Introdução às Cartas Paulinas

Um estudo sobre a vida de Paulo e suas epístolas.

Materiais de Apoio

Sumário

Apresentação

A importância das Cartas Paulinas para a história do Cristianismo é incalculável. Praticamente 50% do Novo Testamento foram escritos por Paulo, o apóstolo dos gentios, o que bem demonstra a dimensão de sua mensagem e a consistência teológica que nos é revelada por intermédio de seus manuscritos.

Temas fundamentais sobre a teologia cristã foram didaticamente trabalhados em suas cartas, tais como o significado expiatório da morte de Jesus Cristo, Sua divindade messiânica, a salvação pela graça, a justificação pela fé, o novo nascimento e até mesmo diretrizes sobre as qualidades necessárias àqueles que buscam o diaconato e o episcopado, são exemplos que podem ser mencionados.

Consequentemente, as denominadas Epístolas Paulinas fornecem uma sólida base para a legitimação da nossa fé, revelando uma substancial explicação sobre o cumprimento do projeto arquitetado por Deus para a salvação da humanidade, mostrando-se essenciais à explicação da doutrina cristã que, há mais de dois mil anos, provam ser necessárias à persistente marcha da Igreja ao longo de sua própria história.

De igual importância, é preciso enfatizar que Paulo foi o maior plantador de igrejas daquele período histórico do Cristianismo. Assim, ao estudarmos suas cartas, também devemos compreender minimamente os traços mais marcantes de sua personalidade, de sua formação cultural e de sua própria conversão, pois esses elementos certamente contribuíram significativamente para que a missão a ele atribuída fosse desenvolvida com tamanha excelência.

Exatamente por esse motivo, o presente estudo está dividido em 4 módulos. O primeiro, baseia-se em uma das obras do pastor Hernandes Dias Lopes, livro intitulado "Paulo, o maior líder do Cristianismo", e revela algumas características marcantes do homem separado por Deus para anunciar o Evangelho de Cristo além das fronteiras do Oriente Médio.

O segundo módulo objetiva demonstrar a eficiência do gênero literário utilizado por Paulo naquele período histórico da era cristã. O desafio é assimilarmos a dificuldade enfrentada no processo de escrita propriamente dito, compreendermos a estrutura de suas cartas e explorarmos, em um primeiro momento, aspectos gerais sobre a teologia presente em seus escritos.

Para tanto, utilizaremos a obra de John Harvey, professor de Novo Testamento no Columbia International University Seminary, da Carolina do Sul/EUA, sob o título "Interpretação das Cartas Paulinas", publicação de 2017, e a Bíblia de estudo Macarthur (ARA). Nesse caso, é importante registrar que a proposta para esse segundo módulo é apenas a de pontuar alguns dos aspectos gerais que poderiam ser trabalhados.

Os dois últimos módulos enfatizam o conteúdo das cartas propriamente ditas. A proposta é destacar o tema, o propósito, a visão panorâmica e a data em que a Epístola foi escrita, procurando, sempre que possível, propor uma reflexão sobre a mensagem de Paulo e os grandes desafios da Igreja neste século 21. Para tanto, será novamente utilizada a Bíblia de Estudo Macarthur (ARA).

Já finalizando esta apresentação, é importante reforçar a ideia de que o presente conteúdo foi pensado para 4 encontros em classe de escola bíblica, razão pela qual não há qualquer pretensão em exaurir todos os aspectos que poderiam ser trabalhados em relação aos escritos do maior evangelista do século I.

Lição 1 – Mas afinal, quem realmente foi Paulo?

Objetivo Geral

Analisar o contexto histórico e biográfico da vida de Paulo, com a finalidade de iniciar o estudo das mensagens de suas cartas.

Texto Base: Filipenses 3.5-6

Introdução

De maneira majoritária, os estudiosos afirmam que Paulo foi o maior teólogo da história do Cristianismo, e nenhum outro homem exerceu influência semelhante sobre a nossa civilização ou teve suas obras tão divulgadas e comentadas quanto os seus escritos. Entre esses estudiosos, destaca-se Hernandes Dias Lopes.

Ainda segundo referido pastor, Paulo também foi o maior bandeirante do Cristianismo, pregou com dedicação e zelo entre gentios e judeus, viveu sua vida com ardor e paixão, antes de sua conversão foi um implacável perseguidor de cristãos, e após sua conversão tornou-se um exemplo de zelo, de dedicação e de amor em anunciar o Evangelho de Cristo, independentemente do preço a ser pago.

Harvey, professor e exímio escritor, por sua vez, afirma que as Cartas de Paulo respiravam o espírito da época em que foram escritas, e enfatiza a atualidade de seu conteúdo teológico. Em suas próprias palavras, os desafios que os primeiros leitores enfrentavam são bastante semelhantes às adversidades que a Igreja deste século experimenta.

Nesse caso, e ainda segundo o professor de Novo Testamento da Carolina do Sul, a instrução que Paulo ofereceu aos primeiros destinatários permanece necessária.

Exatamente por esse motivo, compreender suas Epístolas permite-nos avigorar a nossa fé e reforçar o entendimento sobre a extraordinária importância do que Cristo fez por nós.

Que o presente estudo nos permita exatamente isso: compreendermos ainda mais a importância do sacrifício do filho de Deus, assimilarmos a relevância das cartas de Paulo para a Igreja e relembrarmos que o exercício da nossa fé deve ocorrer com a mesma convicção com a qual ele exercia seu ministério.

Tópico 1: Paulo: primeiros passos e formação cultural

Analisar alguns dos grandes acontecimentos relacionados à vida de Paulo e refletir sobre certas características de sua personalidade e de sua formação cultural, inegavelmente facilita a compreensão sobre a importância de seu ministério, sobre a determinação com a qual ele o exercia e sobre a profundidade de seus escritos.

Sabemos que Paulo (à época, citado como Saulo) nasceu na cidade histórica de Tarso, localizada na Cilícia, região atualmente pertencente à Turquia. Tarso tornou-se capital da província romana daquela região em 64 antes de Cristo por decisão de Pompeu, um dos generais que integraria o primeiro triunvirato romano, 4 anos mais tarde.

Diversos registros históricos (dentre os quais as anotações do portal ad cummulus, estudo sobre religião) revelam que o Mediterrâneo Oriental, no qual se localizava a Cilícia, era dominado por piratas pelo menos desde o final do segundo século antes de Cristo. Tratava-se de um grupo altamente capacitado, organizado e detentor de expressiva capacidade bélica, razão pela qual as comunidades ali existentes eram facilmente subjugadas e constrangidas a aceitar o estilo de vida então imposto.

Quando tais atividades começaram a causar prejuízo à elite romana, o general Pompeu foi autorizado a utilizar de todos os meios necessários para enfrentá-los e o mais brevemente possível pacificar aquela região. Assim, Roma lhe concedeu ilimitados recursos financeiros e bélicos e algumas cidades ali existentes contribuíram significativamente para que a vitória ocorresse em pouco tempo.

Rodrigo Silva, famoso teólogo e arqueólogo brasileiro, afirma que no ano 66 antes de Cristo, o referido general romano agraciou a todos os moradores da cidade de Tarso com o título de cidadania romana honoris causa em razão de sua colaboração quando do enfrentamento dos piratas, registro bastante significativo para este momento de nosso estudo.

Afinal, tal afirmação ratifica os estudos do portal Ad Cummulus, e fortalece uma das hipóteses possíveis que justificam a ascendência romana de Paulo. Além disso, é importante registrar que os ancestrais de referido apóstolo residiam naquela região, provavelmente como consequência da primeira diáspora judaica, ocorrida no séc. 6 antes de Cristo durante o exílio babilônico.

Quanto à cidade propriamente dita, Murphy-O'Connor registra que ali havia escolas primárias pagãs e judaicas, as crianças ingressavam no ensino a partir dos 6 anos e eram instruídas em leitura, escrita, aritmética e iniciação em assuntos relacionados às instituições do Estado e religião.

Murphy-O'Connor também esclarece que, além do ensino regular comum a todas as crianças da cidade, os meninos judeus, por determinação de seus pais, eram compelidos a aprender a base de sua identidade judaica, o que incluía aspectos culturais, idioma e rigoroso estudo da lei (situação do jovem Saulo). Exatamente por esse motivo, o precitado autor registra que o primeiro contato de Paulo com a Septuaginta deve ter ocorrido durante seus primeiros anos de vida.

