Carta aos Gálatas

A Carta Magna da Liberdade Cristã: justificação pela fé e não por obras da lei.

Materiais de Apoio

Sumário

Lição 1 – O Verdadeiro Evangelho

Objetivo Geral

Discernir entre o verdadeiro evangelho e os falsos ensinos.

Para Começar

O nosso objeto de estudo é a chamada Carta Magna da Liberdade Cristã, Gálatas. Esta epístola foi escrita pelo apóstolo Paulo, nos anos 50 d.C., aos judeus e gentios convertidos da província romana da Galácia.

Como Martinho Lutero e John Wesley, cristãos ao redor do mundo têm sido transformados pelo estudo de Gálatas, cujo caráter apologético refuta o ensino da "religião das obras". A carta adverte os cristãos sobre legalismo, esforço próprio e a troca da graça de Cristo por um evangelho diferente.

O tema central de Gálatas é a justificação pela fé e não por obras da lei ou méritos humanos. Como missionário, Paulo investia nos grandes centros urbanos, a começar pelas sinagogas, devido à sua biografia (Gl 1.13,14; Fp 3.4,5). Mas seu foco era os gentios. O apóstolo fundava igrejas por onde passava e zelava por elas, mesmo de longe. Ao saber que judaizantes aparentemente convertidos ao cristianismo se infiltraram nas igrejas da Galácia, ensinando o evangelho mesclado à guarda da lei mosaica e lançando dúvidas no coração dos cristãos, Paulo se dirige por escrito àquelas igrejas. Reivindica sua autoridade apostólica, defende o verdadeiro evangelho e condena o legalismo, esclarecendo que não precisamos "fazer algo" para merecer a salvação. A epístola traz ensinamentos profundos que se aplicam à igreja do século XXI. Vamos refletir e aprender sobre o verdadeiro evangelho nesta lição. Bom estudo!

1. O Homem Não Tem Autoridade Sobre o Evangelho

Paulo inicia a Carta aos Gálatas apresentando-se como "apóstolo": não era só 'enviado', mas pertencente a um grupo restrito de homens a quem Deus deu autoridade para lançar os fundamentos da Igreja e edificá-la. O selo de seu apostolado é o próprio Cristo e Deus Pai (Gl 1.1). Na saudação aos cristãos da Galácia, Paulo menciona a essência do verdadeiro Evangelho (Gl 1.3,4) cujo conceito expõe em Rm 1.16,17. Esta palavra 'evangelho' vem de dois termos gregos: eu, que quer dizer "bom" e angelia, "mensagem, notícia, novas". Logo, a palavra euangelion significa "boas novas". Ninguém dissertou sobre o Evangelho melhor do que Paulo. Seu encontro com Jesus no caminho de Damasco transformou-o de modo poderoso e ele foi chamado para pregar aos gentios primeiramente (At 9.15; 22.21). Após ser confrontado pelo Cristo ressurreto, o perseguidor dos crentes tornou-se um intrépido missionário. Sua pregação consistia na Lei e nos Profetas, atualizando os ouvintes sobre o cumprimento das profecias a respeito do Messias na pessoa de Cristo. A autoridade de Paulo ao contestar os judaizantes decorria do conhecimento profundo da Lei e por ter sido chamado pelo próprio Jesus. Para ele, acrescentar as obras da lei à obra de Cristo era o mesmo que negar Jesus. A mensagem do Evangelho ainda hoje é distorcida por falsos mestres que atribuem à ações humanas um fator decisivo para a salvação. Que estejamos aptos a discernir o verdadeiro Evangelho dos falsos ensinos.

2. O Outro Evangelho

Diante do transtorno doutrinário nas igrejas da Galácia, Paulo reitera aos cristãos que se mantenham fiéis ao Evangelho que lhes foi pregado e ao qual se converteram.

O apóstolo pronúncia uma maldição contra quem pregar um evangelho diferente do evangelho de Cristo (Gl 1.8) – um anjo, um pregador, até mesmo o próprio Paulo seria amaldiçoado e relegado ao inferno, pois não estaria edificando a Igreja, mas inquietando os irmãos (Gl 1.7; 5.10).

A palavra 'anátema' deriva do latim 'anathema' que significa excomunhão, reprovação. E Paulo se inclui e aos demais irmãos nesta condição: "ainda que nós mesmos", ou seja, na hipótese de perversão do Evangelho qualquer pessoa seria amaldiçoada! Ao mencionar um caso extremo, "um anjo do céu", Paulo extingue toda a possibilidade de distorção do evangelho sem castigo. "Outros evangelhos" podem chegar aos crentes e desviá-los da verdade (vv.8,9).

Se Paulo se surpreende com a receptividade dos gálatas a outro ensinamento (Gl 1.6), nós devemos estar atentos ao tipo de evangelho que ouvimos. A mensagem que nos faz crer sermos merecedores da salvação e das bênçãos divinas é um evangelho distorcido e quem o prega é amaldiçoado. Que tenhamos discernimento diante do evangelho que nos é apresentado diariamente, inclusive por programas de rádio e TV e pelas redes sociais. A depender de sua essência, seremos abençoados ou amaldiçoados como os que pregam para nós.

3. Paulo Recebeu o Evangelho Diretamente de Cristo

Na defesa de seu apostolado, Paulo explica sobre o evangelho que prega. Primeiro, ele anuncia que recebeu o evangelho de Deus, e este não segue parâmetros humanos (Gl 1.11). Depois, afirma não ter patrono, não repetir o que outros lhe falaram, mas pregar o que Jesus lhe revelou (v.12).

A palavra usada para 'revelação' (do grego apokalypsis) se relaciona a 'tirar o véu'. O próprio Deus se revelou ao apóstolo no caminho, e ele argumenta: diferente do que supunham e espalhavam os judaizantes, não pretendia agradar aos homens no ministério (Gl 1.10), mas sim a Deus. Paulo esclarece aos gálatas como se opunha ao evangelho (v.13-16, argumento biográfico).

Ele defende seu ministério apostólico, pois os falsos mestres questionavam a autenticidade da sua mensagem, alegando que Paulo não era de fato um apóstolo, por não haver andado com Jesus e não ser um dos Doze. Se o verdadeiro apóstolo era chamado diretamente por Jesus, Paulo o era.

Segundo a Bíblia, o centro do evangelho é Deus e não o ser humano, a quem compete crer no sacrifício perfeito de Jesus. O evangelho segundo os homens agrada a plateia (v.10) e massageia o ego (como as focadas na autoajuda), constituindo um falso evangelho desagradável a Deus. Ao contrário do evangelho que gira em torno do ser humano, o verdadeiro evangelho concentra-se em agradar a Deus e atém-se à Sua Palavra, porque apenas esta pode transformar (1 Pe 1.23).

