
# Atos dos Apóstolos

A propagação do evangelho de Jerusalém a Roma pelo poder do Espírito Santo.

## Sumário

- Lição 1 – O Livro de Atos
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - Tópico 1: O Autor de Atos
  - Tópico 2: Data e Para Quem o Livro Foi Escrito
  - Tópico 3: As Principais Características de Atos
  - Tópico 4: A Mensagem Central
  - Conclusão
- Lição 2 – Em Jerusalém
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - Tópico 1: À Espera do Pentecostes (Atos 1:6-26)
  - Tópico 2: O Dia de Pentecostes (Atos 2:1-47)
  - Tópico 3: O Início da Perseguição (Atos 3:1-4:31)
  - Tópico 4: O Contra-Ataque Satânico (Atos 4:32-6:7)
  - Conclusão
- Lição 3 – Os Fundamentos da Missão Mundial
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - Tópico 1: Estêvão, o Mártir (Atos 6:8-7:60)
  - Tópico 2: Filipe, o Evangelista (Atos 8:1-40)
  - Tópico 3: A Conversão de Saulo e Cornélio (Atos 9:1-11:18)
  - Tópico 4: Expansão e Oposição (Atos 11:19-12:24)
  - Conclusão
- Lição 4 – O Apóstolo dos Gentios
  - Objetivo Geral
  - Introdução
  - Tópico 1: A Primeira Viagem Missionária (Atos 12:25-14:28)
  - Tópico 2: O Concílio de Jerusalém (Atos 15:1-16:5)
  - Tópico 3: Missões (Atos 16:6-21:17)
  - Tópico 4: Roma (Atos 21:18-28:31)
  - Conclusão
- Referências Bibliográficas
- Editorial

## Lição 1 – O Livro de Atos

### Objetivo Geral

Ensinar ao leitor sobre as particularidades do livro de Atos, suas características, seu autor, bem como entender a mensagem central deste livro.

### Introdução

O Livro de Atos é o volume 2 do relato de Lucas sobre as "boas novas" de Jesus e como elas se espalharam de Jerusalém a Roma pelo poder do Espírito. Henry J. Cadbury (1958) considera que Atos não é apenas um apêndice ou um posfácio, mas uma obra única e contínua com o seu Evangelho. Lucas o escreveu como um diplomata, historiador e teólogo-evangelista. Se este livro não se encontrasse na Bíblia, teríamos poucas informações sobre os primórdios da igreja, com exceção do que encontramos nas cartas de Paulo, por exemplo, e nas de Pedro.

Recebemos 4 relatos sobre a vida de Jesus nos evangelhos, mas somente 1 sobre a igreja primitiva. Atos, portanto, ocupa um lugar de extrema notoriedade pois, sem ele, por exemplo, provavelmente não iríamos possuir informação alguma sobre a primeira igreja grega em Antioquia, da qual se propagou a missão cristã de alcance mundial. Além disso, talvez jamais teríamos uma explanação da atividade missionária de Paulo ou uma descrição de como o evangelho se disseminou pelas cidades estratégicas do mundo romano.

Outro fator de suma importância é a forma como Lucas conecta Jesus com O Espírito Santo e, ao lermos este livro, verificamos que o Espírito é a chave para o ministério de Jesus na Terra. Com a vinda do Messias e do Espírito, o tempo da graça de Deus chega. O evangelho é a atividade de Deus na História e agora a salvação é tanto para os Judeus como para os gentios.

Geralmente falamos "Atos dos Apóstolos", entretanto ele não nos fornece um relatório extenso dos apóstolos. Com exceção de Paulo, somente outros 3 são mencionados com maior destaque: Tiago (irmão de João), João, o qual aparece na narrativa, mas nunca fala, e Pedro. Outro aspecto característico de Atos é que, para se entender este livro, necessitamos reconhecer o "movimento" do evangelho narrado em 6 partes:

_1 - Atos 1:1-6:7_: narração da propagação das "boas novas" de Jesus em Jerusalém pelos apóstolos;

_2 - Atos 6:8-9:31_: primeira expansão geográfica para a Judéia e Samaria;

_3 - Atos 9:32-12:24_: primeira expansão para os gentios;

_4 - Atos 12:25-16:5_: expansão dos gentios na Ásia e como os primeiros líderes tiveram que lidar com a "problemática" da inclusão dos gentios;

_5 - Atos 16:6-19:20_: disseminação do evangelho da Ásia à Europa.

_6 - Atos 19:1-28:31_: relato de como Paulo (o apóstolo dos gentios) finalmente chega com as "boas novas" a Roma (a capital do mundo gentio).

Quanto à interpretação de Atos, embora reconheçamos o contexto histórico em que foi escrito, entendemos que seu conteúdo é relevante e aplicável aos crentes de hoje. As experiências e práticas descritas no livro de Atos servem como modelo para a igreja contemporânea, especialmente no que se refere à atuação do Espírito Santo e à prática dos dons espirituais. Por exemplo, ao refletirmos sobre a escolha de Matias para substituir Judas (Atos 1:23-26), vemos a importância de buscar a direção de Deus em decisões importantes na igreja, confiando que o Espírito Santo guia Seu povo.

### Tópico 1: O Autor de Atos

Apesar de Atos não afirmar, Lucas é considerado o autor deste livro. Entretanto, não sabemos muito sobre ele e há somente 3 referências que citam seu nome: Colossenses 4:14, Filemon 24 e 2 Timóteo 4:11. Em vista disso, podemos afirmar que Lucas era um médico e companheiro de Paulo, pois estava com este durante o seu último aprisionamento. Além disso, também conseguimos concluir que Lucas era gentio porquanto em Colossenses 4:11 conclui-se uma lista de menções e saudações daqueles que eram da "circuncisão", ou seja, judeus. No próximo versículo é estabelecido uma nova lista e, inferimos, que seja de gentios, uma vez que seu nome é incluído no versículo 14, com a certeza de que ele não se encontra na lista de pessoas "da circuncisão". Desta forma, chegamos à conclusão de que Lucas é o único autor gentio no Novo Testamento.

Quanto ao fato de Lucas ser um médico, como citado em Colossenses 4:14, poderíamos predizer este fato devido aos termos médicos que ele usa. Por exemplo, em Lucas 4:35: "Mas Jesus o repreendeu, dizendo: — Cale-se e saia desse homem. O demônio, depois de o ter jogado no chão no meio de todos, saiu daquele homem sem lhe fazer mal." Neste versículo ele usa o termo médico de convulsão. Já em Lucas 9:38: "E eis que, do meio da multidão, surgiu um homem, dizendo em alta voz: — Mestre, peço que o senhor olhe o meu filho, porque é o único que tenho." O autor desta vez usa a palavra convencional de um médico que está atendendo a um paciente quando expressa "peço que o senhor olhe o meu filho".

Um outro exemplo curioso seria Lucas 18:25: "Porque é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus." Diferentemente de Mateus 19:24 e Marcos 10:25, Lucas usa o termo técnico no grego _belone_, que significa a agulha de um cirurgião, enquanto os outros evangelhos apresentam o grego _raphis_, vocábulo comum para "agulha" de alfaiate. Os médicos se submetiam a um treinamento rigoroso naqueles tempos e pode-se perceber o grego refinado de Lucas, atestando que o mesmo era uma pessoa culta. Além de ser médico e amigo de Paulo, ele também morou na Palestina e, podemos inferir, que o autor passou um tempo se familiarizando com as histórias e costumes judeus, coletando material para seus livros.