Ainda de acordo com o mesmo autor, o aramaico era comum entre a população semítica que ali habitava, e os estudantes aprendiam a viver em um mundo helenístico, ou seja, culturalmente importante. Nesse caso, podemos admitir que a filosofia exercia grande influência na formação educacional, o que incluía, por exemplo, o estoicismo, escola filosófica relevante na cidade de Tarso e que enfatizava o uso da razão, a valorização da virtude, a indiferença em relação a fatores externos e a aceitação do próprio destino, informações que serão retomadas adiante.

Além disso, e ainda conforme o trabalho de Murphy O'Connor, os estudos secundários, iniciados aos 11 anos e também de base helenística, visavam não apenas o desenvolvimento de um espírito crítico, mas a transmissão da cultura presente nas obras dos grandes pensadores da época, tais como o poeta Homero, o dramaturgo Eurípedes e um dos mais célebres oradores de Atenas do séc. 4 antes de Cristo, Demóstenes.

Outra importante informação a se extrair do trabalho de Murphy-O'Connor, é que em Tarso também havia diversas escolas de retórica. Assim, segundo referido autor, os estudantes da cidade possuíam uma grande capacidade de convencimento e podiam falar de improviso, sem cessar e sobre qualquer assunto, atributo inegavelmente presente nos escritos e na biografia do apóstolo dos gentios.

Consequentemente, quando saiu de Tarso para Jerusalém, o jovem Saulo já era um grande orador, falava pelo menos o grego, o aramaico, possivelmente o hebraico, possuía uma boa noção sobre questões de Estado, havia estudado filosofia, foi influenciado pelo estoicismo, e em razão dos ensinamentos de seus pais, conservava uma sólida base de sua identidade judaica, o que significa dizer, um rígido respeito pela lei mosaica. Esse era o jovem que saiu de Tarso e foi para Jerusalém estudar aos pés de Gamaliel.

Filipenses 3.5-6 nos revela que Paulo foi circuncidado ao oitavo dia, era da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus, segundo a lei, fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível. Ou seja, sua ascendência judaica e consequente zelo pela lei mosaica, sua reverência à virtude e a racionalidade com a qual fazia escolhas (resultado da influência do estoicismo) estão presentes nessa passagem da Carta à igreja em Filipos.

De igual modo, no livro de Atos, cap. 21, verso 37, em uma das ocasiões na qual Paulo fora preso, há o registro de que o tribuno ficou surpreso quando percebeu que o apóstolo era fluente em grego. Além disso, no verso 39 desse mesmo capítulo, Paulo declara ser cidadão de Tarso, "cidade não pouco célebre", ou seja, a capital romana na Cilícia, grande centro cultural e de significativa importância comercial naquele tempo, e no versículo seguinte (verso 40 do mesmo cap. 21) Paulo inicia sua defesa falando em hebraico, registros que confirmam sua origem, e sua excelente formação cultural.

Enfim, agora sabemos que Paulo era um homem intelectualmente preparado, fluente nos principais idiomas daquela época, inteirado sobre questões de Estado e religião, conhecedor da lei e da tradição de seus pais, um excelente orador, versado na obra de grandes filósofos e influenciado pelo estoicismo, o que o fazia valorizar a autossuficiência, a ser orientado pela lógica e a ser firme diante de qualquer adversidade.

Podemos concluir, portanto, que a determinação de "Saulo" em perseguir os cristãos, era um resultado lógico e inegociável que decorria tanto de sua própria ascendência e farisaísmo quanto de sua formação cultural. Além disso, é inegável que a convicção dos cristãos em não renunciar à sua fé, mesmo diante da morte, despertava seu interesse e até mesmo o incomodava já que aquele comportamento virtuoso e inabalável, em muito se assemelhava ao estoicismo que tanto o influenciava.

Tópico 2: Paulo: um religioso memorável e um perseguidor implacável

Sobre esse ponto, Hernandes Dias Lopes propõe uma reflexão interessante, pois considera provável que o início da conversão de Saulo tenha ocorrido antes de sua queda, no caminho para Damasco. Ela teria começado, segundo referido autor, durante o martírio de Estêvão (Atos 7.58), pois Saulo era o jovem que segurava as capas dos algozes e testemunhou o momento em que, pouco antes de sua morte, aquele diácono da igreja (Atos 6.5) orou ao Senhor clamando por perdão para os seus malfeitores (Atos 7.60).

Quanto à sua religiosidade, na Carta aos Gálatas, capítulo 1, verso 14, Paulo afirma que, em sua nação, ele excedia a muitos de sua idade quanto ao judaísmo, sendo, segundo suas próprias palavras, extremamente zeloso das tradições de seus pais. Além disso, no verso anterior do mesmo capítulo 1, ele reconhece a forma violenta com a qual perseguia a igreja e procurava destruí-la, e em Atos, capítulo 22, verso 3, ele declara ter estudado aos pés de Gamaliel, doutor da lei e mestre venerado por todo o povo, conforme Atos 5.6.

De igual modo, e ainda conforme os escritos de Hernandes Dias Lopes, quando escreveu a Tito, na ilha de Creta, Paulo fez referência a Epimênedes, filósofo cretense do século 6º antes de Cristo, o que confirma a cultura enciclopédica que possuía, e sendo fariseu, também era membro da seita mais rigorosa dos judeus, o que nos é confirmado em Atos 26.5.

Todos esses registros nos permitem afirmar, com segurança, que até aquele momento, Saulo, de fato, era um religioso memorável e um perseguidor implacável da Igreja. Ainda assim, não é difícil imaginarmos, já neste momento, o que um homem tão qualificado poderia realizar depois que fosse impactado pelo poder de Deus.

Tópico 3: Paulo: um touro indomável

Hernandes Dias Lopes também ressalta que Saulo respirava ameaças e era, conforme já demonstrado, um perseguidor violento, agindo praticamente da mesma forma com a qual uma fera selvagem se lança sobre a presa para devorá-la. Ele perseguiu o cristianismo que então nascia, conduzindo à prisão tanto homens quanto mulheres (Atos 22.4) e açoitava nas sinagogas aqueles que criam em Jesus, muitas vezes fazendo-os blasfemar (Atos 22.19 e 26.11).

Segundo referido autor, sua determinação era algo espantoso e agora que já conhecemos um pouco sobre sua formação intelectual e religiosa, torna-se mais fácil admitirmos que alguém com aquele tipo de perfil, certamente considerava correto o que fazia, e tal estratégia mostrava-se plenamente justificável, inclusive, à luz da lei mosaica. Ainda, era inadmissível, para Saulo, que um nazareno crucificado como criminoso pudesse ser o Messias prometido por Deus. Afinal, alguém dependurado em uma cruz e considerado pecador, jamais poderia ser o Salvador do mundo.

Todavia, a fúria de Saulo em momento algum anulou o projeto de Deus. Aliás, quando escreveu sua Carta aos Gálatas, mais precisamente no capítulo 1, verso 15, o agora Paulo de Tarso admitiu que aprouve a Deus tê-lo separado desde o ventre de sua mãe para anunciar a Cristo entre os gentios. Assim, "um touro bravo estava prestes a ser amansado pelo aguilhão"... pois, o Senhor já "ferroava" sua consciência, ao mostrar como aqueles discípulos presos, torturados e mortos partiam com serenidade. "O algoz estava furioso, mas suas vítimas morriam cantando e orando." (trechos da obra de Hernandes Dias Lopes).

Tópico 4: Paulo: uma pedra lapidada

A conversão de um homem com tais características certamente seria algo extraordinário e foi exatamente o que se ultimou no caminho para Damasco. Aliás, segundo Hernandes Dias Lopes, é provável que a conversão de Saulo tenha sido o momento mais marcante da história da Igreja depois do Pentecostes, pois nenhum outro homem exerceu igual influência no cristianismo, e nenhum outro homem foi tão notório para a história da humanidade quanto Paulo.