4. Uma Igreja Madura Discerne o Verdadeiro Evangelho

As igrejas da Galácia resultavam do trabalho missionário de Paulo (At 16.6;18.23) e eram compostas, em sua maioria, de gentios convertidos. "Obras antigas como o Comentário sobre as Guerras Gálicas se referem aos moradores da Galácia como pessoas inconstantes, nas quais não se devia confiar" (Livres em Cristo, A. Nicodemus, p.12). Embora tivessem essa característica, a expressão "tão depressa passásseis" (Gl 1.6) não se refere à conversão recente dos gálatas, mas à rapidez com que cederam aos argumentos dos judaizantes.

Aparentemente, tais cristãos foram tão receptivos ao Evangelho ao se converterem a Cristo, como o foram aos falsos mestres. Com palavras sedutoras, os judaizantes pregavam que à fé se devia somar a circuncisão e os ritos do judaísmo; isso levava os gálatas a achar que a obra de Cristo foi insuficiente e que só crer nEle não garantia salvação.

Expressões modernas do legalismo antigo podem ser encontradas hoje no meio cristão: o fundamentalismo rígido e sem misericórdia e até a reintrodução de práticas judaicas são exemplos disto. Ritos baseados em usos e costumes, e interpretações errôneas e descontextualizadas de textos bíblicos podem nos fazer acreditar que só a fé é pouco para sermos salvos, e que devemos 'pagar o preço' para entrarmos no céu. Isto constitui o falso evangelho. Como Igreja, devemos repudiar todo ensinamento que ponha o homem no centro do evangelho e nos leve a crer que por nossos méritos seremos salvos.

Conclusão

Nesta lição, fomos desafiados a rever nossos conceitos. O cristão precisa entender qual é o verdadeiro Evangelho e saber discernir entre este e os falsos ensinos. Assim como os gálatas, por vezes somos levados a servir a Deus pensando que por nossas obras seremos salvos. Mas nossos méritos e nossa justiça são como trapos de imundícia diante do Senhor (Is 64.6).

Por sua misericórdia, Deus nos dá a salvação e Suas bênçãos. Não merecemos a entrega de Cristo na cruz, não merecemos Seu amor, não merecemos Seu cuidado diário. Gálatas é um chamado à percepção do tipo de evangelho que seguimos e praticamos. A Palavra de Deus nos adverte que a salvação é pela fé e que o centro do Evangelho é Cristo.

Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6), portanto nossas obras apenas testificarão ao mundo sobre nossa fé, pela qual alcançamos a salvação. A base de nossa vida e pregação deve ser a Palavra de Deus (2 Co 4.2) e o Cristo vivo que salva o pecador pela fé (Mc 5.34; Ef 2.8). Que nosso conceito sobre salvação passe pela fé e não pelo esforço humano, como nos ensina a Palavra de Deus. Que tenhamos discernimento!

Lição 2 – Paulo e os Outros Apóstolos

Objetivo Geral

Destacar o ministério de Paulo em relação aos outros apóstolos.

Para Começar

O estudo de Gálatas amplia nossa visão sobre o Evangelho. No capítulo 2, foco desta lição, aprendemos sobre a unidade do Evangelho: mesmo quando ele é pregado a públicos diferentes, a judeus ou aos gentios, o Evangelho é único.

A ida de Paulo a Jerusalém (Gl 2.1) pode ser a referida em Atos 15.1,2 na qual a questão dos judaizantes é apresentada. Os líderes da Igreja confirmaram o ministério de Paulo (Gl 2.9); Pedro, Tiago e João não exigiram de Paulo a observância das leis judaicas, porque elas não faziam parte do verdadeiro Evangelho: acrescentar obras ou rituais à mensagem de Cristo é invalidar as boas-novas (Gl 2.16).

Desde o dia de Pentecostes, os apóstolos Pedro e João faziam milagres e pregavam a Cristo, sendo até presos (At 4.1-4,9-10; 5.18-20, p. ex.) e sua pregação e a dos demais apóstolos ecoava por toda a Jerusalém. Após a morte de Estevão, os cristãos foram dispersos pela Judeia e Samaria, exceto os apóstolos (At 8.1).

O Evangelho se espalhou, chegando aos gentios (At 10.28,45). Enviado da igreja em Jerusalém a Antioquia da Síria, Barnabé buscou Paulo em Tarso (At 11.25) e ambos foram fazer a obra missionária (At 13.2), que culminou com a fundação da igreja da Galácia. A unidade da Igreja em torno do verdadeiro Evangelho é de suma importância para nós cristãos.

Vamos compreender melhor a necessidade de estarmos unidos em Cristo, apesar das diferenças e de renunciar a nós mesmos para viver em Cristo.

1. A Aprovação dos Outros Apóstolos

Em qualquer meio profissional ou de classe, precisamos nos sentir acolhidos e aprovados. Paulo foi apresentado aos apóstolos por Barnabé (At 9.27).

Após viagens missionárias e fundação de igrejas, Paulo não se sentiu inferior a eles (Gl 2.6), mas um igual, tão apóstolo quanto os que andaram com Jesus e foram por ele escolhidos. Em reunião particular (v.2), Paulo se encontrou com os líderes da igreja-mãe, em Jerusalém, tidos como colunas (v.9).

Tiago, Pedro e João nada acrescentaram ao evangelho revelado a Paulo (v.6); este Tiago é irmão de Jesus (Gl 1.19) que substituiu o Tiago decapitado por Herodes (At 12.2), um dos Doze. Ao saberem sobre o evangelho da incircuncisão confiado por Deus a Paulo, os líderes se conectaram a ele e a Barnabé, apertando-lhes as mãos em sinal de comunhão e amizade (v.7,9).

Diferente dos falsos apóstolos infiltrados nas igrejas da Galácia, o trio de pastores da igreja em Jerusalém não censurou ou tentou diminuir Paulo, mas abraçou-no em sua chamada distinta da de Pedro. Havia um chamado para pregar aos judeus e o expoente deste era Pedro, e havia também um chamado específico para levar o Evangelho aos gentios, incircunsisos pela lei de Moisés, cujo expoente era Paulo.

Os apóstolos de Jerusalém reconheceram a operação de Deus por ministérios diversos (1Co 12.5) e que Deus capacitara Pedro e Paulo a públicos diferentes (vv.7,8). A autoridade apostólica dos Doze e de Paulo era a mesma, e a união dos apóstolos em torno do Evangelho fez com que a Igreja se fortalecesse ainda mais.

2. Paulo Diante da Igreja

Paulo conta às igrejas da Galácia que as igrejas da Judeia não o conheciam pessoalmente, apenas sabiam a respeito dele e glorificavam a Deus por sua vida (Gl 1.22-24). Em sua carta, Paulo narra a viagem à Jerusalém e sua estadia com os apóstolos. Ele confronta os que se deixaram levar pelos falsos mestres, os quais poderiam ir a Jerusalém e destruir a reputação de Paulo diante da igreja-mãe (Gl 2.2b). Isto o apóstolo evita, indo expor o conteúdo de sua pregação e se afinar com os líderes daquela igreja. Ao longo da epístola, vemos a influência de Paulo nas igrejas da Galácia.

