos a Ele e, então, seremos levados salvos para o Reino de luz!

## Lição 4 – O Chamado ao Discipulado de Jesus

### Objetivo Geral

Discorrer sobre o chamado dos discípulos de Jesus.

### Introdução

A palavra grega mathetes empregada para discípulo é usada aproximadamente 270 vezes nos Evangelhos e livro de Atos. Ela é usada para definir um pupilo que se submete aos processos de aprendizado sob a responsabilidade de um professor. O conceito prevaleceu no Antigo Testamento e é exemplificado pelos “filhos dos profetas” (2 Rs 6.1), que foram os aprendizes que mais tarde substituíram Samuel, Elias e Elizeu. No Novo Testamento, em um sentido amplo, Jesus usou a palavra “discípulo” como aqueles seus seguidores vindos sob influência de seu ensino. Os discípulos de Jesus, hoje e naqueles dias, são aqueles que respondem ao seu convite: “Aprendei de mim”(Mt 11.29). Em sentido estrito, discípulo aplica-se ao círculo interno dos Doze, chamados em meio a um grupo maior para que pudessem estar com Cristo.

A cruz de Cristo é símbolo de sofrimento, morte, vergonha, zombaria, rejeição e renúncia pessoal. Quando um crente toma a sua cruz e segue a Cristo, ele nega-se a si mesmo (Lc 14.26,27) e precisa decidir abraçar três tipos de lutas: (1) lutar contra o pecado, crucificando suas próprias concupiscências; (2) lutar contra Satanás e os poderes das trevas, para estender o Reino de Deus, bem como a perseguição que surge por resistirmos aos falsos mestres que distorcem o verdadeiro evangelho; e, (3) sofrer o ódio e o escárnio do mundo por testificarmos contra as suas obras más, por separarmo-nos dele moral e espiritualmente e por rejeitarmos seus padrões e suas filosofias que são contrarias aos princípios cristãos.

No caminho para Jerusalém, via Jericó, ocorreu a maior e mais importante marcha da História. Ela foi a marcha de consequências eternas. Essa foi a marcha dos contrastes. Jesus sobe a Jerusalém corajosamente, enquanto seus discípulos estão cheios de temor. Ele sobe para dar a vida, eles sobem com para preservar as suas. Jesus sobe para servir, eles aspiram à grandeza. Cristo humilha-se, os discípulos exaltam-se. Quanto mais perto da cruz Jesus chega, mais o coração dos discípulos está endurecido e mais seus olhos estão turvos. Quanto mais Jesus se esvazia, mais eles se enchem de si mesmos.

Finalmente, a Grande Comissão é a ordenança dada por Jesus à Sua Igreja com o fim de levar as boas novas de salvação, a todos os povos, em todos os lugares, em todas as línguas a fim de alcançá-los para o Reino de Deus (Mt 28.18- 20; Mc 16.15-20; Lc 24.46-49; Jo 20.21,22; At 1.8). A Grande Comissão tem seu enfoque na vida das pessoas, envolvendo o aspecto espiritual, apontando para uma vida de reconhecimento do pecado e o arrependimento para que possam participar do Reino de Deus. “A grande Comissão preocupa-se, principalmente, com a expansão da Igreja no universo dos que ainda não pertencem à Igreja, quem quer que seja, e onde quer que esteja” (GABY, 2023, p. 8).

### 1. A Eleição dos Doze

No evangelho de Marcos 3:13-19, temos a eleição dos doze. Jesus tinha muitos discípulos, mas separou doze para serem apóstolos. Discípulo é um aprendiz, enquanto apóstolo é um enviado com uma missão maior, um embaixador em nome do Rei. A ordem é: primeiro converter, depois ordenar. Estes doze eram os apóstolos de Jesus – um grupo enviado para cumprir uma missão específica – e chamados a participar do ministério de milagres de Jesus.