Lucas era um historiador e suas fontes são todas primordiais, mas de onde ele as obteve? Há duas respostas para esta pergunta:

1. Os primeiros 15 capítulos de Lucas com relatos dos quais ele não tinha conhecimento pessoal: provavelmente, o autor teve acesso aos registros das igrejas locais, os quais talvez não tenham sido escritos, mas poderiam ter sido relatados. Existia o registro da igreja de Jerusalém, o qual encontramos nos capítulos de Atos 1-5 e 15-16. Também temos o registro da igreja de Cesaréia, capítulos 8:26-40 e 9:31-10:48. Por último encontramos o registro da igreja de Antioquia, capítulos 11:19 e 12:25-14:28.

2. Capítulos 16-28: Lucas teve conhecimento pessoal de muito que foi incluído nesta seção, pois sua narração passa da terceira pessoa para "nós". Ele provavelmente deve ter mantido um diário de viagem, no qual escrevia os acontecimentos do dia. As passagens em que ele escreve "nós" são as seguintes: 16:10-17, 20:5-16, 21:1-18 e 27:1-28:16. Lucas deve ter estado presente em todos esses acontecimentos, sendo testemunha ocular. Quanto aos eventos em que estava ausente, ele pôde coletar informações para seu livro nas muitas horas em que passou com Paulo na prisão.

Ao ler o livro de Atos, temos a certeza de que nenhum outro historiador teve fontes melhores ou usou-as com tanta acuracidade.

### Tópico 2: Data e Para Quem o Livro Foi Escrito

A data em que o livro de Atos foi escrito é incerta, uma vez que estudiosos estão divididos entre uma data antes da morte de Paulo (por volta de 64 A.D - Atos 28:30-31) e outra depois da queda de Jerusalém (70 A.D, devido ao seu uso de Marcos). Tanto quanto o evangelho de Lucas quanto Atos foram escritos para um homem cujo nome era Teófilo (Lucas 1:3; Atos 1:1). Devido ao fato de Lucas o chamar de "excelentíssimo Teófilo", pode-se concluir que ele era de um alto escalão do governo romano. Porém, existem 3 possibilidades sobre a identidade de Teófilo:

1. Possivelmente, Teófilo não seria um nome real pois naqueles tempos era considerado perigoso ser cristão. O nome em si vem de duas palavras no grego: _Theo_ (Deus) e _philos_ (amigo). Hipoteticamente, Lucas teria escrito para alguém que amava Deus, mas escondeu a sua verdadeira identidade por segurança.

2. Outra probabilidade é a de que Teófilo era uma pessoa real, um funcionário importante do governo. Talvez Lucas estivesse endereçando seus livros a ele para mostrá-lo como o Cristianismo é algo benéfico e que os cristãos eram boas pessoas. Supostamente ele estaria escrevendo para um oficial do governo não perseguir a igreja.

3. Existe uma terceira teoria baseada no fato de Lucas ser um médico e estes geralmente eram escravos nos tempos antigos. Há sugestões de que Teófilo era seu paciente e que estaria gravemente doente. Entretanto, pela expertise e devoção de Lucas, ele tenha sido curado, o que levaria Teófilo a dar a Lucas sua liberdade. Por outro lado, ele teria escrito os livros a ele como forma de gratidão e, como o que ele tinha mais de precioso naquela época era a história de Jesus, ele a escreveu e a enviou a seu benfeitor.

### Tópico 3: As Principais Características de Atos

_Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até o dia em que foi elevado às alturas, depois de haver dado mandamentos por meio do Espírito Santo aos apóstolos que tinha escolhido. (Atos 1:1-2)_

Lucas considera que o livro de Atos seja o volume 2 de sua obra sobre as origens do Cristianismo, a qual constitui um quarto do Novo Testamento. É importante salientar que o autor não enxerga o volume 1 como sendo a história de Jesus Cristo desde o seu nascimento, sofrimentos pelos quais passou, morte, ressurreição e ascensão aos céus. Também não acredita que o volume 2 seja sobre a história da igreja de Jesus Cristo, seus sofrimentos pela perseguição e a conquista de Roma. O contraste que ele expõe não ocorre entre Jesus e sua igreja, mas entre as duas etapas do ministério de Cristo.

O autor narra no Evangelho de Lucas as obras que Jesus começou a fazer e ensinar até sua ascensão. Já em Atos, ele relata o que Jesus continuou a operar e ensinar após sua ascensão, principalmente através de seus apóstolos. Portanto, o ministério de Cristo neste mundo em forma de homem foi continuado pelo seu ministério celestial por intermédio dO Espírito Santo em seus apóstolos.

John Stott questiona qual seria, então, o nome correto para o segundo volume de Lucas? O Codex Sinaiticus, do quarto século, o intitula de _Praxeis_("Atos"). Porém, não há uma explicação de quem seriam esses atos que ele está descrevendo. O título tradicional desde o segundo século é "Os Atos dos Apóstolos", com ou sem o artigo definido. Entretanto, outros estudiosos, como Johann Albrecht no século XVIII, recomendaram a designação de "Os Atos do Espírito Santo", pois o volume 1 relataria os "Atos de Jesus Cristo". Conceito este difundido por Arthur T. Pierson (1895):

_Podemos, talvez, nos aventurar a chamar este livro de "Os Atos do Espírito Santo", pois, do começo ao fim, ele é o registro de seu advento e atividade. Aqui ele é visto chegando e operando... Só se reconhece um único Ator e Agente verdadeiro, todos os outros, chamados atores ou trabalhadores, são apenas seus instrumentos, o agente sendo o que atua e o instrumento, aquilo através do qual ele atua._

Outro comentário valioso sobre o livro de Atos é feito por Pierson ao encerrar seu livro:

_Igreja de Cristo! Os relatos desses atos do Espírito Santo nunca foram completados. Esse é o livro que não possui fim, pois está à espera de novos capítulos a serem acrescentados no ritmo e na medida em que o povo de Deus confirma o bendito Espírito na sua santa cadeira de comando._

Outra característica essencial de Atos é que este livro diferencia o Cristianismo de todas as outras religiões. Apesar de Jesus ter morrido e ressuscitado completando seu ministério na terra, a sua obra de expiação foi um fim, mas também um começo. Após sua ascensão e com a vinda dO Espírito Santo, Jesus continuou sua obra neste mundo. Desta forma, previamente ao término de seu ministério, Jesus tomou medidas para que sua função permanecesse na terra (por intermédio dos apóstolos) mas a partir do céu (mediante O Espírito Santo).

### Tópico 4: A Mensagem Central

O livro de Atos tem sua mensagem central na obra de Deus através da vida de pessoas que se dedicaram a Jesus Cristo, agindo por intermédio dO Espírito Santo. As boas novas da salvação agora são tanto para o judeu quanto para o gentio. A ação dO Espírito Santo edifica a igreja e possibilita a propagação do evangelho a partir dos judeus para os gentios. Desta forma, os cristãos têm o bom senso de trabalhar junto com Deus para incluir os gentios em Sua salvação. A salvação é para todos e nada pode impedi-la. As boas novas são aceitas por uns, mas rejeitadas por outros. O evangelho foi disseminado de Jerusalém à Judéia e de Samaria ao restante do mundo. Consequentemente, o cristianismo se transformou de um tronco do judaísmo em uma religião mundial, a qual foi aceita em todos os lugares, inclusive em Roma, a base do paganizado império romano.