Ele expõe as ações dos falsos irmãos: "se tinham entremetido e secretamente entraram a espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus, para nos porém em servidão" (Gl 2.4) – o objetivo deles era subjugar os crentes à observância da lei de Moisés, ignorando a liberdade da fé em Cristo. A estas ações ousadas, Paulo resistiu imediatamente (v.5) quando as presenciou.

A epístola certamente encorajou os cristãos da Galácia a repudiar as imposições legalistas, que lhes subtraíam a liberdade cristã. Do mesmo modo, esta epístola nos constrange a revisar o tipo de evangelho que praticamos e pregamos, a fim de que não nos submetamos a jugo humano sugerido a fim de completar a salvação.

3. Paulo Diante de Pedro

O relato de Paulo agora vai de Jerusalém, centro judaico do cristianismo a Antioquia da Síria (Gl 2.11), centro gentílico do cristianismo (At 11.20,26) e centro missionário de expansão do evangelho (At 13.1-3). Neste incidente, vemos Paulo confrontando Pedro por atitudes hipócritas.

Em Antioquia, Pedro foi bem recebido e comeu com os cristãos gentios, pois já havia entendido que Deus não faz acepção de pessoas (At 10.28-35). Mas com a chegada de um grupo de Jerusalém que usa o nome de Tiago para alegar autoridade sem o consentimento deste (At 15.24), Pedro se afasta dos cristãos gentios (Gl 2.12), comprometendo a comunhão. A pressão fez com que outros e até Barnabé (v.13) passassem a um comportamento dissimulado também; Pedro, por ser 'apóstolo da circuncisão', não queria ser visto comungando com incircuncisos (v.12b). Paulo repreendeu Pedro publicamente: sua dissimulação e hipocrisia afetava a igreja.

A mensagem do evangelho é inegociável, os que creem são salvos pela fé, sem acepção de pessoas. Esse incidente entre dois grandes líderes foi um marco que preservou a verdade do evangelho, pois tirou o jugo legalista de sobre os cristãos e afirmou a universalidade do evangelho – graças à percepção espiritual de Paulo. O líder dos apóstolos de Jerusalém certamente ficou envergonhado, mas não guardou rancor de Paulo, o que se vê por suas palavras em 2 Pe 3.15.

Em nossos dias, confrontos à atitudes e comportamentos que comprometam a verdade do evangelho não devem significar cisão na Igreja. Devem ser oportunidades para consolidação de nossa fé.

4. Crucificado Estou, Não Vivo Mais Eu

A argumentação de Paulo ao confrontar Pedro representa a afirmação do ponto central de sua carta: a justificação é só pela fé em Jesus. Ninguém se justifica perante Deus pelas obras.

O crente judeu do Antigo Testamento confiava na substituição feita pelos sacrifícios e não nos próprios méritos para obter a graça de Deus. Logo, após Jesus, quem crê nEle e em Seu sacrifício perfeito morreu para a Lei: não vive para o sistema legalista, mas para Deus. Os cristãos devem ser "crucificados" com Cristo (Gl 2.20) a fim de morrer para o pecado, para a Lei e para o presente século mau (Gl 1.4), pois Cristo realizou uma obra completa.

No v.20, Paulo enfatiza sua nova vida: o 'velho' Paulo, um fariseu orgulhoso, arrogante por seu grande conhecimento e zelo ficou 'na cruz'. Quando se rendeu a Jesus, ele passou a viver em Cristo. Na carne, Paulo é desafiado diariamente a proceder como Cristo, renunciando-se a si mesmo (Mt 16.24) e vivendo na fé do Filho de Deus. O amor e a entrega de Jesus são convincentes o suficiente para que o intelectual Paulo se submeta às mais diversas provações por amor a Cristo, que com amor o chamou (2Co 11.23-29). Nós somos crucificados espiritual e representativamente em Cristo.

Unidos a Ele, vivemos num corpo físico, mas Jesus vive em nosso espírito. Renunciar nosso ego e deixar o caráter e a vontade de Cristo prevalecer em nós é um desafio que compensa (Lc 9.24). Renunciar a si mesmo, de aspirações humanas e terrenas e deixar Jesus reinar como salvador e Senhor de nossa vida deve ser nossa resposta a Seu sacrifício por nós!

Conclusão

A unidade da Igreja como Corpo de Cristo foi nosso foco nesta lição, ao estudarmos as relações de Paulo com os outros apóstolos e sua posição, vivendo "na fé do Filho de Deus". Aprendemos que só há um Evangelho, independente do público-alvo. Vimos que Paulo cita sua visita a Jerusalém como defesa de seu apostolado e sua reprimenda a Pedro como introdução à argumentação em favor da justificação pela fé independente das obras da Lei. Entendemos que a confrontação pode levar à consolidação da nossa fé, a fim de que pratiquemos e preguemos o verdadeiro Evangelho.

Apesar de parecer politicamente incorreto, Paulo questionou não a pessoa de Pedro, mas suas atitudes, a fim de que o Evangelho fosse livre das amarras legalistas. Talvez se Paulo tivesse se calado diante da situação, os cristãos fossem constrangidos a circuncidar-se, e seguir dieta e calendário judaicos até hoje. Porém Paulo estava espiritualmente atento e teceu a argumentação sólida que caracteriza o Evangelho genuíno.

Em Cristo, não há judeu nem gentio (Rm 10.12,13), Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11). Todos os que creem na obra completa de Jesus podem ser salvos e devem crucificar seu 'eu'. Que em nossos relacionamentos como Igreja vivamos o verdadeiro Evangelho da fé e da renúncia!

Lição 3 – Compreendendo a Lei e a Graça

Objetivo Geral

Compreender a Lei e a Graça, as características de cada uma e a diferença entre elas.

Para Começar

O estudo de hoje concentra-se em Gálatas 3. O capítulo expõe uma das doutrinas fundamentais do cristianismo, a justificação pela fé (Rm 3.28). Somos levados por Paulo a meditar sobre a relação Lei X Graça. O apóstolo começa advertindo os cristãos da Galácia (Gl 3.1), pois estes se haviam deixado enganar por falsos mestres cujo ensino mesclava a fé com a observância de regras da Torá.

A Lei institui ritos exteriores, enquanto a Graça institui a mudança do coração (Rm 2.29). A estratégia divina simples de tornar o pecador inocente por meio da justificação pela fé era questionada pelos judaizantes, que viam o evangelho de Cristo como uma continuação do judaísmo. Eles não admitiam, como muitos não admitem atualmente, a simplicidade do Evangelho. Por isso, Paulo faz várias indagações aos gálatas (Gl 3.2-5) e os chama de insensatos por duas vezes – a fim de incitá-los a rever seus conceitos cristãos.