A conversão de Saulo foi um momento tão significativo, que Lucas a menciona três vezes no livro de Atos (capítulos 9, 22 e 26), e neste ponto convém transcrever integralmente os escritos do Pr. Hernandes:

"Paulo caiu por terra (At 22.7). O touro furioso, selvagem e indomável estava subjugado. Aquele que prendia estava preso. Aquele que encerrava em prisão estava dominado. Aquele que se achava detentor de todo o poder para perseguir estava prostrado ao chão, impotente. O Senhor quebrou todas as suas resistências. Paulo ouviu uma voz (At 22.7). O mesmo Jesus que ferroara sua consciência com aguilhões troveja, agora, aos seus ouvidos, desde o céu: "... Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura cousa é recalcitrares contra os aguilhões" (At 26.14). A voz do Senhor é poderosa. Ela despede chamas de fogo. Faz tremer o deserto. É irresistível. Paulo então perguntou: "... quem és tu, Senhor? Ao que Jesus respondeu: "... Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem tu persegues" (At 22.8). O mesmo Paulo que perseguia a Jesus (At 26.9) chama, agora, Jesus de Senhor. Ele se curva. Ele se prostra. O boi selvagem foi subjugado! Não há salvação sem que o pecador se renda aos pés do Senhor Jesus. A autossuficiência de Paulo acaba no caminho de Damasco."

Depois de se render ao Senhor, Paulo deixou de ser o agente da morte e passou a ser o anunciante da vida. Ele começou a pregar a tempo e a fora de tempo, em prisão e em liberdade, com saúde ou doente, pregou em lares, em sinagogas, em templos, nas ruas, nas praças, na praia, em navio, em salões governamentais.

Onde chegava, dedicava-se ao ministério para o qual fora vocacionado, e os corações dos homens eram impactados pelo poder do Evangelho.

Suas Cartas são mais conhecidas do que qualquer outra obra da história da humanidade e, porque indiscutivelmente inspiradas pelo Espírito Santo, alimentam milhões de crentes até os dias atuais. Elas são verdadeiros luzeiros que brilham, verdades inspiradas que ensinam, exortam e constrangem o pecador a reconhecer sua condição e a admitir que, sem Cristo, estamos mortos (trechos inspirados na obra de Hernandes Dias Lopes).

Conclusão

Conclui-se que o apóstolo Paulo foi moldado de maneira singular por sua formação cultural, religiosa e intelectual, que, embora inicialmente o conduzisse a perseguir o Cristianismo, preparou-o para se tornar um dos maiores propagadores da fé cristã. Sua transformação, que teve início no caminho para Damasco, revela como Deus pode usar a determinação humana e até mesmo seus erros para cumprir propósitos grandiosos. A história de Paulo demonstra que, sob a orientação divina, até o mais implacável opositor pode ser convertido em um instrumento poderoso para a glória de Cristo.

Ao longo de sua vida, Paulo exemplificou dedicação incondicional ao Evangelho, enfrentando desafios, perseguições e sofrimento com coragem e fidelidade. Seus escritos, marcados por profundidade teológica e sabedoria prática, continuam a edificar a Igreja e a inspirar crentes a viverem com convicção e zelo pela Palavra de Deus. Sua trajetória reflete não apenas sua obediência ao chamado divino, mas também o impacto transformador do Evangelho em sua própria vida.

Que Paulo seja um exemplo, inspirando os verdadeiros cristãos a se entregarem de coração ao Senhor, independentemente das adversidades.

Lição 2 – A estrutura das Cartas de Paulo

Objetivo Geral

Conhecer a estrutura das Cartas Paulinas e refletir sobre "a grande transferência".

Texto Base: 2 Timóteo 2:15

Introdução

A partir deste segundo encontro, utilizaremos prioritariamente a obra de Harvey, já devidamente mencionada no início deste estudo. Nesse sentido, é preciso pontuar que as Cartas de Paulo foram produzidas em uma cultura complexa, caracterizada pela interação entre os ambientes oral, retórico e literário. Segundo o referido autor, basicamente a cultura oral tendia a promover a habilidade de memória temática, visto que temas da história, em geral, eram mais importantes do que as palavras exatas então utilizadas.

Por outro lado, e conforme mencionado na aula anterior, a retórica também era muito importante naquele período histórico, principalmente em razão da influência do helenismo. Na verdade, e, novamente conforme Harvey, ela estava presente em toda parte e à disposição daqueles que fossem minimamente escolarizados, realidade experimentada pelo jovem Saulo.

Quanto ao ambiente literário, o referido autor ressalta que a atividade de escrita do século 1º contemplava a reprodução, a transcrição e a composição de textos, sendo o papiro o instrumento mais utilizado. Além disso, os materiais eram caros e a utilização de secretários ou escribas era bastante comum, principalmente para se evitar desperdícios, e esse era o cenário no qual o apóstolo dos gentios produziu praticamente metade do Novo Testamento.

Tópico 1: O gênero das Cartas de Paulo e a Comunicação no século 1º

Segundo Harvey, o Antigo Testamento já atestava a existência e o uso de cartas bem antes do século 1º, conforme encontramos em 2 Samuel 11.15; 1 Reis 21.9-10 e Neemias 6.5-7. Além disso, duas espécies desse tipo de correspondência tornaram-se bastante conhecidas e eram regularmente utilizadas na época de Paulo: as chamadas cartas hebraicas e as cartas gregas.

Em relação às cartas hebraicas, Harvey esclarece que elas tendiam a ser breves, com poucas características formais e nas quais constavam, basicamente, endereço, saudação e conclusão. Por outro lado, e em contraste a esse tipo de carta, as denominadas cartas gregas (as quais podem ser encontradas em bem maior quantidade) foram classificadas em cartas literárias, cartas oficiais e cartas privativas.

O primeiro grupo se referia a documentos em forma de cartas que eram escritos com a intenção de serem copiados e distribuídos para uma ampla audiência. As cartas oficiais, por sua vez, basicamente eram correspondências produzidas para a realização de negócios, e as chamadas "cartas privativas", conforme o próprio nome sugere, serviam para a comunicação de domínio mais pessoal.

Segundo John White (citado na obra de Harvey), toda carta grega procurava realizar pelo menos um desses três propósitos comuns: transmitir informação, fazer pedidos ou emitir ordens e aumentar e manter contato pessoal. Além disso, Harvey destaca que esse tipo de correspondência apresentava elementos em comum e traços característicos de relacionamento, presença e diálogo.

Logo, podemos afirmar, conforme descreve Harvey, que as Cartas Paulinas evidenciavam o padrão de cartas gregas e, embora fossem semelhantes em relação à forma de introdução, corpo, fechamento e características de diálogo, elas variavam em relação ao tamanho, complexidade e flexibilidade.

Para reforçar essa percepção, o nominado autor transcreve um trecho do trabalho de Richards e compara a quantidade de palavras encontradas tanto nas Cartas de Paulo quanto em algumas das cartas de Cícero e de Sêneca.

DocumentoNúmero de PalavrasMédia de Palavras
Cartas de Cícero22 – 2.530 palavras295 palavras em média
Cartas de Sêneca149 – 4.134 palavras995 palavras em média
Cartas de Paulo335 – 7.114 palavras2.495 palavras em média

Tópico 2: Os níveis das Cartas de Paulo

Conforme destacado, as Cartas de Paulo, de fato, possuem maior tamanho e exatamente por esse motivo elas também se tornam de maior complexidade. Além disso, normalmente as cartas daquele período histórico tratavam de um único assunto, enquanto Paulo, por sua vez, discorria sobre vários tópicos em seus escritos, inclusive, adaptando suas Epístolas às necessidades do momento.

Assim, Harvey considera que, embora a estrutura geral de abertura, corpo e conclusão estivesse sempre presente, a configuração das Cartas paulinas revela uma importante variedade de formas, o que torna difícil estabelecer uma estrutura "típica" para aquelas Epístolas.

Sobre esse assunto, é preciso enfatizar que Paulo possuía um vasto conhecimento sobre os aspectos culturais que poderiam influenciar negativamente os fundamentos da Igreja e, ao mesmo tempo, uma profunda convicção da missão que o Senhor lhe havia delegado. Desse modo, além da consistência teológica encontrada em todos os seus escritos, é possível afirmar que a estrutura atípica de suas Cartas visava tornar ainda mais eficiente aquele poderoso instrumento de comunicação do século 1º.

Quanto aos níveis das denominadas Epístolas Paulinas, Harvey as classifica em nível macro, nível médio e nível micro. Em relação ao primeiro nível, o autor esclarece que se trata da estrutura geral das Cartas, mencionando, a título exemplificativo, a Carta aos Romanos na qual identificamos: saudação (1.1-7); ação de graças (1.8-12); corpo (1.13 a 15.33); seção A (1.13 a 11.36); seção B (12.1 a 15.33); fechamento (16.1-27).