### Conclusão

Podemos concluir de que Atos é um livro importante para entendermos a história dos primórdios da igreja. Lucas possuiu todas as qualificações para escrever um relatório detalhado de como os apóstolos continuaram a obra de Jesus aqui na terra pelo intermédio dO Espírito Santo. Além disso, a salvação não é oferecida somente aos judeus, agora ela é estendida aos gentios. Fato curioso, pois o autor é o único gentio do Novo Testamento.

Enquanto os deuses de outras religiões "morrem", Jesus é O único que morreu, ressuscitou e foi elevado aos céus. Isto faz parte da obra salvífica de Deus, para que O Espírito Santo continuasse o ministério de Cristo aqui na terra. Portanto, que possamos agir como filhos amados, portadores dO Espírito do único Deus que não abandonou seus seguidores nesta terra.

## Lição 2 – Em Jerusalém

### Objetivo Geral

Explanar sobre os eventos ocorridos antes e durante o dia de Pentecostes, assim como as primeiras perseguições da igreja e o que satanás fez para tentar destruí-la.

### Introdução

O dia de Pentecostes, o qual foi o principal evento dos primeiros capítulos de Atos, é considerado importante pois concretizou a promessa de Jesus na qual Ele "derramaria" O Espírito Santo sobre os seus discípulos. Esta é a última obra da função salvífica de Cristo (até a sua segunda vinda). Como os profetas haviam profetizado, o encerramento da carreira dO Filho do Homem na Terra também marcaria um novo começo.

A partir de agora, O Espírito Santo estaria com os cristãos para equipá-los a continuar a ação de evangelização dos povos. Assim como O Espírito veio a Jesus, o mesmo aconteceria com seus discípulos. O Espírito concederia a segurança salvação aos seguidores dO Mestre e também os estimularia a propagar a mensagem de "boas novas" a todas as nações. A salvação foi dada a eles pela graça, mas ela também precisa ser compartilhada.

Entretanto, antes do dia de Pentecostes acontecer, os cristãos passaram por um período de espera, quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão dO Messias, e mais dez dias entre a ascensão e o Pentecostes. Com orientações bem claras, Lucas faz questão de incluí-las no final do seu Evangelho e no início de Atos:

_Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder. (Lucas 24:49)_

_E, comendo com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de mim ouvistes. Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias. (Atos 1:4-5)_

Porém, os discípulos não ficaram ociosos durante os cinquenta dias de espera do Pentecostes. O autor de Atos faz uma descrição de 4 eventos valiosos:

1. Eles foram comissionados;
2. Eles viram Jesus ser elevado às alturas;
3. Eles perseveraram juntos em oração;
4. Eles substituíram Judas por Matias, como o décimo segundo apóstolo.

John Stott comenta que não podemos considerar que esses eventos tenham sido meramente humanos, pois foi Jesus quem os comissionou, ascendeu aos céus, quem lhes fez a promessa do Espírito Santo pelo qual oravam e quem escolheu o novo apóstolo. A missão de evangelização só poderia iniciar depois que eles tivessem sido comissionados para testemunhar, após Jesus ter sido elevado às alturas e a vinda do Espírito para os capacitar.

### Tópico 1: À Espera do Pentecostes (Atos 1:6-26)

**1.1 Eles foram comissionados (1:6-8)**

_Então os que estavam reunidos com Jesus lhe perguntaram: — Será este o tempo em que o Senhor irá restaurar o reino a Israel? Jesus respondeu: — Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade. Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra. (Atos 1:6-8)_

O que Lucas retrata sobre os quarenta dias em que Jesus esteve ressurreto? A resposta é encontrada em Atos 1:3:

_Depois de ter padecido, Jesus se apresentou vivo a seus apóstolos, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas relacionadas com o Reino de Deus._

O Reino de Deus! Primeiramente, Jesus discursa sobre o Reino, o qual também tinha sido a essência de sua pregação no decorrer de seu ministério público na Terra. Contudo, o foco da mensagem dO Cristo ressuscitado também foi o Reino.

Em segundo lugar, O Messias explana sobre o fato de que os discípulos deveriam aguardar a vinda do Espírito Santo. Portanto, os dois assuntos primordiais entre a ressurreição de Jesus e sua ascensão foram o reino de Deus e Seu Espírito. Possivelmente, O Cristo tenha explicado sobre a relação entre ambos, pois os profetas do Antigo Testamento muitas vezes os associaram um ao outro.

Ao perguntarem "_Será este o tempo em que o Senhor irá restaurar o reino a Israel?_", os discípulos cometeram o erro de confundir a natureza do reino e a relação entre o reino e o Espírito. A confusão se dá pois eles estavam esperando um reino político, nacional e de restauração imediata. Jesus faz a correção do pensamento deles quanto à natureza, extensão e chegada do reino nos versículos 7-8 de Atos 1:

_a. O Reino de Deus é espiritual quanto ao caráter_

"Reino" tem um significado de território, uma localização geográfica, mas o reino de Deus não tem uma definição territorial, jamais constando em algum mapa. A exemplo disso são os dois a caminho de Emaús que esperavam que Jesus iria redimir Israel, mas ficaram tristes devido à crucificação, pois achavam que O Messias os libertaria do jugo colonial de Roma. Com a ressurreição dO Cristo, eles voltaram a ter esta esperança.

A resposta de Jesus nos remete ao Espírito Santo, porquanto falou que o Espírito viria sobre eles, dando-lhes poder. A atividade do "poder" é intrínseca ao conceito de Reino. Todavia, o poder do Reino é diferente do poder dos reinos terrestres. O Reino de Deus são os seus mandamentos instituídos na vida dos Cristãos através do Espírito Santo. Mediante uma mensagem de paz e não de guerra, pela atuação do Espírito e não pela força de armas. No entanto, não podemos cair no erro de espiritualizar o reino em excesso como se ele operasse somente no céu e não na terra. Apesar de o reino não ser um programa político, ele possui implicações políticas e sociais radicais, pois seus valores entram em contraste com os valores seculares. Os seguidores negam a César a lealdade suprema e concedem-na somente a Jesus.

_b. O Reino de Deus é internacional quanto a seus membros_

As ideias limitadas dos apóstolos eram nacionalistas uma vez que questionaram Jesus se Ele restauraria Israel, que os macabeus haviam reconquistado no segundo século a.C, por um reduzido espaço de tempo, para posteriormente perdê-lo de novo.

Jesus os abriu a mente quando prometeu que o Espírito Santo lhes concederia poder de serem suas testemunhas, começando em Jerusalém, a capital nacional e lugar da condenação e crucificação dO Messias, até os confins da terra. A tese de Johannes Blauw é de que a concepção do Antigo Testamento compreenderia uma preocupação com as nações (Deus as criou e elas se curvarão diante dEle), mas não uma missão às nações (sair para conquistá-las).

O Reino de Deus prevalece sobre uma comunidade internacional em que raça, nação, posição e sexo não são empecilhos para a comunhão. E quando o reino for consagrado no final, a incontável multidão dos remidos será retirada de "todas as nações, tribos, povos e línguas".