Na sequência, Paulo introduz a figura de Abraão, cuja salvação se deu por fé: "creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado (creditado) como justiça" (Gn 15.6; Gl 3.6), assim como deveria se dar a salvação (por fé), a partir de Jesus. Se a fé sempre foi o meio de salvação, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, esta é uma lição basilar para nós. O projeto de salvação definitiva de Deus na pessoa de Cristo nos encanta e desafia, como estudaremos. Que Deus nos constranja a servi-lo por fé e não por vista!

1. Abraão Foi Salvo Pela Fé

O apóstolo Paulo apresenta aos gálatas a fé como o meio para salvação humana. A fé é "o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem." (Hb 11.1). Através da fé em Cristo, os gentios se tornam filhos espirituais de Abraão (Gl 3.6-9), o Pai da fé (Rm 4.16). Paulo cita Gn 15.6 ao expor os mestres judaizantes, que tanto prezavam pela Lei e se gabavam de ter Abraão por pai, mas desprezavam o fato de Abraão ter sido justificado pela fé. Ele creu em Deus, num tempo em que não havia as Escrituras, nem os recursos que temos.

E até hoje paira a dúvida: como uma pessoa imperfeita pode ser considerada justa por um Deus perfeito (Jó 25.4)? Pela ótica dos judaizantes, era preciso cumprir a Lei mosaica para ser aceito por Deus. Mas, no Antigo Testamento, a salvação era através da fé. O que mudou ao longo do tempo foi o conteúdo da fé do crente, a depender do quanto de revelação Deus foi dando à humanidade.

Antes de Cristo, as pessoas eram salvas porque criam que Deus iria resolver o problema do pecado, um dia. Expressavam sua fé no Salvador que viria através do sacrifício de cordeiros, que prefiguravam Jesus, "o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29). Em Cristo, temos a revelação completa (Cl 1.17-20) e podemos alcançar, além da salvação, as bençãos prometidas na Palavra, pela fé. Vamos por nossa fé em ação e crer mais no Senhor Jesus?

2. Ninguém É Justificado Pela Lei, Mas Pela Fé

Uma das doutrinas básicas do cristianismo é a justificação pela fé. Paulo reafirma que pela lei ninguém será justificado (Hc 2.4; Gl 3.11), mas pela fé. A fé justificadora é viva, genuína, frutífera, e se manifesta por obras como testemunho ao mundo. E o que é justificação? Vem do latim justificare, que significa "fazer justo".

No Antigo Testamento, tsadaq (termo hebraico), "declarar justo", traz o sentido de justificar (Pv 17.15). No Novo Testamento, o termo grego é dikaioo, que significa "inocentar, declarar/tratar como justo" (Rm 8.33). Pela Soteriologia, o ato de justificar implica em imputar a justiça de uma pessoa a outra, isto é, declarar alguém que é injusto, justo, pelos méritos de outra pessoa, no caso, Cristo (Rm 3.22-24).

A justificação ocorre no tribunal de Deus em um ato único (Tt 3.5-7). Quando é justificado, o pecador recebe um novo status legal perante Deus, embora continue pecador (agora perdoado). A justificação é recebida pela fé (At 13.39) e, por ela, Cristo nos reveste com sua própria santidade. Essa doutrina marca o rompimento dos reformadores com a Igreja romana, que ensinava a justificação pelas obras recomendadas por Roma.

A Reforma Protestante teve início no coração de Lutero, quando ele entendeu a verdade intrínseca a Rm 1.17: "o justo viverá da fé". Para ele e outros grandes reformadores, a justificação é a base do cristianismo. Que possamos como Lutero internalizar esta verdade e viver por fé e não por vista (2 Co 5.7).

3. Viver Pela Lei ou Pela Graça

Quem obedecesse a Lei para ser salvo estava sob a maldição que a própria Lei impunha a quem não a segue à risca (Dt 27.26; Gl 3.10). O ser humano, imperfeito, jamais poderia cumpri-la totalmente. A lei não fora dada para salvar, mas apontava a necessidade de um Salvador, simbolizado no sistema de sacrifícios.

Quando Jesus se entregou na cruz como nosso representante, Ele nos livrou da maldição da Lei que era a morte como castigo (Dt 21.23; Hb 10.28). Sob a Lei, é preciso fazer para poder viver (Lv 18.5), mas sob a Graça recebe-se vida pela fé (Rm 1.17; Gl 3.11).

Os judaizantes ensinavam que a benção estaria na obediência à Lei. Por isso, Paulo lembra que a Lei trazia maldição e esta deveria estar sobre nós; tal maldição caiu sobre Cristo que sofreu o castigo em nosso lugar (v.13). Isso para que a benção prometida ao judeu Abraão chegasse a nós, gentios, pela fé – por ela nos tornamos filhos espirituais de Abraão (Gl 3.7-9). A justificação pela fé, a benção de Abraão, foi estendida a todas as famílias da terra por Cristo, filho/descendente de Abraão (v.14,16).

Também por Ele recebemos o Espírito Santo permanentemente em nós (Jo 14.16,17), pois já não estamos sob maldição. A Lei veio por causa das transgressões (Gl 3.19), mas com o fim de nos guardar, como um tutor (v.24), temporariamente, até que Cristo viesse e justificasse a todos os creem nEle. Que decidamos viver pela Graça!

4. A Unidade Por Intermédio de Cristo

Ao sermos justificados pela fé, já debaixo da Graça, percebemos que não há um Evangelho para os judeus, outro para os gentios, assim como não há divisões raciais, sociais ou de gênero no céu. O pensamento humano pode preferir a religião das obras e dos méritos que vai do homem em direção a Deus, mas a Palavra de Deus nos expõe a graça e a misericórdia que vêm de Deus para os homens, na pessoa de seu Filho Jesus. O apóstolo Paulo afirma que a fé em Cristo nos une e nos faz filhos de Deus (Gl 3.26), justificados dos pecados e em paz com Deus (Rm 5.1).

Escrevendo a igrejas bombardeadas por um 'outro evangelho', Paulo admoesta os gálatas contra as divisões (v.28), tal como na carta aos coríntios, igreja que enfrentava este desafio (1 Co 1.10-13). A obra de Cristo derruba as barreiras culturais entre judeus e gentios (Rm 10.12); elas poderiam surgir na Galácia se uns seguissem a lei mosaica e outros não.

Ser filho de Deus envolve fraternidade em Cristo e, por isso, devemos prezar pela unidade da Igreja, como conceituada por Paulo aos Efésios (Ef. 4.1-6). O sacrifício de Cristo nos garante acesso ao Pai e este não faz acepção de pessoas (Rm 2.11). Logo, nós que herdamos (como filhos) a promessa (bênção) como descendência de Abraão (Gl 3.29), não podemos discriminar quem se chega à Cristo pela fé, seja por seu passado, seja por suas falhas. Que a graça e a misericórdia fluam através de nós à nossa família de fé.