Muitos poderiam ser discípulos, mas apenas um grupo seleto foi escolhido para certas tarefas de liderança. Eles foram os instrumentos para receber a revelação de Deus e foram inspirados por Deus para o registro das Escrituras. Segundo Dewey Mulholland, a decisão de Jesus de escolher os doze foi uma das mais cruciais da História. Ele não escreveu livros, não ergueu monumentos nem construiu instituições, mas discipulou pessoas de modo eficaz para perpetuar Seu ministério. A existência da igreja prova o acerto de Sua decisão.

Jesus escolheu soberanamente (Mc 3:13) Seus apóstolos (liderança da igreja) e podemos fazer três observações importantes:

A primeira é que Jesus escolheu segundo a expressa vontade do Pai, pois Lucas informa que antes de chamar os apóstolos, Jesus dedicou-se à oração: “Naqueles dias, retirou-se para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus. E, quando amanheceu, chamou a si Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos” (Lc 6:12-13).

A segunda é que Jesus escolheu de forma soberana, conforme a sua própria vontade. O evangelista Marcos registra isso em Mc 3:13. Jesus não fez uma pesquisa de opinião entre a multidão para escolher os doze, nem escolheu a liderança da igreja por critérios humanistas. Ele chama a quem quer, pois é soberano.

A terceira verdade é que Jesus escolheu e capacitou, pois os homens que Ele escolheu não possuíam qualidades especiais, não eram todos ricos, não tinham posição social influente, eram homens comuns, limitados, alguns iletrados, outros de temperamentos explosivos. Contudo, Jesus os escolheu, ensinou, equipou e revestiu de poder. Com esses homens, Ele transformou o mundo.

Quem foram esses doze eleitos por Jesus? Cristo os escolheu surpreendentemente (Mc 3:16-19), elegendo pessoas heterogêneas. Os doze são um espelho da nova família de Deus, composta de diferentes pessoas, lugares, profissões e ideologias. São pessoas limitadas e imperfeitas, que frequentemente discordam sobre muitos assuntos. Havia no grupo de Jesus desde um serviçal de Roma até um nacionalista que defendia a guerra contra Roma. Esse grupo tão heterogêneo aprendeu a viver sob o senhorio de Cristo e tornou-se uma bênção para o mundo.

A escolha foi soberana e baseada na graça, não nos méritos, já que a única coisa que se destaca neles é a prontidão para seguir Jesus. Assim, vejamos quem eram esses homens: Simão Pedro, André, Tiago de Zebedeu, João, Filipe, Natanael (também conhecido como Bartolomeu), Tomé, Mateus (chamado Levi), Tiago filho de Alfeu, Simão o zelote ou cananeu, Judas o irmão de Tiago (às vezes chamado Tadeu) e Judas Iscariotes. Jesus foi capaz de juntar ao Seu redor e unir em uma família homens de criação e temperamentos diferentes, às vezes, completamente opostos.

### 2. Discipulado: O Mais Fascinante Projeto de Vida

O ensinamento registrado em Marcos 8:34-38 é o resultado natural do sofrimento de Cristo. Se alguém quer seguir a Cristo, deve andar pelo caminho que Ele andou: o caminho da abnegação e da cruz. A cruz simboliza sofrimento, e a abnegação fala da prontidão em sofrer por alguém. Quem não se dispõe a carregar a cruz, não usará a coroa. Jesus sabia que as multidões O seguiam apenas pelos milagres e não estavam dispostas a trilhar o caminho da renúncia nem a se sujeitar ao discipulado. Ele não apenas abraça o caminho da cruz, mas exige o mesmo de Seus seguidores: renúncia e sacrifício (Mc 8:34).

Jesus só tem um tipo de seguidor: o discípulo. Ele ordenou à Sua igreja que fizesse discípulos, não admiradores. O discipulado é o mais fascinante projeto de vida. Podemos destacar alguns aspectos importantes em relação ao discipulado:

O discipulado é um convite pessoal, pois Jesus começa com uma chamada condicional: “Se alguém quiser...”. A soberania de Deus não violenta a vontade humana; é preciso existir uma predisposição para seguir a Cristo. Muitos querem apenas o glamour do evangelho, mas não a cruz. Querem os milagres, mas não a renúncia. Querem a prosperidade e a saúde, mas não o arrependimento. Querem o paraíso na terra, mas não a bem- aventurança no céu. O discipulado tem um preço a ser pago, mas somente para aqueles que quiserem.