Em relação ao nível médio, Harvey pontua que essa abordagem leva em conta algumas características presentes no próprio corpo do texto, ressaltando os padrões orais e as convenções epistolares. Os primeiros, resultado direto da cultura amplamente oral do primeiro século e a forte ênfase em retórica prática, os quais transformavam referidos padrões em uma espécie de "etiqueta" capaz de auxiliar os ouvintes de Paulo a se encontrarem em meio à argumentação.

A título ilustrativo, Harvey cita algumas estratégias utilizadas por Paulo e facilmente identificáveis em seus escritos, como, por exemplo, a "inversão" (reversão da ordem na qual dois ou mais tópicos são introduzidos para depois serem discutidos, conforme 1Co 1.13); e a "alternância" (interação entre duas escolhas ou ideias, conforme Gálatas 5.16-25).

Quanto às convenções epistolares, Harvey ressalta que as fórmulas de introdução, a alegria e a conformidade manifestas em alguns trechos são bons exemplos desse ponto, acrescentando, de igual modo, as denominadas "fórmulas de confiança e fortalecimento", as quais visavam criar senso de obrigação, por exemplo, por meio do louvor (2Co 2.3; Fp 2.24 e Fm 1.21).

Em nível micro, Harvey assinala tratar-se da relação concernente aos aspectos de linguagem figurativa e à própria ordenação das palavras, mencionando, a título exemplificativo, a utilização de provérbios, como em 1Co 15.33 e Gl 5.9, e a utilização de metáforas como em 1Co 3.4-9; 9.24-27 e Ef 6.10-17. Além disso, o autor também faz alusão ao uso da alegoria, citando, novamente a título exemplificativo, o trecho de Gálatas 4.21-31.

Creio seja importante fazermos esse breve registro de natureza mais técnica e metodológica para realçarmos a complexidade e a perfeição com as quais os projetos de Deus se desenvolvem. Em sua 2ª Carta a Timóteo, no capítulo 2, verso 15, Paulo reafirma que as Escrituras devem ser interpretadas com exatidão, ou seja, o cristão tem a responsabilidade de "manejar bem a palavra da verdade", pois uma vida saudável diante do Senhor exige mais do que mera emoção.

Exatamente por esse motivo, a primeira reflexão que nos desafia em relação ao estudo sobre as Cartas Paulinas é avaliarmos se o exercício de nossa fé e a forma com a qual nos relacionamos com o Senhor, de fato evidenciam um culto racional a Deus, ou se, por qualquer outro motivo, sucumbimos ao sincretismo religioso, infelizmente presente neste início de século 21, ou até mesmo transformamos nossa jornada cristã em um caminhar despreocupado em relação aos grandes desafios que a igreja enfrenta na atualidade.

Tópico 3: A teologia das cartas Paulinas

Sobre a teologia das Cartas Paulinas, a primeira significativa informação a ser registrada refere-se às esferas de existência reveladas nos escritos de Paulo. Quanto a esse ponto, Harvey destaca a afirmação de que, ou o ser humano está "em Adão" ou está "em Cristo", conforme revelado em 1Co 15.21. Logo, não existe meio termo. Dessa forma, continua Harvey, sem uma resposta clara de fé à mensagem do evangelho, todos permanecem "em Adão", estado também definido pelo apóstolo dos gentios como "velho homem" (Ef 4.22).

Nessa condição, o ser humano exterioriza as chamadas "obras da carne", o que significa dizer, ser escravo do pecado e, consequentemente, suportar o resultado decorrente da condenação. Mesmo porque, Paulo nos adverte que a "inclinação da carne é morte e inimizade com Deus", conforme bem nos revela sua carta aos Romanos, mais precisamente o capítulo 8, versos 5-8.

Por outro lado, e em contraste à esfera anterior, uma pessoa que está em Cristo encontra-se debaixo da graça e sua conduta consiste no fruto do Espírito, marcando-a como um "escravo da justiça". Assim, ao invés de condenação ela recebe absolvição, ao invés da morte, vida e ao invés de destruição ela tem certeza da salvação (trecho extraído da obra de Harvey).

Nessa segunda "esfera de existência", Cristo habita em nós. Assim, mesmo que o corpo esteja morto em razão do pecado, o espírito vive por obra da justiça, constatação que nos é revelada por Paulo no mesmo capítulo 8 de Romanos, versos 9 a 11. Harvey afirma, ainda, que a expressão "em Cristo" ocorre 172 vezes nas cartas de Paulo e destaca quatro diferentes aspectos desse maravilhoso "estado de existência":

  • "Redentivamente", ele expressa os fatos objetivos de nossa salvação (1Co 1.2; 2Co 5.19; e Gl 2.17).
  • "Corporativamente", expressa o resultado de nos tornarmos parte do povo de Deus devidamente ajuntados por Cristo (Rm 12.15; Gl 3.28).
  • "Pessoalmente", esse estado evidencia um relacionamento íntimo estabelecido entre o cristão e Cristo (Rm 8.38-39 e Fp 2.1-2).
  • Por fim, "praticamente", expressando a forma com a qual "estar em Cristo" afeta integralmente nossa vida (Rm 9.1; 1Co 4.17; Fp 1.13; 1Ts 4.16).

Assim, em conclusão a esse primeiro registro sobre a teologia das Cartas Paulinas, Harvey sublinha que a riqueza de estar "em Cristo" encontra-se em absoluto contraste ao estado de se estar "em Adão", razão pela qual a transferência de núcleo é algo realmente de suprema importância.

Mesmo porque, continua o autor, todos os seres humanos estão "em Adão" desde o dia em que nascem, mas as boas-novas do evangelho revelam que Cristo tornou possível nos transferir para fora da existência que herdamos, ou seja, para uma nova existência em Cristo, o que nos conduz ao último tópico desta lição.

Tópico 4: A grande transferência

No capítulo 5, verso 17, de sua 2ª Carta aos Coríntios, Paulo deixa claro que uma mudança acontece na salvação... "se alguém está em Cristo, é uma nova criatura"... as coisas antigas se passam e tudo se faz novo. Tal afirmação revela algo muito maior do que apenas uma tímida mudança de crença ou alternância de comportamento. Na verdade, trata-se de uma transferência total de uma esfera de existência para outra, e Colossenses 1.13 torna explícita essa percepção.

Desse modo, e retornando mais uma vez à distinção entre Adão e Cristo, Paulo elenca três diferenças fundamentais entre essas duas esferas: enquanto Adão trouxe morte generalizada em decorrência de sua transgressão ao mandamento de Deus, o ato de Cristo trouxe graça abundante (Rm 5.15); enquanto o ato de Adão resultou em condenação, o ato de Cristo ainda resulta em absolvição (Rm 5.16); e em terceiro lugar, enquanto o ato de Adão causou o reinado da morte, o ato de Cristo trouxe o reinado da vida (Rm 5.17). [trecho extraído da obra de Harvey].

Em relação ao meio pelo qual essa transferência se realiza, Harvey destaca que Paulo utiliza o substantivo "" e o verbo "crer" mais de 200 vezes em suas cartas, revelando precisamente o caminho a ser percorrido para que o homem experimente a necessária mudança, alcance a vida eterna e seja efetivamente impactado pela obra que Cristo realizou por todos nós.

Consequentemente, a fé é o meio pelo qual se "efetua a transferência de estar em Adão para estar em Cristo", afirma Harvey, e a explicação que Paulo nos fornece em sua carta aos Efésios, mais precisamente no capítulo 2, verso 8, permite a visualização clara da diferença entre o que éramos e como estávamos, para o que nos tornamos em Cristo.

O que éramos/como estávamosPela graça, mediante a féO que somos/como estamos
mortos
vivos
dominados por Satanás
destinados para boas obras
desobedientes
membros da família de Deus

Conclusão

Ao refletirmos sobre as Cartas Paulinas e o contexto cultural, histórico e teológico em que foram produzidas, é impossível não reconhecer a profundidade e a relevância de seus ensinamentos para a Igreja de Cristo. A habilidade de Paulo em usar os instrumentos disponíveis — seja a retórica, o formato epistolar grego ou a riqueza da linguagem figurativa — evidencia sua dedicação em comunicar de forma clara e eficaz o evangelho, adaptando suas mensagens às necessidades específicas de cada comunidade. Assim, suas cartas não apenas estabelecem fundamentos doutrinários, mas também nos convidam a uma caminhada cristã consciente e transformadora, alicerçada no discernimento espiritual e no compromisso com o Senhor.