Conclusão

A vida cristã é desafiadora. Quanto mais aprendemos, mais percebemos o quanto nos falta aprender. Esta lição descortinou detalhes sobre a obra perfeita de Cristo na cruz, caracterizando a Lei e a Graça e expondo as diferenças entre elas.

O plano da salvação, apresentado em Gênesis, perpassa toda a Bíblia, pois a Graça é antes da Lei e está acima dela. Esta serviu como "aio" até que, na plenitude do tempo, Deus nos permitisse ter na cruz o representante humano perfeito que não veio revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5.17).

Observamos que havia salvação no Antigo Testamento pela fé, como no caso de Abraão. Estudamos a doutrina da justificação pela fé e a vida sob a Graça com suas bênçãos. E percebemos que, como Igreja, precisamos nos manter unidos em Cristo. Quão salutar é quando investimos nosso tempo no estudo do Palavra!

A simplicidade do Evangelho é nos dias de hoje ainda subestimada por vários cristãos, que criam ou seguem um sistema de regras legalistas e humanas, a fim de colaborar com sua própria salvação. Mas por méritos não entraremos no céu. O mérito é unicamente de Jesus e nosso papel é aceitar por fé que de culpados, Deus nos transforme em inocentes através do sacrifício de Cristo!

Lição 4 – Atenção Gálatas: Liberdade e Limites

Objetivo Geral

Conhecer alguns alertas feitos aos gálatas e evitarmos erros iguais, bem como compreender a liberdade cristã e os seus limites.

Para Começar

O estudo da carta aos Gálatas nos conduz a uma reflexão profunda sobre a justificação pela fé e a liberdade cristã. No capítulo 4, Paulo alerta os gálatas – e a nós – sobre os perigos de abandonar a graça para retornar à escravidão da Lei. Ele expõe cinco contrastes que evidenciam a superioridade da fé sobre o legalismo, destacando a transformação dos crentes de escravos para filhos de Deus, a mudança em seu relacionamento com ele e a oposição entre a liberdade da promessa e a servidão das obras. A infiltração dos mestres judaizantes nas igrejas da Galácia trouxe confusão, promovendo um evangelho distorcido que exigia a observância da Lei como condição para a salvação.

No capítulo 5, Paulo reforça o chamado à liberdade cristã. Uma vez libertos do pecado, os crentes não devem se submeter novamente ao jugo do legalismo, mas viver segundo o Espírito. O apóstolo esclarece que a disputa com os judaizantes não era por liderança ou influência, mas pela verdade do Evangelho: enquanto a salvação pela fé em Cristo é suficiente e completa, os falsos mestres insistiam na necessidade da circuncisão e das obras da Lei. Paulo adverte que quem escolhe esse caminho se coloca sob um jugo impossível de carregar. Ele destaca ainda a luta entre carne e Espírito, mostrando que aqueles guiados pelo Espírito produzem frutos que refletem a nova vida em Cristo.

Esses ensinamentos continuam atuais e desafiadores. Devemos nos perguntar: estamos vivendo na liberdade do Evangelho ou sob fardos desnecessários? Que este estudo nos leve a examinar nossa caminhada e a permanecer firmes na graça de Deus. Bom estudo!

1. Vocês Agora São Filhos

O primeiro contraste que Paulo apresenta é entre a condição de escravo e de filho (Gl 4.1-7), conectando este capítulo aos versículos anteriores, onde ele se refere aos justificados pela fé como "descendência de Abraão e herdeiros" (Gl 3.29). Antes de Cristo, éramos herdeiros tutelados, em situação análoga à de escravos (4.1).

Como um tutor, a Lei guardava a humanidade, como tutor (3.24) até que esta chegasse à maioridade, à plenitude dos tempos (4.4). Na sociedade antiga, tutores e curadores cuidavam do herdeiro até a idade dele desfrutar os bens herdados. A maioridade chega com o nascimento de Jesus, humano e judeu (v.4), e altera a condição de escravos para filhos adotivos (v.5), que agora podem ter intimidade com o Pai (v.6), pois têm o Espírito Santo. O escravo não pode ser herdeiro, o filho sim, daí nossa liberdade agora (2 Co 3.17; Hb 10.19).

A Palavra define "filho de Deus" como aquele que recebe Jesus, crendo em Seu nome (Jo 1.12). Somos todos criados, portanto, criaturas (Tg 1.18), mas recebemos o poder de sermos feitos filhos pela fé (Gl 3.26). Não estamos mais na condição de escravos (servos), mas somos filhos e herdeiros de Deus por Cristo (Gl 4.7).

Temos uma herança incorruptível (Rm 8.17;1 Pe 3-5). Na família de Deus, há só um Filho natural, Jesus; por Sua bondade, Deus nos adotou, nos tirando da tutela da Lei (Gl 4.5). Paulo alerta aos gálatas e a nós: "Já não és mais servo" (v.7). Não nos submetamos a nenhum jugo!

2. Uma Igreja Que Regrediu

Em outro alerta aos gálatas, Paulo questiona seu retrocesso espiritual. Antes, eram idólatras, serviam a deuses falsos criados pela imaginação humana – o que Paulo chama de primeiros rudimentos do mundo (Gl 4.3), equiparados a "filosofias e vãs sutilezas" e "tradição dos homens" (Cl 2.8). Deixaram a idolatria ao se converterem a Jesus mas, por influência dos judaizantes, regrediram (Gl 4.10). A Lei é "boa, santa e justa" (Rm 7.12); Paulo condena o legalismo, a ideia de que, se cumprida integralmente, a Lei garantirá a salvação (Gl 5.4).

É surpreendente a perspectiva do apóstolo: se os gálatas aceitassem o falso ensino e se deixassem circuncidar, observando calendário judaico e dieta religiosa como condição para serem salvos, estariam como que retornando à condição anterior em que serviam a deuses falsos como escravos dos rudimentos do mundo! Paulo perguntara: "Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?" (Gl 3.3).

E agora ele expõe o receio de ter trabalhado à toa (Gl 4.11). Se assim fosse, os gálatas seriam como o terreno pedregoso, citado por Jesus, que não tinha raiz (Mt 13.5,6,20,21). A vida espiritual deve progredir (Pv 4.18). Não podemos adorar outro senão Jesus. Qualquer coisa que tome o lugar de Cristo como Salvador e Senhor da nossa vida caracteriza idolatria. Que na caminhada cristã não retrocedamos (Hb 10.28), mas prossigamos para o alvo (Fp 3.13,14).

3. Dizer a Verdade Não Nos Faz Inimigos

Paulo agora contrasta a atitude inicial dos gálatas com sua atitude atual. Este alerta (Gl 4.12-18) é sobre a mudança de comportamento dos crentes em relação ao apóstolo e a mensagem pregada por ele, devido à intromissão dos judaizantes nas igrejas da Galácia. "Por mais que sofresse agora, ele se recordava que os gálatas não lhe causaram nenhum dano no começo, quando pela primeira vez os visitou, mas ignoraram sua enfermidade física a qual obrigou-o a permanecer entre eles como um doente.