O discipulado é um convite para uma relação pessoal com Jesus: “...vir após mim...”, porque ser discípulo não é ser um admirador de Cristo, mas um seguidor. Assim como Jesus escolheu o caminho da cruz, o discípulo precisa seguir a Cristo não para o sucesso, mas para o calvário. Não há coroa sem cruz, nem céu sem renúncia. “Vir após mim” é ligar-se a Cristo como Seu discípulo.

O discipulado é um convite para uma renúncia radical, já que Cristo nos chama não para a afirmação do eu, mas para a sua renúncia. “Negue-se a si mesmo” não significa odiar a si próprio ou rejeitar o básico de que precisamos para viver, mas entregar o controle da nossa vida totalmente a Cristo.

O discipulado é um convite para morrer, pois “tomar a cruz” é abraçar a morte. Quem carregava a cruz estava a caminho da execução. Portanto, isso representa aquele que está morto para suas próprias vontades, alguém que está disposto a assumir todos os compromissos para que seu viver cristão seja completo.

O discipulado é um convite para uma caminhada dinâmica com Cristo: “e siga-me”, pois seguir a Cristo é algo sublime e dinâmico. Esse desafio nos é exigido todos os dias, em nossas escolhas, decisões, propósitos, sonhos e realizações.

Além disso, o discípulo conhece a necessidade da renúncia (Mc 8:35). Os valores de um discípulo estão invertidos: ganhar é perder e perder é ganhar. Para garantir a vida eterna, é preciso deixar de lado os bens materiais e os relacionamentos aos quais tanto nos apegamos (Mt 16:24-27). A aparente perda material significa ganho, enquanto o aparente ganho material pode ser considerado uma perda (Mt 19:21).

O discípulo também sabe o valor inestimável da vida. Em Marcos 8:36, há um contraste entre o mundo e a alma. O termo “alma” é o mesmo que “vida” em Marcos 8:35. Ambos são traduções de psyché. Este princípio se aplica tanto ao nível físico quanto ao espiritual. Que valor há em obter tudo o que o mundo oferece se uma pessoa morre e não pode desfrutá-lo? Ou, qual a virtude de acumular um mundo de posses terrenas durante alguns poucos anos se isso significa perder a vida eterna? O valor de uma simples alma tem um significado extraordinário no Reino de Cristo.

Enfim, o discípulo é alguém que não se envergonha de Cristo (Mc 8:38). Quando Cristo usou a expressão “se envergonhar de mim e das minhas palavras”, estava estabelecendo um contraste com a atitude de disposição de perder a vida por causa Dele e do Evangelho. Envergonhar-se é negar Cristo na hora da provação em vez de ficar com Ele, mesmo sob o risco da morte. Da mesma maneira, quando o Senhor vier como Juiz, Ele se envergonhará e repudiará aqueles que O repudiaram.

### 3. O Servir de Cristo e o Desejo de Grandeza dos Discípulos

Em Marcos 10:35-45, Jesus ensina sobre o serviço enquanto os discípulos aspiram à grandeza. Ele se humilha, e os discípulos se exaltam. Tiago e João, aliados com Salomé, sua mãe, chegam diante de Jesus com um pedido: querem preeminência na glória. Buscam tronos, holofotes e reconhecimento, enquanto Jesus percorre o caminho da renúncia, e eles seguem pela estrada da ambição. Moody afirma que este triste espetáculo de ambição egoísta se transformou em uma ocasião para o Senhor reafirmar a natureza da verdadeira grandeza. Ele lembrou os doze apóstolos do padrão de grandeza estipulado pelo mundo: os governadores e dignitários têm as pessoas sob seu domínio e exercem autoridade sobre elas. Entretanto, esse não deve ser o costume entre os seguidores de Cristo. Pelo contrário, aquele que quer tornar-se grande deve ser o que serve aos seus companheiros. O próprio Jesus foi o exemplo supremo de alguém que manifestava a verdadeira grandeza. Ele, que era o Messias de Deus, poderia muito bem ter reivindicado seus direitos de ser servido pelos homens. Mas, pelo contrário, Ele veio para servir e dar sua vida pela humanidade.