_c. O Reino de Deus é gradual quanto à expansão_

Quando os apóstolos perguntam "será este o tempo", eles deixam transparecer a preocupação quanto ao "momento" que Jesus devolveria o Reino ao seu povo. Ao responder, Jesus tem dois pontos. Primeiramente, "_Não cabe a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai fixou pela sua própria autoridade_". Tempos (_chronoi_) ou épocas (_kairoi_), juntos, constituem o plano de Deus. O questionamento sugere curiosidade ou impaciência, ou ambas. Porém, o Filho afirma que não sabia o dia nem a hora de sua volta (_parousia_). Desta forma, os apóstolos são forçados a permanecer na ignorância, pois os mistérios pertencem a Deus e as coisas reveladas nos competem e devemos ficar contentes com elas.

Em segundo lugar, embora eles não estivessem aptos a conhecer os tempos e as épocas, eles necessitavam estar cientes de que receberiam poder para que, no período entre a vinda do Espírito e a segunda vinda de Cristo, pudessem ser suas testemunhas. Os seguidores de Jesus devem propagar o evangelho até a sua segunda vinda, testemunhas até aos confins da terra e até a consumação do século.

**1.2 Eles viram Jesus subir ao céu (1:9-12)**

_Depois de ter dito isso, Jesus foi elevado às alturas, à vista deles, e uma nuvem o encobriu dos seus olhos. E, estando eles com os olhos fixos no céu, enquanto Jesus subia, eis que dois homens vestidos de branco se puseram ao lado deles e lhes disseram: — Homens da Galileia, por que vocês estão olhando para as alturas? Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir. Então os apóstolos voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém. A distância até a cidade é de cerca de um quilômetro. (Atos 1:9-12)_

Somente os onze apóstolos viram Jesus ascender aos céus, mas em certo momento da segunda vinda todo o olho verá. Ao invés de voltar sozinho (como ascendeu), milhões de santos - humanos e angelicais - constituirão uma comitiva. E, ao contrário de ser uma volta exclusiva a um local ("Lá está!" ou "Ei-lo aqui!"), será "assim como relâmpago, fuzilando, que brilha de uma à outra extremidade do céu".

**1.3 Eles oraram pela chegada dO Espírito (1:12-14)**

_Então os apóstolos voltaram do monte das Oliveiras para Jerusalém. A distância até a cidade é de cerca de um quilômetro. Quando entraram na cidade, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele. (Atos 1:12-14)_

No Evangelho de Lucas, ele declara que nos dias seguintes à ascensão os discípulos estavam sempre no templo, louvando a Deus (Lc 24:53). Já em Atos, há o relato de que eles perseveraram unânimes em oração (Atos 1:14). O vocábulo "unânimes" traduz _homothymadon_, empregada 10 vezes por Lucas (uma das suas palavras favoritas) e que ocorre somente uma vez em todo o resto do Novo Testamento. Este termo pode ser definido como "reuniam-se no mesmo lugar" ou "faziam a mesma coisa", ou seja, orando. Porém em outros textos pode ser traduzido como "oração unânime" (Atos 4:24) ou "decisão unânime" (Atos 15:25), no que podemos concluir que essa "unanimidade" seria mais do que um simples encontro e sim uma concordância quanto àquilo pelo que oravam. Eles oravam com "uma mente ou um propósito ou um impulso".

A oração deles era perseverante! O verbo de perseveravam (_proskartereo_) é definido como estar "ocupado" ou ser "persistente" em toda a atividade. É o mesmo verbo usado mais tarde por Lucas quando ele se refere aos novos convertidos que "perseveravam na doutrina dos apóstolos" (Atos 2:42) e aos apóstolos que priorizam a oração e pregação (Atos 6:4). O fundamento dessa união e perseverança em oração é o mandamento e a promessa de Jesus. Portanto, concluímos que as promessas de Deus não tornam nossas orações supérfluas, mas elas nos dão a garantia para orarmos e a confiança de que Ele ouvirá e responderá.

**1.4 Eles substituíram Judas por Matias como apóstolo (Atos 1:15-26)**

_Naqueles dias, Pedro se levantou no meio dos irmãos, que formavam um grupo de mais ou menos cento e vinte pessoas, e disse: — Irmãos, era necessário que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, a respeito de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Ele era um dos nossos e teve parte neste ministério. Ora, este homem adquiriu um campo com o preço da iniquidade e, caindo de cabeça, rompeu-se pelo meio, e todos os seus intestinos se derramaram. Isto chegou ao conhecimento de todos os moradores de Jerusalém, de maneira que em sua própria língua esse campo era chamado Aceldama, isto é, Campo de Sangue. E Pedro continuou: — Porque está escrito no Livro dos Salmos: "Fique deserta a sua morada, e não haja quem nela habite." — E: "Que outro tome o seu encargo." — Portanto, é necessário que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até o dia em que foi tirado do nosso meio e levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. Então propuseram dois: José, chamado Barsabás, também conhecido como Justo, e Matias. E, orando, disseram: — Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual dos dois escolheste para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou, indo para o seu próprio lugar. Depois fizeram um sorteio, e a sorte caiu sobre Matias, que foi acrescentado ao grupo dos onze apóstolos. (Atos 1:15-26)_

De acordo com o Antigo Testamento, Pedro declara que "convinha que se cumprisse as Escrituras". Salmos 109:8 diz: "_Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu encargo_." Como a escolha apostólica deve ser feita pelo Senhor Jesus, eles lançaram sortes (v.26). Entretanto, este método era usado no Antigo Testamento e não parece ter sido usado depois que o Espírito Santo foi derramado entre eles.

### Tópico 2: O Dia de Pentecostes (Atos 2:1-47)

Dentre os 4 evangelistas, Lucas é o que mais salienta o Espírito Santo, relatando a imprescindibilidade da capacitação dele. Assim como o Espírito veio sobre Jesus quando este foi batizado, também foi guiado por ele, no poder dele e ungido por ele, agora era a vez dos discípulos o receberem para serem capacitados para a missão mundial. O Pentecostes foi o cumprimento da promessa de Jesus para lhes ensinar e lembrar de Seus ensinos.

A festa de Pentecostes possuía dois significados: um agrícola e outro histórico. Sendo a segunda das três festas anuais para comemorar a ceifa, era chamada de "Festa da Colheita", pois era o fim da colheita dos cereais, ou "Festa das Semanas", por acontecer sete semanas ou 50 dias após a páscoa. *Pentekostos*é definido como "quinquagésimo". Perto do fim do período intertestamentário, começou-se a ser comemorada como aniversário da entrega da lei no Monte Sinai, pois foram 50 dias após o Êxodo.

O Pentecostes apresenta 3 sinais sobrenaturais: um som do céu, apareceram línguas como de fogo e todos ficaram cheios do Espírito Santo. Esses sinais podem parecer naturais, mas eram sobrenaturais.

### Tópico 3: O Início da Perseguição (Atos 3:1-4:31)

Após a cura do coxo que estava à porta do templo, Pedro e João falam ao povo sobre as "boas novas". Mas os sacerdotes, o capitão do templo e os saduceus, ressentidos por pregarem Jesus ressuscitado dentre os mortos, prenderam estes discípulos e os recolheram ao cárcere até o dia seguinte. Entretanto, muitos creram, subindo a quase 5 mil o número de convertidos.