Ele não se afastou deles até que os familiarizou com as boas novas do Evangelho." (Comentário Bíblico Moody, p.26). Após receberem Paulo "como um anjo de Deus" (v.14), eles o estavam rejeitando como a um "inimigo" (v.16). Paulo sugere que os judaizantes agiam como ele antes de se converter, com zelo extremado e mal direcionado (Gl 1.14; 4.17). O apóstolo manteve-se zeloso por seus filhos na fé, embora perplexo, e mostrou que os verdadeiros inimigos eram os que inquietavam a igreja (Gl 1.7) e agiam a fim de obter o apreço que os gálatas tinham por Paulo, com bajulação (Gl 4.17).

Note que o motivo de considerarem Paulo um inimigo era ele ter dito a verdade. Jesus nos exorta a sermos vigilantes no falar (Mt 5.37), não nos eximindo de falar quando necessário (At 18.9). Jesus é a verdade (Jo 14.6) e nós devemos falar a verdade pois ela edifica o Corpo de Cristo, sem 'lançar em rosto' (o que nem Deus não costuma fazer, Tg 1.5).

4. A Filiação Determina a Condição

O último alerta de Paulo se inspira numa alegoria para complementar o argumento de que a justificação sempre foi pela fé (Gl 4.21-31). Paulo usou a estratégia dos judaizantes: argumentar com a Lei, mas provando que a Lei (Torá) apontava para Jesus. Outra vez Paulo traz Abraão, agora com seus filhos: Ismael, filho da escrava e Isaque, filho da livre.

Alegoria era um método comum dos judeus para defender seu ponto de vista. Sara e Hagar são a alegoria de dois concertos: a aliança abraâmica e a aliança mosaica. O Monte Sinai está para Hagar e para a Jerusalém terrena assim como Sara está para a Jerusalém celestial.

Hagar remete ao legalismo e à Jerusalém terrena. Sara remete à liberdade cristã e à Jerusalém celestial, mãe de todos os que são justificados pela fé (v.26). Ismael, gerado segundo a carne, perseguiu Isaque, gerado por promessa, segundo o Espírito. Na Torá foi dito a Abraão "lança fora a escrava e seu filho" (Gn 21.10,12; Gl 4.30); de igual modo Deus ordena aos gálatas por Paulo que deixassem os filhos da escravidão, os legalistas! Os filhos da promessa são livres, como Isaque (v.28) – livres em Cristo de todo jugo do sistema legalista que exige esforços humanos.

Os filhos espirituais de Abraão herdarão as bênçãos prometidas a ele, mas os que seguem a Lei e se submetem à escravidão espiritual e ao legalismo não recebem herança. Que nós possamos viver de fé em fé e receber herança entre os santificados (At 20.32).

5. Liberdade Com Limites

Os cristãos gálatas estavam na iminência de se tornar escravos da Lei. Por isso, Paulo continua no assunto do capítulo anterior, alertando-os a não se submeterem ao jugo do legalismo (Gl 5.1). De acordo com o apóstolo, os gentios precisavam escolher entre Cristo e a circuncisão que, uma vez escolhida, demandaria a obediência total à Lei e invalidaria a obra de Cristo, caracterizando a justificação pelas obras.

Aceitar a circuncisão significava abandonar a graça de Cristo (Gl 5.4) em favor da autojustificação, que é inferior e impossível. O verdadeiro crente permanece na graça (Rm. 5:2). Enquanto o legalista vive na insegurança, porque não sabe se fez o suficiente segundo o padrão da justiça divina – aqueles que estão justificados pela fé, aguardam a esperança da justiça (Rm 8.10,11; Gl 5.5).

Para os gálatas, viver sob a servidão da Lei pode parecer mais fácil do que administrar a liberdade, já que esta tem limites. A liberdade cristã exige firmeza e não equivale à libertinagem, não é uma licença para viver no pecado (Rm 6.16,18; Gl 5.13). O cristão deixa de ser escravo do pecado para ser escravo de Cristo (Rm 6.22). Este veio para cumprir a Lei e dar-nos a salvação gratuitamente (Mt 5.17; Rm 3.24); logo, o Evangelho deve ser praticado em liberdade, servindo aos irmãos (Gl 5.13). Os limites da liberdade cristã estão referidos na Palavra de Deus e contêm a carne.

6. Uma Luta Diária

Em sua argumentação, Paulo aponta para a luta diária do cristão (Gl 5.16,17). Novamente, ele expõe os dois sistemas de salvação: a salvação pelas obras (carne) e a salvação pela fé (Espírito). Eles são opostos e guerreiam entre si constantemente (v.17), o que já foi antecipado em Gl 3.3.

Mas há possibilidade de vencer a carne e o desejo de ser salvo (por cumprir regras e seguir o legalismo). "A forma futura na negativa ('não cumprireis') é uma notável promessa. Andar a cada momento pela fé na palavra de Deus sob o controle do Espírito é garantia de vitória absoluta sobre os desejos de nossa natureza pecaminosa." (O Novo Comentário Bíblico – Novo Testamento, p. 495).

Carne é a nossa natureza pecaminosa, herdada de Adão e Eva. O Espírito Santo é recebido pela fé (Gl 3.2,14) e ajuda nosso espírito resistir à carne a fim de que os propósitos espirituais de Deus se realizem em nós e não as inclinações carnais. Estas envolvem, inclusive, a pretensão de "colaborar com a salvação".

Paulo também fala sobre carne e Espírito no sentido pessoal e ético, como o conflito interno que confronta os desejos pecaminosos com o desejo de santificação. Esse conflito é diário e desafiador para o cristão. Negar-se a si mesmo (Mt 16.24) e viver sob a orientação do Espírito Santo dá ao crente a possibilidade de não cair nas tentações cotidianas. Esta guerra comum a todos nós é para que "não façais o que quereis" (Gl 5.17b).

Conclusão

O estudo da carta aos Gálatas nos conduz a uma reflexão profunda sobre nossa fé e nosso compromisso com o verdadeiro Evangelho. Aprendemos que a liberdade cristã não significa ausência de limites, mas um chamado à responsabilidade de viver no Espírito, longe do legalismo e das obras da carne. O perigo de começar bem na fé e, com o tempo, permitir que falsos ensinos ou desejos pessoais nos afastem da verdade é real. Assim como os gálatas foram influenciados por mestres judaizantes que distorciam o Evangelho, também hoje enfrentamos ensinos e ideologias que tentam enfraquecer ou modificar a mensagem de Cristo.

Paulo nos lembra que nossas escolhas espirituais determinam nosso destino: ou semeamos para a carne, colhendo corrupção e escravidão, ou semeamos para o Espírito, recebendo a vida eterna. A luta entre carne e Espírito não é apenas um conceito teórico, mas uma realidade diária. Nossas ações, palavras e decisões revelam onde está nosso coração. Se nos apoiamos na graça de Deus e buscamos viver em santidade, produziremos o fruto do Espírito, que reflete a verdadeira transformação interior operada por Cristo.