Segundo Rick Warren, fomos moldados para servir a Deus; estamos na Terra para fazer uma contribuição, não fomos criados apenas para consumir recursos. Deus nos projetou para que nossa vida faça a diferença; fomos criados para acrescentar à vida na Terra, não apenas para extrair. Fomos criados e salvos para servir a Deus. A Bíblia diz: “Foi ele quem nos salvou e nos escolheu para o seu santo trabalho, não porque merecêssemos, mas porque esse era o seu plano muito antes do princípio do mundo – mostrar o seu amor e sua bondade para conosco por meio de Cristo” (2 Tm 1:9). Não fomos salvos pelo serviço, mas para o serviço.

No Reino de Deus, temos um lugar, um propósito, um papel e uma função a cumprir. Isso dá à nossa vida enorme importância e valor. Daremos a vida por algo. O que será? Uma carreira, um esporte, um passatempo, fama, riquezas? Nenhuma dessas coisas será importante para sempre. Servir é o caminho para a verdadeira importância. É por meio do ministério que descobrimos o significado da vida. A Palavra de Deus diz: “Todos achamos nosso significado e função, como parte do seu corpo” (Rm 12:5). Ao servirmos juntos na família de Deus, nossa vida assume uma importância eterna.

Logo, Jesus, percebendo a ambição no coração dos Seus discípulos, chama-os à parte e ministra-lhes mais uma lição sobre o espírito de grandeza que predomina no mundo. Ser grande no conceito do mundo é ser servido e ter poder sobre os outros. Mas, segundo Jesus (Mc 10:43-44), a grandeza no Reino de Deus é medida pelo serviço e não pela dominação. Ser grande é ser servo, é estar a serviço dos outros em vez de ser servido pelos outros.

### 4. O Chamado à Participação nos Milagres

Em Marcos 16:14-20, Jesus comissiona seus discípulos para pregar o Evangelho e realizar milagres. Trata-se da Grande Comissão, a ordem pós- ressurreição de Jesus aos seus discípulos, que é encontrada também nos outros três Evangelhos (Mt 28:19-20; Lc 24:47; Jo 20:21) e tem o propósito de fazer discípulos que observem os mandamentos de Cristo. As Escrituras ensinam claramente que Cristo deseja que seus seguidores realizem milagres ao anunciar o evangelho do Reino de Deus. Os discípulos de Jesus não deveriam apenas pregar o evangelho do reino e levar a salvação àqueles que creem (Mc 16:15-16), mas também concretizar o Reino de Deus, como fez Jesus (At 10:38) ao expulsar demônios e curar doenças e enfermidades.

Paul Beasley-Murray faz algumas considerações sobre esta passagem bíblica:

Primeiro, a boa nova é o próprio Jesus (Mc 16:15). As boas-novas são uma das palavras favoritas de Marcos, usadas sete vezes. Para ele, a história de Jesus é a boa nova a ser proclamada, pois Jesus, pela sua morte e ressurreição, estabeleceu o Seu Reino.

Segundo, a boa nova de Jesus precisa ser pregada (Mc 16:15). O verbo "pregar" é outra palavra preferida de Marcos, encontrada 14 vezes neste evangelho, enquanto aparece apenas nove vezes em Mateus e Lucas. Marcos enfatiza que Cristo veio pregando (Mc 1:14), chamou seus discípulos para pregar (Mc 3:14), enviou-os a pregar e agora ordena que preguem em todo o mundo. Dewey Mulholland afirma que estar calado é um perigo maior que perseguição e morte; o evangelho só é boas-novas se for compartilhado.