Lucas aponta que ambas as ondas de perseguição tiveram seu início com os saduceus (Atos 4:1 e 5:17). Mas quem eram os saduceus? Eles eram a classe governante dos aristocratas ricos, integrados ao sistema romano e temiam o ensino revolucionário dos apóstolos. Acreditavam que a era messiânica foi iniciada na era dos macabeus e, por isso, não estavam à espera de um messias. Também não aceitavam a ressurreição dos mortos e viam os apóstolos como agitadores e perturbadores da lei. Entretanto, Lucas nos lembra de que a perseguição não impediu a propagação do Evangelho, pois eles poderiam prender os apóstolos, mas não as "boas novas" e subiu em quase 5 mil o número de cristãos naquele dia.

### Tópico 4: O Contra-Ataque Satânico (Atos 4:32-6:7)

Satanás atacou a igreja em 3 frentes:

1. Violência física - ele tentou acabar com a igreja através da perseguição;

2. Corrupção moral - infiltrar o mal na vida interna da igreja (por exemplo, Ananias e Safira);

3. Distração - tentou tirar os apóstolos de suas responsabilidades prioritárias (oração e pregação) para se preocuparem com a administração social, que não era a tarefa deles.

_Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: — Não é correto que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Por isso, irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para os encarregarmos desse serviço. Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:1-4)_

Um princípio vital para as igrejas de hoje é que Deus chama todo o Seu povo para o ministério, com pessoas diferentes designadas para funções específicas, momento em que devem manter o foco naquilo que lhes foi incumbido, evitando distrações e promovendo uma organização que descentralize as tarefas, permitindo a participação de outros no serviço ao Senhor.

### Conclusão

Percebemos que durante a espera por Pentecostes, os discípulos não estavam ociosos e que a oração era unânime. Portanto, as promessas de Deus nos estimulam a orar. O dia de Pentecostes é marcado pelo derramamento do Espírito Santo, o qual foi prometido por Jesus e enviado para capacitar os seguidores de Cristo a lembrarem de tudo o que o Messias fez e propagarem as "boas novas" até os confins da terra.

Ao receberem este poder, os discípulos começaram sua missão de fazer outros discípulos. Entretanto, a perseguição da igreja é iniciada pelos saduceus, pois rejeitavam a ressurreição dos mortos e não criam na vinda de um messias. Eles tentaram sufocar o evangelho ao prenderem Pedro e João, mas não conseguiram prender as "boas novas" e muitos foram convertidos. Por último, precisamos estar atentos às estratégias de satanás para esmagar a igreja. Devemos tomar cuidado com a corrupção moral infiltrada na casa de Deus e de termos os que são chamados ao ministério da palavra focados nesta prioridade.

## Lição 3 – Os Fundamentos da Missão Mundial

### Objetivo Geral

Explanar sobre os primeiros acontecimentos que impulsionaram a missão mundial e exemplificar como 4 homens foram importantes para a preparação do caminho até os gentios.

### Introdução

Após a vinda do Espírito Santo, a igreja sofreu um contra-ataque de satanás, mas foi derrotado como Lucas relata em Atos 6:7: _A palavra de Deus crescia e, em Jerusalém, o número dos discípulos aumentava. Também um grande grupo de sacerdotes obedecia à fé_.

Composta apenas de Judeus e restrita somente a Jerusalém, a igreja estava quase pronta para iniciar sua missão mundial. O Espírito Santo começará a dispersar os cristãos pelo mundo, mas primeiramente Lucas explana os fundamentos da missão contando a história de Estêvão, o mártir, Filipe, o evangelista, Saulo, o fariseu e a de Cornélio, o centurião. Juntamente com Pedro, esses quatro homens contribuíram fortemente para a propagação do Evangelho.

Estêvão, cuja pregação recebeu forte oposição dos judeus, defendeu sua posição diante do Sinédrio e argumentou que Deus é livre para ir aonde quiser e também para fazer seu povo avançar. Entretanto, foi apedrejado até a morte, fato que exerceu influência em Saulo de Tarso.

Filipe foi o primeiro a pregar o Evangelho para os samaritanos desprezados, anulando a barreira que os judeus possuíam com este povo. Ele também foi usado pelo Espírito para conduzir o primeiro africano a Cristo, o eunuco etíope, o qual também foi batizado.

A igreja é dispersa após o apedrejamento de Estêvão e Saulo de Tarso consentiu com a sua morte. Saulo desejou destruir a igreja e começou a perseguir e aprisionar os cristãos: _Indo de casa em casa, arrastava homens e mulheres, lançando-os na prisão. (Atos 8:3b)_ Sua conversão foi essencial para a missão de evangelizar os gentios.

Cornélio, se não o primeiro, foi um dos primeiros gentios a se converter e se juntar à igreja. O Espírito Santo falou diretamente a ele e a Pedro, cujo preconceito judaico foi vencido em relação aos gentios. Apenas após a atuação destes 4 homens a primeira viagem missionária ocorre.

### Tópico 1: Estêvão, o Mártir (Atos 6:8-7:60)

Quem era Estêvão? Precisamos fazer uma revisão da lição anterior para recordarmos quem ele era:

_Naqueles dias, aumentando o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. Então os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: — Não é correto que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Por isso, irmãos, escolham entre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, para os encarregarmos desse serviço. Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. O parecer agradou a todos. Então elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram estes homens aos apóstolos, que, orando, lhes impuseram as mãos. (Atos 6:1-6)_

Os apóstolos precisavam se consagrar à oração e ao ministério da palavra, pois trabalhos administrativos o impediriam de focar na propagação do Evangelho. Desta forma, 7 homens foram escolhidos para cuidarem das viúvas e Estêvão, um homem cheio de fé e do Espírito Santo, estava entre eles. No versículo posterior, ele é novamente apresentado como um homem cheio de graça e poder, que fazia prodígios e grandes sinais no meio do povo (Atos 6:8). Agora se diz que além dos apóstolos, outros discípulos também operavam prodígios e sinais, não se limitando somente aos 12.

Outro fator importante sobre Estêvão é que, apesar de fazer parte dos 7 escolhidos para a área administrativa da igreja, ele não deixou de pregar, pois foi contra a sua palavra que alguns se levantaram. Eles eram da sinagoga chamada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e da província da Ásia. Os "Libertos" (_libertinoi_, uma transliteração grega de uma palavra latina) eram escravos libertos e seus descendentes. Por terem sido libertos da escravidão, eram judeus estrangeiros que teriam se mudado para Jerusalém. E os outros? Quem eram os judeus de Cirene, Alexandria, Cilícia e Ásia? Alguns estudiosos creem que seriam 4 sinagogas diferentes somadas à dos Libertos. Já outros julgam ser duas, três ou quatro sinagogas. John Stott considera ser somente uma, pois a palavra está no singular. Talvez Saulo de Tarso estivesse no meio dos judeus uma vez que ele era originário da Cilícia.