Por fim, a riqueza teológica de estar "em Cristo" destaca a grandiosa obra redentora realizada por Deus através de Jesus. Esta transferência da condição de "em Adão" para a nova existência "em Cristo" revela a profundidade do amor divino e a seriedade do chamado cristão. Como discípulos, somos desafiados a viver de forma íntegra e prática, evidenciando, por meio de nossas atitudes, o impacto da graça redentora que recebemos. Essa verdade nos impulsiona a manejar bem a Palavra de Deus, proclamar o evangelho com clareza e viver em conformidade com os ensinamentos bíblicos, sendo luz e sal em um mundo que ainda carece da esperança encontrada em Cristo.

Lição 3 – Cartas Paulinas - Parte I

Objetivo Geral

Identificar o propósito, a visão panorâmica, algumas características especiais e a principal mensagem veiculada nas primeiras Epístolas paulinas.

Texto Base: 2 Timóteo 3:16-17

Introdução

A partir deste ponto, utilizaremos os comentários inseridos em duas versões da Bíblia Sagrada: a Bíblia de Estudo Pentecostal, na versão Revista e Corrigida, e a Bíblia de Estudo Macarthur, na versão Revista e Atualizada. A proposta é compreendermos a visão panorâmica que motivou a composição e o envio de cada uma das Epístolas, bem como identificarmos o ano de sua produção, o tema principal abordado e algumas considerações de natureza mais específica presentes em cada uma delas.

Antes, porém, é preciso enfatizar, mais uma vez que, embora o presente estudo destaque alguns pontos mais evidentes de cada uma das Cartas produzidas pelo apóstolo Paulo, é impossível exaurir a análise de tudo o que ele escreveu em tão pouco tempo. Afinal, estamos falando de praticamente metade do Novo Testamento para ser trabalhado em apenas quatro encontros.

Tópico 1: Romanos

A Carta aos Romanos foi escrita entre 56/57 depois de Cristo, quando Paulo estava na cidade de Corinto, conforme indica a referência a Febe no capítulo 16, verso 1 (Cencreia era o nome do porto de Corinto) e verso 2 (Febe ajudava a Paulo), bem como a citação do capítulo 16, verso 23, pois tanto Gaio quanto Erasto eram nomes ligados àquela cidade. O apóstolo a escreveu próximo ao fim de sua terceira viagem missionária no momento em que se preparava para ir à Palestina (15.25).

O principal propósito de Paulo, ao escrever a Epístola aos Romanos, era o de ensinar as grandes verdades do Evangelho para os cristãos que nunca haviam recebido instrução dos apóstolos. Mesmo porque é muito provável que a igreja de Roma tenha sido fundada por alguns dos convertidos no Dia de Pentecostes (At 2.10), e não por Paulo ou qualquer discípulo de Cristo.

Diferentemente de outras Epístolas, Paulo não compôs essa Carta para corrigir distorções ou ajustar qualquer incorreção teológica, pois, de modo geral, a igreja de Roma era doutrinariamente sadia. Desse modo, é possível afirmar que o tema predominante nessa Epístola é a justiça proveniente de Deus, ou ainda, conforme versão da Bíblia de Estudo Pentecostal, a revelação da justiça de Deus.

Nesta Epístola, Paulo apresenta as verdades centrais do Evangelho, destacando, em primeiro lugar, que o problema do pecado e a necessidade de justificação são universais, como expresso em Romanos 1.18 e 3.20. Ele explica que tanto judeus quanto gentios, independentemente de sua origem, estão igualmente sujeitos ao pecado. Assim, ninguém pode ser considerado justo diante de Deus por seus próprios méritos ou pela simples observância da lei. A justificação, ou seja, o ato de ser declarado justo por Deus, não é algo que o ser humano possa conquistar, mas sim um dom da graça divina, concedido gratuitamente por meio da fé em Jesus Cristo.

Com base nisso, Paulo afirma que uma vida transformada em Cristo deve se manifestar em atos de retidão e amor, refletindo a justiça de Deus em todas as esferas da vida, sejam sociais, civis ou morais.

Em relação à outra fonte de consulta, o comentarista da Bíblia de Estudo Pentecostal destaca sete características especiais nessa Carta:

  • Romanos é a mais sistemática Epístola de Paulo;
  • Paulo escreve em um estilo de pergunta e resposta (ex. 3.1-4);
  • Ele utiliza amplamente o Antigo Testamento como autoridade bíblica na apresentação da verdadeira natureza do Evangelho (ex. 1.2);
  • Paulo apresenta "a justiça de Deus" como a revelação fundamental do Evangelho (1.16-17);
  • Paulo focaliza a natureza dupla do pecado, bem como a provisão de Deus por intermédio de Cristo para cada aspecto (o pecado como transgressão pessoal (5.11), e o pecado enquanto princípio ou lei (5.12));
  • O capítulo 8 é o mais longo da Bíblia sobre a obra do Espírito Santo na vida do crente;
  • Romanos contém o estudo mais profundo da Bíblia sobre a rejeição de Cristo pelos judeus (9-11).

Tópico 2: 1ª Carta aos Coríntios

Corinto era uma metrópole grega de grande destaque no tempo de Paulo e, segundo o arqueólogo Rodrigo Silva, no século 1º, ali habitavam entre 300 e 500 mil pessoas. Exatamente por esse motivo, a cidade também era intelectualmente arrogante, moralmente corrupta e o pecado grassava por toda parte a ponto de sua fama se tornar muito conhecida.

Além disso, e semelhante a outras grandes cidades gregas, Corinto possuía uma acrópole (local mais alto das antigas cidades gregas, e no qual se erguiam Templos e Palácios). Na verdade, uma notável acrópole com cerca de 600m que era utilizada para adoração de deuses e outros grandes eventos. Aliás, o templo da deusa Afrodite, conhecida como "deusa do amor", era a maior edificação ali erigida e no local habitava cerca de mil "sacerdotisas", as quais, muitas vezes, entravam em transe, no templo, e falavam incontroladamente. (explicação de Rodrigo Silva).

O mais provável é que a primeira Carta aos Coríntios tenha sido escrita entre 55/56 d.C. quando Paulo estava em Éfeso (16.8-9 e 19) durante sua terceira viagem missionária. Ele fundou a igreja em Corinto durante sua segunda viagem (At 18), e embora o principal objetivo dessa Epístola seja a correção do comportamento daqueles cristãos, seus ensinamentos sobre pecado e justiça permanecem necessários à Igreja do presente século.

Pode-se afirmar que essa Epístola discorre sobre os problemas que uma igreja experimenta quando seus membros persistem nas obras da carne (3.13), e Paulo tinha dois motivos principais para escrevê-la: [1] tratar dos sérios problemas da igreja em relação a pecados que os coríntios não levavam muito a sério, mas ele sabia que eram graves; [2] e aconselhar e doutrinar os irmãos daquela cidade sobre assuntos que a própria igreja havia solicitado esclarecimento (1.11).

O tema principal dessa Carta pode ser definido como "os problemas da igreja e suas soluções" (Bíblia de Estudo Pentecostal, ARC). Além disso, Paulo também discorre sobre as manifestações e dons do Espírito Santo nos cultos da igreja (12-14); sobre o problema da tolerância ao pecado (5.1-13); sobre ideias humanistas a respeito da verdade apostólica (15); sobre conflitos relacionados à liberdade cristã (8;10) e ainda instrui sobre casamento (7); e sobre a Ceia do Senhor (11-14).

Tópico 3: 2ª Carta aos Coríntios

Escrita entre o final de 55 e o início de 56 d.C., essa Epístola foi direcionada a três classes de pessoas da cidade de Corinto: [1] para encorajar a maioria da igreja que lhe era fiel e o tinha como seu pai espiritual; [2] para contestar e desmascarar os falsos apóstolos que continuavam a difamá-lo tentando enfraquecer sua autoridade; [3] para repreender a minoria da igreja que estava sendo influenciada por seus oponentes e que não estava acatando sua autoridade e sua correção.