Diante desse ensinamento, precisamos nos perguntar: como temos vivido nossa fé? Temos permitido que o Espírito Santo nos guie ou estamos presos a um evangelho superficial e conveniente? Nossa liberdade está sendo usada para glorificar a Deus e servir ao próximo ou para justificar comportamentos contrários à Palavra? Que possamos nos examinar com sinceridade e buscar uma vida cristã autêntica, firmada na graça, no amor e na verdade do Evangelho. Que Deus nos fortaleça para que possamos permanecer fiéis até o fim, vivendo plenamente a liberdade que há em Cristo.

Lição 5 – Atenção Gálatas: Vivendo no Espírito

Objetivo Geral

Demonstrar os reflexos da semeadura e da colheita na vida do homem.

Para Começar

O estudo dos capítulos 5 e 6 de Gálatas nos conduz a uma reflexão profunda sobre a luta interna entre a carne e o Espírito, que marca a vida cristã, exige que busquemos orientação do Espírito para produzir o fruto do Espírito, que reflete a verdadeira transformação de uma vida em Cristo.

No sexto capítulo, Paulo apresenta a Lei da Semeadura, destacando que o tipo de semente que plantamos em nossas vidas determinará a colheita que teremos. Ele exorta os crentes a restaurarem aqueles que caíram em pecado com humildade e vigilância, e incentiva a prática do bem, lembrando sempre que a verdadeira liberdade cristã passa pela cruz. A salvação, como Paulo afirma, é radicalmente pela graça e não pelas obras, refutando qualquer tentativa de reconciliar a graça de Deus com as obras humanas, como proposto por algumas doutrinas. Para nós, cristãos que seguimos a Bíblia, a graça de Deus é suficiente, e a salvação não depende de nossa capacidade de realizar boas obras, mas da fé genuína em Cristo.

Que este estudo nos ajude a discernir claramente essas verdades e a viver com a liberdade que Cristo conquistou para nós, sem nos desviar para qualquer sistema de salvação baseado em méritos humanos. Que possamos estar firmes na fé e preparados para responder aos questionamentos sobre nossa prática cristã. Bom estudo!

1. As Obras da Carne São Manifestas

Paulo cita as obras da carne, que podem escravizar o espírito, a alma e o corpo do indivíduo (1 Ts 5.23). As obras da carne (natureza pecaminosa) são agrupadas em quatro categorias: 1) pecados sexuais (Gl 5.19): prostituição ou imoralidade (na prática), impureza e lascívia (na mente); 2) manifestações religiosas erradas (v.20a): idolatria e feitiçaria, que caracterizavam não só a cultura helênica, mas também as várias religiões daquela época, cujo cerne era o culto às imagens, prática de magia, encantamento e contato com os mortos; 3) pecados relacionais (v.20,21a): inimizades, rivalidades, ciúmes, ira, ambição egoísta, discórdias, partidarismo (heresias), invejas. Isto lhes soava familiar, pois parece ter havido discussões e conflitos nas igrejas da Galácia, devido à ação dos judaizantes (Gl 5.15). 4) atitudes coletivas pecaminosas (v.21): bebedeiras e orgias (glutonarias), que expressam descontrole e busca pela satisfação dos desejos mais básicos da natureza humana (adâmica). Assim viviam os gentios, nas culturas onde a degradação moral imperava (Ef 4.19).

Essa é uma lista representativa e pode ser completada (Rm 1.28-32; 1 Co 6.10). Quem vive na prática destas obras não herdará o Reino de Deus. Observe que as obras da carne são a expressão pecaminosa da natureza humana e as obras da lei são a expressão religiosa dela. Para ambas, a solução é a justificação pela fé em Cristo Jesus.

2. Não Há Lei Contra o Fruto do Espírito

Ao contrário do plural "obras da carne", Paulo agora fala em "fruto do Espírito", no singular. "Talvez Paulo tenha desejado mostrar o caráter caótico e multiforme das manifestações da nossa natureza carnal, referindo-se a elas como 'obras'. Contudo, debaixo do poder do Espírito Santo, o cristão produz o fruto, único, coeso, apontando para uma vida consistente, caracterizada por nove virtudes bastante similares (Gl 5.22,23)" (Livres em Cristo, A. Nicodemus, p. 255). A analogia do fruto lembra o ensinamento de Jesus (Jo 15.1-5). A primeira virtude é o amor, do qual derivam as demais virtudes (Gl 5.6; 1 Jo 4.8): alegria (gozo), paz, paciência (longanimidade), benignidade, bondade, fé, mansidão e domínio próprio. O Espírito Santo nos dá o poder de mortificarmos nossa carne, já que o cristão verdadeiro está crucificado com Cristo (Gl 2.20; 5.24) e produzirmos o fruto do Espírito por seu agir diário em nós (v.25).

Paulo torna evidente o contraste entre a vida no Espírito, debaixo da graça de Deus e enraizada na justificação pela fé e a vida sob a Lei, que fortalece as inclinações carnais (Rm 6.14). Contra o fruto do Espírito não há lei, não há restrições, pois essas virtudes ou atitudes espirituais cumprem a Lei de Deus (v.23; Rm 8.4; 13.10). Os cristãos que andam em Espírito não cobiçam, não se provocam e não invejam uns aos outros (Gl 5.25-26). Que possamos deixar o Espírito Santo produzir em nós Seu fruto!

3. Levando Fardos

Paulo começa orientando as igrejas quanto à restauração espiritual do irmão que pecou (Gl 6.1, NVI) para que se cumpra a Lei de Cristo (v.2) que é o amor (Mc 12.29-31) e cita também a responsabilidade pessoal de cada crente (v.3-5). A expressão "chegar a ser surpreendido" (v.1a) pode indicar que o cristão seja pego de surpresa por alguma tentação e peque, e não que o irmão seja flagrado no pecado.

A seguir, Paulo diz como corrigir o irmão com quatro atitudes: 1) mansidão/brandura, um fruto do Espírito que só os espirituais têm (v.1; Tt 3.2); 2) cuidar de si mesmo: a atitude de vigilância evita que se caia no mesmo pecado que se tenta corrigir (1 Co 10.12); 3) assumir o fardo do outro, ajudar o pecador a suportar o peso da consciência do pecado até que este seja vencido (Jo 8.34); 4) humildade, com a qual devemos corrigir o outro, tendo em mente que não somos perfeitos, estamos sujeitos a tentações. Ser humilde e levar a própria carga (Gl 6.5) é não dar lugar à arrogância espiritual e não se sentir superior ao irmão que eventualmente pecou.

Quem se auto compara com o que caiu conclui ser melhor do que ele, enganando-se (v. 3). Cada cristão deve "provar sua própria obra", examinar-se para ver se está seguindo o exemplo de Cristo (Jo 13.15; 2 Co 13.5). Devemos assumir essa responsabilidade pessoal e individual no Corpo de Cristo (Rm 12.5). Se o cristão se julgar superior, será semelhante ao fariseu de Lc 18.11,12!