Eles se levantaram contra Estêvão, porém não podiam sobrepor-se à sabedoria e ao Espírito com que ele falava (Atos 6:10). Precisamos lembrar que uma das promessas de Jesus foi exatamente esta:

_"porque eu lhes darei palavras e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos os que se opuserem a vocês". (Lucas 21:15)_

Desapontados com o fato de não poder debater com Estêvão, eles começam uma campanha de difamação contra ele e subornam algumas pessoas:

_Então subornaram alguns homens para que dissessem: — Ouvimos este homem proferir blasfêmias contra Moisés e contra Deus. (Atos 6:11)_

Posteriormente, esses judeus da sinagoga investiram contra Estêvão, o agarraram e o levaram ao sinédrio, apresentando testemunhas falsas contra ele. Acusaram-no de não cessar de falar contra o "santo lugar e contra a lei". Por que isso era considerado "blasfêmia"? O santo lugar (o templo) é a casa de Deus e a lei a "escritura sagrada", ou seja, Estêvão estaria falando contra Deus. Eles usaram o fato de este discípulo ter dito que Jesus, o Nazareno, destruiria este lugar e mudaria os costumes que Moisés havia dado. O Evangelho de João nos explica ao que Cristo estava se referindo:

_Então, os judeus lhe perguntaram: — Que sinal milagroso pode mostrar-nos como prova da sua autoridade para fazer tudo isso? Jesus lhes respondeu: — Destruam este templo, e eu o levantarei em três dias. Os judeus responderam: — Este templo levou quarenta e seis anos para ser edificado, e você o levantará em três dias? Contudo, o templo ao qual ele se referia era o seu corpo (João 2:18-21)_

Jesus está falando de si mesmo ao falar da destruição do templo, pois haveria de ressuscitar após 3 dias. Logo, O Cristo falou de seu próprio corpo e afirma que Ele é o novo templo de Deus. Por isso que, embora no passado terem se reunido no templo para se encontrarem com Deus, o novo local para esse ajuntamento seria Ele mesmo. O segundo ponto, sobre Jesus falar contra a escritura sagrada, nos remete ao fato de que Ele disse que cumpriria a lei dando a sua vida por nós, consumando todo o sacerdócio e sacrifício. Portanto, o templo e a lei seriam substituídos. Os judeus simplesmente usaram o sentido literal das palavras do Nazareno.

Todos no sinédrio viram o rosto de Estêvão como se fosse rosto de anjo. O rosto de Moisés resplandeceu quando desceu do monte Sinai quando Deus o entregou a lei:

_Quando Moisés desceu do monte Sinai, tendo nas mãos as duas tábuas do testemunho, sim, quando desceu do monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois de Deus ter falado com ele. (Êxodo 34:29)_

Fato curioso que nos leva a questionar se Deus estaria demonstrando que tanto o ministério de Moisés quanto o de Estêvão teriam sua validação, uma vez que o rosto de Moisés resplandece ao estar na presença de Deus e o de Estêvão ao pregar o Evangelho.

Apesar de sua mensagem de defesa a partir de Atos 7:2, os judeus rilhavam os dentes contra ele, clamaram em alta voz, taparam os ouvidos e o apedrejaram (Atos 7:54-59). Como os romanos haviam retirado dos judeus o direito de executarem a pena capital, este apedrejamento pode ser considerado um linchamento popular. E deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo (v. 58b).

Assim como na crucificação de Jesus, Estêvão clamou em alta voz no momento de sua morte e disse "Senhor, recebe o meu espírito" e também pediu para que não fosse imputado pecado aos que o apedrejaram. Bem parecido com as palavras de Jesus na cruz, com a diferença de que O Messias se dirigiu a Deus e Estêvão clamou a Jesus. O discípulo imitando o seu mestre. E adormeceu: um termo sutil para quem havia acabado de sofrer uma morte brutal. E Saulo de Tarso consentia com sua morte (Atos 8:1a).

Muitos colocam o foco em Estêvão ter sido o primeiro mártir na história do cristianismo, mas o que Lucas enfatiza é seu papel na missão cristã mundial por meio do seu ensino e morte. No Antigo Testamento, Deus estava atado a seu povo onde quer que estivesse e não em edifícios. Do mesmo modo, Jesus está com seu povo onde quer que seja. Quando Paulo e Barnabé partem em sua primeira viagem missionária, eles vão descobrir que, assim como Abraão, José e Moisés, Deus está com eles e é precisamente isso que relatam ao voltar (Atos 14:27; 15:12). Uma afirmação essencial para a missão, pois mudanças são difíceis uma vez que afetam onde iremos morar e nossos costumes. A igreja de Deus é um povo e não edifícios e a palavra de Deus são as Escrituras e não as tradições.

### Tópico 2: Filipe, o Evangelista (Atos 8:1-40)

Filipe, assim como Estêvão, fazia parte dos 7 que foram escolhidos para cuidar das viúvas:

_O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos. (Atos 6:5-6)_

Lucas crê que o ministério de ambos ajudou a preparar o caminho para a missão entre os gentios. Com a morte de Estêvão, os discípulos foram dispersos para a Judeia e Samaria:

_Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria. (Atos 8:1b)_

Ao fugirem da perseguição contra a igreja, os discípulos iam por toda a parte pregando o Evangelho. Enquanto os apóstolos continuavam em Jerusalém, os outros cristãos conduziram a evangelização nos outros locais: "_Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra_" (Atos 8:4). Porém, isso não significa dizer que viraram "pregadores" ou "missionários" de tempo integral, pois a expressão grega não significa mais do que "compartilharam as boas novas".

_Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo. As multidões atendiam, unânimes, às coisas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava. Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando em alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade. (Atos 8:5-8)_

Pode ser um pouco difícil para entendermos a coragem de Filipe ao pregar o evangelho aos samaritanos, pois o conflito entre judeus e samaritanos já existia há mil anos. Este desentendimento começou no século X a.C., quando as 10 tribos desertaram e fizeram Samaria a sua capital, e somente 2 tribos continuaram a ser leais a Jerusalém. O atrito se acentuou com a captura de Samaria pela Assíria em 722 a.C., causando muitos a serem deportados e o país ser repovoado por estrangeiros. Quando os judeus voltaram para sua terra, no século VI a.C., recusaram a ajuda de Samaria na reconstrução do templo. O conflito se consolidou no século V a.C., quando um templo rival no monte Gerizim foi construído e rejeitaram as Escrituras do Antigo Testamento, com exceção do Pentateuco. Os judeus menosprezam os samaritanos como híbridos, na raça e na religião, pois os consideram hereges e cismáticos. No Evangelho de João, o Autor afirma que "_os judeus não se dão bem com os samaritanos_" (João 4:9b). Entretanto, sabemos que Jesus possuía uma simpatia por eles.

**2.1 Filipe e o Eunuco**

_Um anjo do Senhor disse a Filipe: — Levante-se e vá para o Sul, no caminho que desce de Jerusalém a Gaza; este se acha deserto. Filipe se levantou e foi. Havia um etíope, eunuco, alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todo o seu tesouro. Ele tinha vindo adorar em Jerusalém e estava regressando ao seu país. E, assentado na sua carruagem, vinha lendo o profeta Isaías. (Atos 8:26-27)_

A "Etiópia" a que Atos se refere correspondia ao "Nilo Superior" de hoje, área de Assuã a Cartum. O Etíope exercia um cargo alto e provavelmente era um negro africano. Ele pode ter sido judeu por nascimento ou conversão, uma vez que a dispersão judaica tinha chegado ao Egito e, talvez, além dessa região. Não é provável que ele seja gentio, pois Lucas o teria apontado como o primeiro gentio convertido.