Se é possível estabelecer uma espécie de sequência para os contatos de Paulo com a igreja em Corinto (fundada por ele durante sua segunda viagem missionária) podemos considerar, basicamente, os seguintes pontos: contatos e correspondências iniciais (1Co 1.1; 5.9; 7.1); 1ª Carta àquela igreja (55/56 d.C); viagem de Paulo a Corinto para tratar de problemas na igreja (relatada em 2Co 1.1-2) e essa visita teria sido espinhosa tanto para Paulo quanto para a própria igreja; após essa visita, informes chegaram a Paulo, em Éfeso, de que seus adversários estavam atacando a sua autoridade apostólica em Corinto, tentando persuadir parte da igreja para rejeitá-lo, e é nesse contexto que Paulo escreve a 2ª Carta àquela igreja.

Assim, nessa Carta Paulo reafirma sua integridade e sua autoridade apostólica, os advertindo sobre novas rebeliões. Quanto às características especiais, o comentarista da Bíblia de Estudo Pentecostal menciona quatro aspectos: [1] é a mais autobiográfica das Epístolas de Paulo; [2] ultrapassa todas as suas demais Epístolas no que se refere à revelação da intensidade e da profundidade do amor e do cuidado de Paulo por seus filhos espirituais; [3] contém a mais completa teologia do NT sobre o sofrimento do crente; [4] e a utilização de termos-chave tais como: fraqueza, aflição, lágrimas, perigo, tribulação, sofrimento, consolação, verdade, ministério e glória destacam o conteúdo incomparável da 2ª Carta aos Coríntios.

Outra característica que deve ser destacada, é que nessa Carta há o resumo mais claro e conciso a respeito da expiação substitutiva de Cristo encontrado em toda a Escritura (5.21; Is 53). Além disso, Paulo define a missão da igreja em proclamar a reconciliação (5.18-20), e por fim, referido apóstolo explica com clareza singular a natureza da nova aliança (3.6-16).

Tópico 4: Gálatas

O nome "gálatas" deriva da região central da Ásia Menor à época denominada Galácia (atualmente parte da Turquia), e conforme o próprio nome sugere, essa Carta não foi destinada a uma única igreja, mas sim a todas aquelas fundadas na referida região. Além disso, é importante registrar, nesse primeiro momento, que no ano 189 a.C. os romanos conquistaram aquele território, transformando a região em uma província romana.

Paulo escreveu essa Carta por volta de 49 d.C. para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé. Referidos mestres tentavam impor a circuncisão e o jugo da lei mosaica como requisitos necessários à salvação e ao ingresso na igreja e, infelizmente, muitos cederam facilmente à nova "doutrina" que lhes estava sendo imposta.

Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia (1.6) Paulo escreveu com o firme propósito de defender a nominada justificação pela fé, e advertir às igrejas daquela região sobre as terríveis consequências de abandonarem a doutrina essencial que já lhes havia sido ensinada.

Pelo conteúdo da Carta, é possível admitir que os oponentes de Paulo, na Galácia, o atacavam pessoalmente com o propósito de desestabilizar sua influência nas igrejas. Em síntese, eles o acusavam de: [1] não ser um dos apóstolos originais e, portanto, ser desprovido de autoridade direta (1.1-7); [2] sua mensagem supostamente divergia do evangelho pregado em Jerusalém (1.9; 2.2-10); [3] sua mensagem da graça resultaria em uma vida iníqua (5.1,13,16,19 e 21).

Quatro características singulares são encontradas nessa epístola: [1] é a defesa mais veemente no NT da natureza do Evangelho, e seu tom enérgico, intenso e urgente mostra-se necessário pois Paulo lidava com pessoas que poderiam deturpar o verdadeiro evangelho; [2] quanto ao número de referências bibliográficas, Gálatas é superada apenas por 2º Coríntios; [3] esta é a única Epístola de Paulo na qual ele explicitamente se dirige a várias igrejas; [4] e nessa carta Paulo nos fala sobre o fruto do Espírito (5.22).

Conclusão

Ao explorar as Epístolas de Paulo, destacamos não apenas o contexto histórico e teológico que motivou sua composição, mas também os ensinamentos atemporais que continuam a impactar a Igreja. Romanos nos convida a uma reflexão profunda sobre a justiça de Deus e a salvação pela fé; 1ª Coríntios apresenta soluções práticas para problemas da igreja e orienta sobre a vida cristã; 2ª Coríntios revela o coração pastoral de Paulo e a missão de reconciliação da Igreja; e Gálatas reafirma a liberdade em Cristo e a centralidade da graça. Juntas, essas Cartas oferecem um panorama completo do Evangelho, fundamentando-nos na verdade, na fé e na missão.

É essencial reconhecer que Paulo não apenas escreveu para corrigir, ensinar ou exortar, mas também para edificar um corpo de Cristo unido, maduro e frutífero. Sua ênfase na graça, no amor e na obra do Espírito Santo ecoa em cada versículo, fortalecendo nossa fé e nossa comunhão com Deus. Assim, cada Epístola nos desafia a viver o Evangelho em toda sua plenitude, proclamando a Cristo e refletindo sua justiça em nossa conduta.

Lição 4 – Cartas Paulinas – Parte II

Objetivo Geral

Identificar o propósito, a visão panorâmica, algumas características especiais e a principal mensagem veiculada nas demais epístolas paulinas.

Texto Base: Efésios 4:1

Introdução

Nesta última lição continuaremos utilizando os comentários das duas versões da Bíblia Sagrada manuseadas na aula anterior: a Bíblia de Estudo Pentecostal, na versão revista e corrigida (ARC), e a Bíblia de Estudo Macarthur, na versão revista e atualizada (ARA). Além disso, e, conforme ocorreu na aula passada, destacaremos apenas alguns aspectos relacionados a cada epístola, uma vez que o objetivo principal é o estudo introdutório do tema, ou seja, de forma sintetizada.

Nesse caso, trilharemos o mesmo caminho construído no último encontro, destacando a visão panorâmica, o ano em que a obra foi escrita, o assunto principal da carta, algum acontecimento histórico relacionado ao tema e que deva ser ressaltado, e alguma anotação de natureza mais específica que contribua para uma melhor compreensão do assunto.

Tópico 1: Efésios

Na Bíblia de Estudo Pentecostal (ARC) encontramos registros de grande valia para a compreensão dessa Epístola. Segundo o texto, Efésios é um dos picos elevados da revelação bíblica, pois não se trata de uma carta elaborada no enfrentamento de controvérsias doutrinárias. Trata-se, na verdade, de um "rico transbordar" de revelação divina que brota da vida de oração do apóstolo Paulo.

O tema principal da Carta aos Efésios pode ser definido como "Cristo e sua Igreja", e a epístola foi escrita por volta do ano 62 d.C. Éfeso era capital da província romana da Ásia Menor (atual Turquia) e Paulo a escreveu quando estava preso, em Roma, conforme nos revela Atos 28.16-31.

Observando-se a ordem na qual os escritos de Paulo foram elencados no Novo Testamento, podemos afirmar que se trata da primeira das cartas denominadas "cartas da prisão", expressão que faz menção tanto à Epístola aos Efésios quanto aos escritos de Filipenses, Colossenses e Filemon. Além disso, é importante registrar a possibilidade de que Efésios tenha sido escrita quase ao mesmo tempo em que Paulo elaborou o texto de Colossenses.

Por sua vez, o comentário consignado na Bíblia de Estudo Macarthur (ARA) levanta a hipótese de que o Evangelho tenha chegado a Éfeso por intermédio de Priscila e Áquila, os quais foram deixados naquela cidade por Paulo durante sua segunda viagem missionária (At. 18.18-19).

É importante registrar, ainda, que em Éfeso havia um famoso templo dedicado a Ártemis (ou Diana), local então conhecido como uma das sete maravilhas do mundo antigo. Além disso, a cidade era um importante centro político, educacional e comercial equiparado a Alexandria, o que nos revela uma visão estratégica admirável de Paulo, pois uma cidade com essas características certamente se apresentava como um local de grande potencial para a propagação do Evangelho.

Segundo os registros da versão Macarthur, os primeiros três capítulos são eminentemente teológicos e enfatizam a doutrina do Novo Testamento, enquanto os três últimos, por sua vez, discorrem sobre aspectos comportamentais do cristão sendo, portanto, considerados mais práticos do ponto de vista da análise crítica.

Outro registro significativo encontrado nessa Epístola (Macarthur) é a verdade enfatizada por Paulo de que a Igreja é o corpo espiritual e terreno de Cristo. Por consequência, ela não atua necessariamente como uma organização, mas sim, como um organismo vivo e composto por partes mutuamente relacionadas e interdependentes, sendo Cristo a cabeça desse corpo, e a pessoa do Espírito Santo, sua força vital.