4. Não Erreis!

Paulo apresenta em Gl 6.7,8 a chamada Lei da Semeadura. É provável que Paulo se refira a alguns crentes das igrejas da Galácia que desprezavam seus pastores e mestres não dando a eles o sustento devido (Gl 6.6), por influência dos judaizantes.

O apóstolo aconselha-nos a não errar pensando que Deus não perceberá as nossas ações. A Lei da Semeadura é óbvia e não se pode driblar: o que for plantado hoje, no tempo adequado será colhido. Uma associação semelhante aparece em 2 Co 9.6. O famoso Gl 6.7 se refere à atitude das igrejas da Galácia quanto ao sustento de seus líderes.

A semente a ser plantada são os bens dos cristãos no provimento dos que cuidam deles e na expansão do Reino de Deus (1 Co 9.11-14); a colheita é espiritual visto que, investindo na obra de Deus, os cristãos investirão no Reino e colherão a vida eterna. A semeadura na carne resulta em corrupção ou destruição (NVI).

Os que gastam seus bens apenas nas coisas materiais, esquecendo-se do sustento do Reino e de sua expansão incorrem no erro de semear para colher inclusive uma eternidade longe de Deus. Ao contrário, os que investiam no sustento dos que os instruíram no verdadeiro Evangelho, semearam no Espírito e colheriam do Espírito a vida eterna, perseverando até o fim e sendo salvos (Mt 10.22). Aplicando o contexto do investimento no Reino de Deus, no sustento aos que nos pastoreiam, como está nossa semeadura?

5. Fazendo o Bem Aos Nossos

O apóstolo aconselha os cristãos gálatas a continuarem semeando o bem: "Não nos cansemos de fazer o bem. Pois, se não desanimarmos, chegará o tempo certo em que faremos a colheita." (Gl 6.9, NTLH).

Entre a semeadura e a colheita há um tempo. Quem espera plantar e ver resultado imediato pode desanimar. Paulo anima os gálatas a semear pois o tempo de Deus, o tempo de colher vai chegar. Segundo Paulo, fazer o bem pode significar manter a obra de Deus (v.6), compartilhar seus bens com seus mestres, semeando para o Espírito (v.8) e ajudar os necessitados (At 20.35; Tt 3.14), ou seja, é a prática do bem de modo geral. Devemos fazer o bem enquanto temos tempo e oportunidade, pois se o presente nos permite ser generosos, ajudar quem precisa, nada sabemos quanto ao futuro.

E a prática do bem deve se estender a todos, sem exceção, como Jesus ensinou (Mt 5.44), incluindo até os inimigos nisso (Rm 12.20). Paulo sugere duas esferas da beneficência cristã: a todos e aos da família da fé. Os irmãos em Cristo são a prioridade. Se semearmos o bem, principalmente na vida dos nossos irmãos, certamente colheremos o bem. A vida é como um bumerangue, o que fazemos aos outros diz muito sobre nós (Mt 7.12,16; 12.35) e volta para nós multiplicado. Portanto, plantemos boas sementes, principalmente na família de fé; estejamos com o olhar atento às necessidades do nosso próximo, cumprindo assim a lei de Cristo (Mt 22.36-40).

6. Sendo Uma Nova Criatura

Paulo retoma o contraste entre as motivações e intenções dos judaizantes e as dele próprio. Os judaizantes não eram sinceros, não tinham amor genuíno pelos gálatas. Se identificavam como cristãos, mas defendiam a Lei, pois não admitiam que a morte de Cristo era suficiente para salvar. Pensavam só em si e não estavam dispostos a sofrer por Jesus (Gl 6.12). Eles eram hipócritas, não guardavam a Lei e queriam impô-la aos gentios, a fim de gloriar-se em tê-los cooptado para o judaísmo (v.13).

Paulo reafirma sua motivação na Carta aos Gálatas que é considerada a mais pessoal de todas, porque ele faz referências a si mesmo em vários trechos, ao contrário das outras epístolas. E qual a sua motivação, em que se gloria? Na cruz de Cristo. A cruz representa vergonha, tortura e morte, mas nela Cristo se fez maldição por nós e nos livrou do jugo do pecado e da Lei. A cruz é o centro do verdadeiro Evangelho! Pela cruz, Paulo e os cristãos estão crucificados para o mundo, não fazem mais parte dele.

Por mundo, entende-se o sistema de valores pecaminosos, o modo de pensar antagônico a Deus. Pela cruz, morremos para o mundo e somos feitos nova criatura: "as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Co 5.17). A circuncisão e a incircuncisão perdem seu valor salvífico. O milagre da geração de uma nova criatura é devido à obra perfeita, completa e suficiente de Cristo. A salvação é pela fé neste sacrifício rompe com a vida antiga e é superior a todo sistema de regras e de pecado. Que passemos pela cruz!

Conclusão

Ao refletirmos sobre o ensino de Paulo nas cartas aos gálatas, somos levados a um confronto sincero com nossa vida cristã. Não basta afirmar ser cristão; nossas atitudes diárias revelam o verdadeiro estado do nosso coração. A luta interna entre a carne e o Espírito é real e constante, desafiando-nos a escolher, a cada momento, se seguiremos a natureza pecaminosa ou a direção do Espírito. Se decidirmos nos submeter ao legalismo e às obras da carne, nossa vida refletirá os frutos da natureza adâmica. No entanto, se optarmos por viver pela graça, em fé, seremos guiados a produzir o fruto do Espírito, que não está sujeito à condenação.

Paulo nos alerta também sobre a semeadura espiritual: o tipo de semente que plantamos determinará a colheita que teremos. Não se trata de semear para um benefício material, mas para a vida eterna, semeando no Espírito e fazendo o bem, especialmente entre a família da fé. Ele nos desafia a examinar nossas motivações, refletindo se estamos realmente seguindo o exemplo de Cristo ou nos deixando enganar por doutrinas que distorcem a verdade do Evangelho. Assim como Paulo, que se gloria na cruz de Cristo, somos chamados a passar pela cruz, crucificando nosso "eu" e nos tornando novas criaturas, livres do pecado e herdeiros da promessa da vida eterna. Que possamos viver em plena liberdade, não mais prisioneiros do legalismo ou das obras humanas, mas firmados na graça de Cristo, com uma vida transformada e direcionada pelo Espírito.

Editorial

Curso: Carta aos Gálatas

Ano: 2024

1ª Edição

Conselho Editorial:

Pr Sinval Júlio de Souza

Pr Lúcio Andres

Revisão Teológica:

Pr Leverson Eustáquio

Revisão Textual:

Rose Viana

Projeto Gráfico e Diagramação:

Márcio Rezende

Wagner Monteiro

Comentarista:

Elcivanni Santos