Terceiro, a boa nova de Jesus precisa ser recebida (Mc 16:16). O evangelho só é experimentado como boas-novas quando é recebido e crido. A Palavra de Deus é como uma espada de dois gumes: traz vida e também sentencia com a morte.

Por último, a boa nova de Jesus precisa ser confirmada (Mc 16:18). Adolf Pohl afirma que os sinais não estão vinculados a cargos, mas à fé que permite que Deus seja Deus. Os sinais fazem parte do contexto missionário, pois o fato de "acompanharem" pressupõe que os discípulos estão em missão para difundir o evangelho.

Enfim, a igreja é chamada para ser um sinal de Cristo vivo e ressurreto no mundo. William Barclay conclui seu comentário sobre Marcos afirmando que a vida cristã é vivida na presença e no poder daquele que foi crucificado e ressuscitou. O evangelista Marcos finaliza seu livro enfatizando duas verdades: Cristo é coroado à destra de Deus Pai e a igreja, em parceria com o Senhor, realiza Sua obra (Mc 16:19-20).

### Conclusão

Muitos dos seguidores de Jesus poderiam ser chamados de discípulos porque ouviam o Mestre e criam no que Ele dizia. Entretanto, Cristo escolheu apenas um grupo seleto e heterogêneo para confiar a ele a tarefa de levar o evangelho a todo o mundo. Um grupo como esse era um risco incrível, mas em Cristo, não há galileu nem judeu, nem conservador nem progressista, nem pecador nem cobrador nem zelote. Foi feito algo novo! Todos nós temos limitações. Jesus pode transformar um Tomé cético e incrédulo, num homem crente. Ele pode usar gente como você e eu na sua obra.

O chamado de Jesus ao discipulado foi feito a todos que quiserem “vir após mim”. Não há nada que possa impedir quem está disposto a fazer isso. Nos dias de Jesus, tomar a cruz era, antes de tudo, uma confissão pública, não uma decisão tomada em segredo. O discipulado é uma proposta oferecida a todos indistintamente. Cristo dirige-se não apenas aos discípulos, mas também à multidão. O discipulado não é apenas para uma elite espiritual, mas para todos quantos quiserem seguir a Ele.

A verdadeira grandeza não é questão de liderança, de autoridade, nem de grandes realizações pessoais, mas sim uma atitude do coração, de viver para Deus e para o próximo. Devemos nos dedicar a Deus de tal modo que nos identifiquemos com Sua vontade e propósitos na terra, sem desejarmos honrarias, posições de destaque ou recompensas materiais. Cumprir a vontade de Deus, levar os outros à salvação em Cristo, e agradar-Lhe são as recompensas dos que são realmente grandes.

Finalmente, os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperou com eles confirmando a Palavra por meio de sinais. Esses cristãos, revestidos com o poder do Espírito Santo, mesmo perseguidos, empobrecidos, empunharam a bandeira do evangelho, proclamaram com desassombro a mensagem da ressurreição e conquistaram o mundo com o poder do evangelho.

## Referências Bibliográficas

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LOPES, Hernandes Dias. Marcos o Evangelho dos milagres. 2. Ed. – São Paulo: Hagnos, 2012. (Comentários Expositivos Hagnos).

PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia / Myer Pearlman: tradução Lawrence Olson – São Paulo: Ed. Vida, 2006.

PFEIFFER, Charles F. Comentário Bíblico Moody. Volume 4: Os Evangelhos e Atos. São Paulo, 2001.

RADMACHER, Earl D. O novo comentário bíblico NT, com recursos adicionais – A Palavra de Deus ao alcance de todos. 1 Ed. Rio de Janeiro, 2010.

RIBAS JÚNIOR, Degmar. Dicionário Bíblico Wycliffe. 2. Ed. Rio de Janeiro, 2007.

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal – Revista e Corrigida. Edição 1995. Rio de Janeiro, 2002.

WARREN, Rick, 1954. Uma vida com propósitos: você não está aqui por acaso; tradução James Monteiro dos Teis – São Paulo: Editora Vida, 2003.

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Curso: Marcos
Ano: 2024
1ª Edição

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