O propósito principal está implícito no cap. 1, versos 15-17. Em oração, Paulo anseia que seus leitores cresçam na fé, no amor, na sabedoria e na revelação do Pai da glória, para que vivam uma vida digna diante do Senhor.

Além disso, a Bíblia de Estudo Pentecostal faz menção a dois temas fundamentais: como somos redimidos por Deus; e como nós, os redimidos, devemos viver. Assim, os 3 primeiros capítulos abordam o primeiro propósito, e os 3 últimos, o segundo.

Tópico 2: Filipenses

Escrita entre 62/63 d.C., a Carta de Paulo aos Filipenses tem como tema principal "a alegria de viver por Cristo", conforme registro nos comentários da Bíblia de Estudo Pentecostal (ARC). Em relação à sua classificação como uma das Epístolas da prisão, o comentário da Bíblia Macarthur acentua que essas Cartas foram escritas durante a primeira prisão de Paulo, em Roma, o que ocorreu nos primeiros anos da década de 60 do primeiro século.

A cidade ganhou notoriedade apenas após o famoso acontecimento que pôs fim à República Romana e deu início ao Império que perduraria até o séc. 15 d.C. O comentarista da Bíblia Macarthur faz alusão à luta entre os exércitos de Antônio/Otávio e Brutus/Cassius, na chamada "Batalha de Filipos", pois, logo após esse embate, a região de Filipos tornou-se colônia romana (At 16.12).

A igreja em Filipos foi fundada por Paulo e seus colaboradores (Silas, Timóteo e Lucas) durante sua segunda viagem missionária, em obediência a uma visão que Deus lhe dera em Trôade (At. 16:9-40). Além disso, Paulo também nos relata que em várias oportunidades aquela igreja contribuiu generosamente tanto com ele (2Co 11.9) quanto para ajudar os cristãos de Jerusalém (2Co 8.9).

O apóstolo escreveu essa Carta para agradecer a oferta generosa recebida, para informar sobre seu estado pessoal, para transmitir à congregação a certeza do triunfo do propósito de Deus na sua prisão (1.12-30) e é possível identificar cinco assuntos principais nesse texto, conforme nos revela o comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal já referida: trata-se de uma carta pessoal e afetuosa; é altamente cristocêntrica, revelando a estreita comunhão entre Paulo e Cristo (1.21; 3.7-14); contém uma das declarações cristológicas mais profundas da Bíblia (2.5-11); embora seja uma das cartas da prisão, alguns estudiosos a definem como a "epístola da alegria" do NT; apresenta um modelo de vida cristã dinâmico e resignado, inclusive o viver como servo (2.1-8).

Tópico 3: Colossenses

A Carta aos Colossenses foi escrita no mesmo período da Carta aos Filipenses, por volta do ano 62 d.C. Colossos localizava-se próximo a Laodiceia (4.16), no sudeste da Ásia Menor, e distava cerca de 160 Km de Éfeso. Essa Epístola também foi escrita durante o período em que Paulo estava preso em Roma e basicamente apresenta 2 propósitos: combater os falsos ensinos que estavam suplantando a centralidade e a supremacia de Jesus Cristo; e ressaltar a verdadeira natureza da nova vida em Cristo Jesus e suas exigências para o crente.

Teologicamente (Bíblia de Estudo Pentecostal), Paulo enfatiza o verdadeiro caráter e glória do Senhor Jesus Cristo, pois Ele é a imagem do Deus invisível (1.15); o criador de todas as coisas (1.16-17); o cabeça da igreja (1.18) e a fonte toda-suficiente da nossa salvação (1.14, 20 e 22). Consequentemente, enquanto Cristo é Todo-Suficiente, a heresia colossense é totalmente insuficiente, vazia e enganosa (2.8).

Outro registro significativo a ser destacado do comentário de nossa fonte de pesquisa Macarthur e que, certamente, expande a compreensão sobre os objetivos de Paulo ao produzir essa carta, é que, embora a comunidade de Colossos fosse essencialmente formada por gentios, ali havia uma grande colônia judaica. Desse modo, a população mista então gerada (entre judeus e gentios) contribuía para o surgimento de heresias, pois era comum a expressão de elementos do legalismo judaico, ladeado pelo misticismo característico da parcela pagã ali residente.

Para finalizar, é preciso enfatizar (Macarthur) que Colossenses contém ensinamentos sobre diversas áreas essenciais da teologia, incluindo a divindade de Cristo (1.15-20); a reconciliação (1.20-23); a redenção (1.13-14; 2.13-14); a eleição (segundo a presciência de Deus – 1Pe 1:2) (3.12), o perdão (3.13); e a natureza da igreja conforme citação em (1.18, 24 e 25).

Tópico 4: 1ª Tessalonicenses

Essa primeira carta de Paulo à igreja em Tessalônica foi escrita em Corinto, provavelmente no ano de 51 d.C. A cidade foi fundada no séc. 4 a.C por Cassandro, o qual homenageou sua esposa, Tessalônica, meio-irmã de Alexandre, o grande. Seu nome atual é Salônica e está localizada na região norte da Grécia. À época de Paulo, servia como eixo da atividade política e econômica da Macedônia (o que mais uma vez demonstra a visão estratégica do apóstolo). Naquele período, havia aproximadamente 200 mil habitantes residindo na cidade.

Ambas as Cartas aos Tessalonicenses também são mencionadas como "epístolas escatológicas", e conforme enfatiza a Bíblia de Estudo Pentecostal, Paulo foi forçado a sair da cidade em razão da perseguição que sofria, principalmente, decorrente da hostilidade judaica. Essa informação nos é revelada, por exemplo, em Atos 17.1-10.

Forçado a sair prematuramente de Tessalônica, Paulo foi para Bereia e fundou um novo trabalho. Contudo, a obra foi novamente interrompida em razão da perseguição movida pelos judeus que o seguiram desde a primeira cidade, segundo esclarece Atos 17.10-13. Assim, o apóstolo viajou para Atenas (At 17.15-34) e Timóteo foi ao seu encontro. Paulo, então, o enviou para verificar a condição dos novos cristãos (3.1-5) e seguiu para Corinto (At 18.1-17). Ao completar sua missão, Timóteo foi ao encontro de Paulo para informá-lo sobre a situação da igreja, o que o motivou a escrever essa primeira Carta.

Uma vez que os novos convertidos de Tessalônica haviam recebido poucos ensinamentos sobre a jornada cristã, Paulo lhes escreveu com três propósitos distintos: para expressar sua alegria pela fé e perseverança dos irmãos, mesmo em meio a perseguições; para instruí-los na santidade e na vida piedosa; para elucidar certas doutrinas, especialmente no que se refere à situação dos crentes que morrem antes da volta de Cristo.

Quatro características especiais podem ser destacadas nessa primeira Carta aos Tessalonicenses: é um dos primeiros livros escritos do NT; contém textos chaves sobre a ressurreição dos santos falecidos por ocasião do arrebatamento da Igreja (4.13-18); todos os cinco capítulos fazem referência à volta de Cristo e à relevância deste evento para os salvos (1.10; 2.19; 3.13; 4.13-18; 5.1,11-23); oferece uma visão única sobre as características de uma igreja zelosa, porém imatura.

Tópico 5: 2ª Tessalonicenses

Escrita entre 51 e 52 depois de Cristo, o tema dessa segunda carta também é a volta de Jesus. Ao escrever essa Epístola, a situação da igreja em Tessalônica era praticamente a mesma que motivou o envio da primeira Carta, e Paulo continuava trabalhando em Corinto.

Do ponto de vista panorâmico, o tom da primeira Carta é o de uma ama que cria os seus filhos (1Ts 2.7), enquanto o tom da segunda, por sua vez, assemelha-se a um pai que disciplina filhos desobedientes para corrigir seu caminho, o que pode ser constatado, por exemplo, em 2ª Tessalonicenses, cap. 3, versos 7 a 12.

Três características especiais podem ser destacadas nessa Epístola: ela contém um dos trechos mais completos do NT sobre a iniquidade que surgiria principalmente no final dos tempos (2Ts 2.3-12); o justo juízo de Deus, vinculado à segunda vinda de Cristo é descrito nesta Carta em termos apocalípticos, assim como nos revela o livro de Apocalipse; Paulo utiliza termos descritivos do anticristo que não são encontrados em outras partes da Bíblia (2:3).