O Espírito Santo ordena Filipe a se aproximar do carro e acompanhá-lo, quando ouve que o Eunuco estava lendo o profeta Isaías (todos liam em voz alta naquela época). Ao Filipe perguntar se ele compreendia o que lia, ele humildemente responde que não entenderia se alguém não o explicasse. Armínio (1853) enfatizava a importância da vontade humana e da responsabilidade individual na busca pela verdade. Ele acreditava que cada pessoa deveria ser incentivada a ler e interpretar a Bíblia, não apenas de maneira passiva, mas de forma ativa, participando do processo de compreensão e aplicação dos ensinamentos bíblicos. Para ele, o estudo bíblico era essencial para uma fé genuína e uma vida cristã sólida, destacando que a negligência desse estudo afastava os cristãos da verdadeira compreensão de Deus e de Sua vontade. O coração do eunuco estava com solo fértil para receber o evangelho e foi prontamente batizado. Paulo precisou de uma visão sobrenatural de Jesus para crer, enquanto o etíope não passou por absolutamente nada que fosse sobrenatural, mas creu.

### Tópico 3: A Conversão de Saulo e Cornélio (Atos 9:1-11:18)

**3.1 A conversão de Saulo**

_Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, tanto homens como mulheres, os levassem presos para Jerusalém. Enquanto seguia pelo caminho, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor. Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: — Saulo, Saulo, por que você me persegue? Ele perguntou: — Senhor, quem é você? E a resposta foi: — Eu sou Jesus, a quem você persegue. Mas levante-se e entre na cidade, onde lhe dirão o que você deve fazer. Os homens que viajavam com Saulo pararam emudecidos, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém. Então Saulo se levantou do chão e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu. (Atos 9:1-9)_

Saulo de Tarso, nascido na Cilícia, foi instruído por Gamaliel segundo o rigor da Lei e era zeloso para com Deus (Atos 22:3). Ele esperava entrar na cidade de Damasco como um corajoso adversário de Cristo, mas entrou sendo guiado por outros, humilhado e cego. Ao Jesus perguntar "por que me persegues?", Ele está questionando diretamente a consciência de Saulo. Então, Saulo se pôs a orar e jejuar ao chegar em Damasco. Entretanto, a conversão de Saulo não estava completa, pois Deus fala com o discípulo Ananias em uma visão:

_Então o Senhor lhe disse: — Levante-se e vá à rua que se chama Direita e, na casa de Judas, procure um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está orando e, numa visão, viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista. (Atos 9:11-12)_

A princípio, Ananias hesitou em ir ao encontro de Saulo, pois sabia que este perseguia as igrejas. Seria suicídio! Mas Jesus replicou "VAI!", visto que Saulo iria se transformar em um instrumento poderoso na evangelização dos gentios e Jesus fez questão de confirmar seu ministério através de outro discípulo.

_Então Ananias foi e, entrando na casa, impôs as mãos sobre Saulo, dizendo: — Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que apareceu a você no caminho para cá, me enviou para que você volte a ver e fique cheio do Espírito Santo. Imediatamente caíram dos olhos de Saulo umas coisas parecidas com escamas, e ele voltou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado. E, depois de comer, sentiu-se fortalecido. (Atos 9:17-19)_

As primeiras palavras de Ananias para Saulo foram "Saulo, irmão"! Ele estava dando as "boas-vindas", tratando-o como parte da família cristã. Interessante notar que Ananias impôs as mãos em um homem temporariamente cego. Um toque para uma pessoa que não podia ver a expressão no rosto de Ananias, mas conseguia sentir seu toque de cuidado. Saulo se torna agora o propagador das "boas novas" e vira uma testemunha de Cristo. A palavra grega para "testemunho" é _martys_, que veio a ser associada com martírio. Deus escolheu um rebelde como Saulo e o mudou de lobo para ovelha.

**3.2 A conversão de Cornélio**

Depois de lermos sobre a conversão de Saulo, Lucas relata a de Cornélio, provavelmente o primeiro gentio a se tornar cristão. Cornélio era um centurião, homem piedoso e temente a Deus, que fazia muitas esmolas ao povo e sempre orava (Atos 10:1-2). Um dia ele teve uma visão na qual viu um anjo que dizia para mandar chamar Pedro (Atos 10:3-8). Esta história tem Pedro como agente principal e ele parece estar com uma atitude mental preparada para receber as instruções de ir e batizar Cornélio, pois no capítulo 9 Pedro se hospeda na casa de um curtidor. Os curtidores eram julgados como cerimonialmente impuros por trabalharem com animais mortos. Como Deus iria lidar com Pedro e mudar a intolerância racial dele? A resposta é dada nesta visão:

_No dia seguinte, enquanto eles viajavam e já estavam perto da cidade de Jope, Pedro subiu ao terraço, por volta do meio-dia, a fim de orar. Estando com fome, quis comer; mas, enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase. Viu o céu aberto e um objeto como se fosse um grande lençol, que descia do céu e era baixado à terra pelas quatro pontas, contendo todo tipo de quadrúpedes, répteis da terra e aves do céu. E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: — Levante-se, Pedro! Mate e coma. Mas Pedro respondeu: — De modo nenhum, Senhor! Porque nunca comi nada que fosse impuro ou imundo. Pela segunda vez, a voz lhe falou: — Não considere impuro aquilo que Deus purificou. Isso aconteceu três vezes, e, em seguida, aquele objeto foi levado de volta para o céu. (Atos 10:9-16)_

Deus tratou com o coração de Pedro e o ensinou a não fazer distinção entre os judeus e os gentios. Este fato contribuiu para o avanço da propagação do Evangelho para todos os povos, pois Pedro precisava entender primeiramente que a salvação é estendida a todas as pessoas. Pedro e os que foram com ele à casa de Cornélio testificam que o Espírito Santo é derramado sobre os gentios também (Atos 10:44-46). Os da casa de Cornélio pedem a Pedro que permanecesse com eles por alguns dias, pois seria uma forma de nutri-los com a palavra. Portanto, concluímos que o Espírito Santo faz a obra de conversão, mas também precisamos de mestres humanos para nos ensinar acerca das Escrituras.

### Tópico 4: Expansão e Oposição (Atos 11:19-12:24)

Nos capítulos de Atos 11:19-12:24, vemos a expansão da igreja que chegou à Fenícia, Chipre e Antioquia, lugar onde os discípulos são chamados de "cristãos" pela primeira vez. Entretanto, Herodes, mandou prender alguns da igreja para maltratar. A igreja sofre oposição do rei e Tiago, irmão de João, é morto à espada e Pedro é preso. É nesta hora que vemos como a igreja orou fervorosamente a Deus. Como John Stott declara: "a igreja se voltou à oração, a única arma daqueles que não têm poder". Mesmo Pedro algemado e enclausurado na prisão com segurança máxima, Deus faz um milagre de enviar seu anjo para o libertar. O Senhor pode permitir que os tiranos se orgulhem por um tempo, oprimindo a igreja, mas eles não vencem. Herodes foi ferido por um anjo do Senhor e, comido por vermes, morreu (Atos 12:23).

### Conclusão

Com a dispersão dos discípulos, Deus começa a preparar o caminho para que os gentios sejam alcançados. Mesmo estando prestes a morrer, Estêvão prega as "boas novas". O primeiro mártir dá o exemplo de como importa sofrermos por Cristo para que o Evangelho seja propagado. Filipe, com sua ousadia, estende a mensagem cristã aos samaritanos, quebrando a barreira de anos de desentendimento com os judeus.