Tópico 6: 1ª e 2ª Cartas a Timóteo

Timóteo significa "aquele que honra a Deus". Nascido em Listra (At 16.1-3) era "filho na fé de Paulo" conforme o capítulo 1, verso 2, e segundo o comentário da Bíblia Macarthur, conheceu a Jesus durante a primeira viagem missionária do apóstolo (At 14.6-23). Além disso, Timóteo era discípulo, amigo e colaborador de Paulo, tendo ministrado com ele em Bereia (At 17.14), Atenas (At 17.15), Corinto (At 18.5) e o acompanhado em sua viagem a Jerusalém (At 20.4).

A primeira Epístola a Timóteo foi escrita por volta de 65 d.C, o tema principal pode ser definido como "A sã doutrina e a Piedade" e um dos cuidados principais que Paulo transmite a seu jovem auxiliar é que ele lute com denodo pela fé, e refute os falsos ensinos que estavam comprometendo o poder salvífico do Evangelho (1.3-7; 4.1-8; 6.3-5; 5.20-21).

Além disso, a Bíblia de Estudo Pentecostal registra três propósitos principais do apóstolo Paulo ao produzir essa primeira Carta: exortar ao próprio Timóteo sobre seu ministério e sua vida pessoal; exortar a Timóteo sobre a necessidade de defender a pureza do Evangelho e seus santos padrões diante da corrupção que surgia com os falsos mestres; dar a seu filho na fé instruções a respeito de vários assuntos e problemas surgidos na igreja de Éfeso.

Já a 2ª Carta de Paulo a Timóteo foi escrita por volta de 67 d.C., o tema central dessa segunda Carta é definido pela Bíblia de Estudo Pentecostal como "a perseverança inabalável na fé". Esta é a última Carta de Paulo e foi escrita quando o imperador Nero procurava impedir a expansão da fé cristã, em Roma, perseguindo severamente os crentes.

Paulo voltara a ser prisioneiro do imperador (1.16-17), estava sofrendo privações como se fosse um criminoso comum (2.9), abandonado pela maioria dos seus amigos (1.15), tinha consciência de que seu ministério estava próximo do fim e sua morte também era uma questão de tempo (4.6-8, 18). A versão Macarthur, por sua vez, acrescenta que ele exortou Timóteo a permanecer fiel em seus deveres (1.6), manter-se apegado à sã doutrina (1.13-14), evitar o erro (2.15-18), aceitar a perseguição pela causa do Evangelho (2.3-4) e depositar sua confiança na Escritura, pregando-a de modo implacável (3.15 a 4.5).

A Bíblia de Estudo Pentecostal indica cinco características principais nesta segunda Epístola: ela contém as últimas palavras escritas por Paulo antes de sua execução por ordem de Nero; contém uma das declarações mais claras, na Bíblia, a respeito da inspiração divina das Escrituras e do seu propósito (3:16-17), e Paulo reafirma que elas devem ser interpretadas com exatidão pelos ministros da Palavra (2:15).

Em continuidade ao assunto, do início ao fim de referida Carta há o registro de exortações sucintas (1.6; 1.8; 1.13); os temas interativos dessas exortações podem ser resumidos a manter firme a fé em Jesus Cristo e no Evangelho, guardá-lo de distorções e da corrupção, opor-se aos falsos mestres e pregar a Palavra com perseverança inabalável; e, por fim, o testemunho de despedida de Paulo é um exemplo extraordinário de coragem e de esperança diante do martírio.

Tópico 7: Tito e Filemon

Conforme esclarece a versão Macarthur, a epístola a Tito foi escrita aproximadamente em 64 d.C., enquanto Paulo ministrava à igreja na Macedônia. Além disso, ao lado das duas Cartas enviadas a Timóteo, Tito também integra as chamadas "epístolas pastorais", e seu conteúdo revela palavras de incentivo a um jovem pastor que, embora bem preparado e fiel, enfrentava oposição contínua por parte de homens ímpios dentro das igrejas nas quais ministrava.

A Bíblia de Estudo Pentecostal pontua que Paulo escreveu para instruir aquele jovem pastor em sua tarefa de pôr em ordem o que ele deixara inacabado nas igrejas de Creta, inclusive a instituição de presbíteros (1.5), além de ajudar as igrejas a crescerem na fé, no conhecimento da verdade e em santidade (1.1); e silenciar falsos mestres (1.11).

Além disso, a versão Macarthur enfatiza que, à exceção da advertência contra os falsos mestres e judaizantes, essa carta não apresenta nenhuma correção teológica, transmitindo a forte ideia de que Paulo tinha confiança no conhecimento doutrinário da maioria dos membros daquela igreja, a despeito do fato de a maior parte deles ser formada por novos convertidos.

Ainda segundo a versão Macarthur, entre as doutrinas que essa Epístola afirma podem ser destacadas: a divindade de Cristo e a sua segunda vinda (2:13), a expiação substitutiva de Cristo (2:14) e a regeneração e renovação de cristãos pelo Espírito Santo (3:5).

Quanto à carta escrita para Filemon, as anotações da Bíblia de Estudo Pentecostal esclarecem que Paulo escreveu essa Epístola provavelmente durante sua primeira prisão em Roma (At 28.16-31). Aliás, já mencionamos que Efésios, Filipenses e Colossenses são as outras três Cartas com essa mesma denominação. Essa mesma fonte afirma que a Carta foi escrita em 62 d.C., e o tema principal é a "reconciliação".

Trata-se de uma Carta pessoal a um homem chamado Filemon, e o objetivo de Paulo é equacionar o problema da fuga do escravo Onésimo. Segundo a lei romana, um escravo fugitivo era passível da pena de morte, e o apóstolo, então, intercede junto a Filemon, pedindo-lhe que graciosamente receba Onésimo de volta, mas agora como um irmão crente e que se tornou companheiro de Paulo.

Ainda segundo a Bíblia de Estudo Pentecostal, há três características principais nessa Epístola: é a mais breve de todas as Cartas de Paulo; mais do que qualquer outra parte do Novo Testamento, ela ilustra como Paulo e a igreja primitiva tratavam o problema da escravidão no império romano, não necessariamente confrontando-o, mas expondo princípios cristãos que eliminavam a severidade daquele grave problema; Paulo pessoaliza o pedido enviado a Filemon, utilizando a expressão "recebe-o como a meu coração".

Conclusão

Ao longo desta lição, exploramos as ricas contribuições das epístolas de Paulo para a edificação da Igreja, analisando aspectos históricos, teológicos e práticos de cada uma delas. Essas cartas revelam um apóstolo comprometido em discipular, exortar e fortalecer a fé dos cristãos em diversas localidades estratégicas.

A centralidade de Cristo em cada epístola demonstra que a verdadeira vida cristã está fundamentada n'Ele, seja por meio da alegria de viver por Cristo (Filipenses), da santificação contínua (Tessalonicenses), ou da compreensão de sua supremacia e suficiência (Colossenses). Além disso, destacamos a visão missionária de Paulo, que utilizou cidades estratégicas para difundir a mensagem do Evangelho e consolidar comunidades cristãs.

Que as lições aprendidas nos inspirem a viver de modo digno da vocação que recebemos (Efésios 4:1), cultivando fé, santidade e amor fraternal, enquanto aguardamos o retorno de nosso Senhor.

Referências Bibliográficas

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HARVEY, D. John. Interpretação das Cartas Paulinas. Trad. João Paulo Thomaz de Aquino. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.

Bíblia de Estudo MacArthur, NVI, Capa Dura, Tecido, Leitura Perfeita. ISBN: 9786556895215. Editora: Thomas Nelson Brasil.

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MURPHY-O'CONNOR, O.P Jerome. Paulo: Biografia crítica. Trad. Bárbara Theoto Lambert. Ed. Loyola, 3ª Ed. 2015, SP – Brasil.

Bíblia de Estudo Pentecostal, Ed. CPAD, 1995. Tradução de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida, 1995 (SBB – Sociedade Bíblica do Brasil).

Editorial

Curso: Introdução às Cartas Paulinas

Ano: 2024

1ª Edição

Conselho Editorial:

Pr Sinval Júlio de Souza

Pr Lúcio Andres

Braitner Lobato

Revisão:

Pr Lúcio Andres

Wagner Monteiro

Projeto Gráfico e Diagramação:

Wagner Monteiro

Comentaristas:

Diógenes Luiz da Silva Filho