A conversão de Saulo abriu um caminho ainda maior para a missão mundial, pois ele era o agente que perseguia a igreja e, agora, usando toda a sua sabedoria da lei, prega Cristo crucificado e ressurreto, O Messias esperado. Por último, Pedro, vencendo seu preconceito contra os não judeus, tem uma revelação que a salvação é para todos e testemunha isso com a conversão de Cornélio, provavelmente o primeiro gentio a se tornar cristão. A obra de Deus pode sofrer uma oposição momentânea, mas satanás não prevalecerá.

## Lição 4 – O Apóstolo dos Gentios

### Objetivo Geral

Explanar ao leitor as características das viagens missionárias de Paulo, as divergências entre judeus e gentios sobre a questão da salvação e como o apóstolo dos gentios chegou até Roma.

### Introdução

Com o cumprimento da profecia de Jesus Cristo, Seu Nome foi pregado em Jerusalém e toda a Judeia e Samaria e, agora, é abrangido até "os confins da terra". Estêvão e Filipe, os diáconos da igreja, prepararam o caminho por meio de martírio (Estêvão) e evangelização ousada entre os samaritanos. Além disso, Pedro recebe uma revelação sobre os não judeus e, com a conversão de Cornélio (provavelmente o primeiro gentio a se converter) a igreja entende que a salvação é para todos os que creem. Entretanto, o evangelismo estava delimitado à Palestina e Síria e, apesar de Chipre ter sido citado em Atos 11:9, não havia planos de propagar as boas novas às outras nações além do mar. Agora com Saulo, que havia também sido comissionado a apóstolo, a primeira viagem missionária vem a se tornar realidade.

### Tópico 1: A Primeira Viagem Missionária (Atos 12:25-14:28)

Profetas e mestres se encontravam na igreja de Antioquia e, enquanto eles estavam adorando e jejuando, o Espírito Santo diz a eles para separar Barnabé e Saulo para a obra que os tinha chamado. Barnabé era um homem de bem, cheio do espírito e de muita fé (Atos 11:24).

Então, Barnabé e Saulo foram até Selêucia e de lá navegaram até Chipre. Ao chegar em Salamina, iniciaram a propagação do Evangelho nas sinagogas judaicas e João Marcos os auxiliava. O vocábulo _hyperetes_era usado em relação a um servo ou assistente de médicos, oficiais do exército, sacerdotes e políticos, não explicando se a ajuda de Marcos era no sentido pastoral ou prática (cozinhando, limpando). Lucas enfatiza três episódios na primeira viagem missionária: Paulo compartilhando as "boas novas" para o procônsul e confrontando um judeu mágico em Pafos, pregando em Antioquia da Pisídia e falando ao ar livre para pagãos em Listra.

O mágico, Barjesus, era um falso profeta e também tinha por nome _Elimas_. Os judeus costumavam ter um segundo nome grego ou romano e foi neste momento que Lucas decide apresentar o outro nome de Saulo, uma vez que ele estava avançando para um contexto não judaico: _mas Saulo, também chamado Paulo_ (Atos 13:9). O procônsul Sérgio Paulo almejava ouvir a palavra de Deus e mandou chamar Barnabé e Saulo, mas Elimas se opunha a eles. Então, Saulo, o repreende e o mágico fica cego. Vendo o que tinha acontecido, o procônsul crê e fica maravilhado com a doutrina do Senhor.

_"E, navegando de Pafos, Paulo e seus companheiros viajaram a Perge da Panfília. João, porém, deixando-os, voltou para Jerusalém". (Atos 13:13)_

O texto bíblico acima não expõe o motivo de João Marcos ter deixado Paulo e seus companheiros. A opinião de Lucas só fica clara em relação a este acontecimento em Atos 15:38: _Mas Paulo não achava justo levar aquele que tinha se afastado deles desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho._ O termo "afastar" tem o significado de "desertar", "abandonar". Entretanto, posteriormente, João voltou a ser útil para o ministério de Paulo (Colossenses 4:10; 2 Timóteo 4:11).

Ao chegarem em Antioquia da Pisídia, entraram na sinagoga no sábado. Após a leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga disseram-lhes que se tivessem alguma palavra de consolo, que a proferissem. Paulo levanta e faz um discurso começando com um resumo da história de Israel, dos patriarcas à monarquia. Em seguida, conta a história de Jesus e foca em Sua morte e ressurreição, revelando o cumprimento das Escrituras. Finalmente, Paulo faz o apelo entre a vida e a morte:

_Portanto, meus irmãos, saibam que é por meio de Jesus que a remissão dos pecados é anunciada a vocês; e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vocês não puderam ser justificados pela lei de Moisés. Portanto, tenham cuidado para que não lhes aconteça o que os profetas disseram: "Vejam, ó desprezadores! Fiquem maravilhados e desapareçam, porque, no tempo de vocês, eu realizo obra tal que vocês não acreditarão se alguém lhes contar." (Atos 13:38-41)_

Através da Lei de Moisés não há justificação para ninguém, porém, por intermédio de Jesus todo o que crê será salvo. A resposta à pregação de Paulo foi positiva:

_"Quando Paulo e Barnabé estavam saindo, as pessoas pediram que, no sábado seguinte, lhes falassem estas mesmas palavras. Terminada a reunião na sinagoga, muitos dos judeus e dos prosélitos piedosos seguiram Paulo e Barnabé, e estes, falando com eles, os persuadiam a continuar firmes na graça de Deus". (Atos 13:42-43)_

No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a Palavra, mas os judeus ficaram com inveja ao verem a multidão e blasfemaram, contradizendo o que Paulo pregava. Ao que Barnabé e Paulo responderam: _Era necessário pregar a palavra de Deus primeiro a vocês. Mas, como vocês a rejeitam e se julgam indignos da vida eterna, eis que nós voltamos para os gentios_ (Atos 13:46). E houve muita alegria entre os gentios ao ouvirem isso. O Evangelho foi propagado, mas os judeus começaram a perseguir Paulo e Barnabé e, estes, sacudindo o pó dos pés, foram para Icônio. Lá, pregaram de tal forma que muitos vieram a crer, tanto judeus como gregos. Apesar de os judeus que não creram neles terem incitado e irritado o ânimo dos gentios, Paulo e Barnabé ainda passaram um bom tempo evangelizando em Icônio. Todavia, alguns judeus e gentios formaram um movimento para os maltratar e apedrejar, o que levou Paulo e Barnabé a fugirem para Listra e Derbe.

Em Listra, Paulo cura um paralítico de nascença e gera uma comoção entre o povo:

_Quando as multidões viram o que Paulo tinha feito, gritaram em língua licaônica: — Os deuses, em forma de homens, desceram até nós. A Barnabé chamavam Júpiter, e a Paulo, Mercúrio, porque este era o principal portador da palavra. O sacerdote de Júpiter, cujo templo estava em frente da cidade, trazendo touros e grinaldas para junto dos portões da cidade, queria oferecer um sacrifício juntamente com a multidão. Porém, ouvindo isto, os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgando as suas roupas, saltaram para o meio da multidão, gritando: — Senhores, por que estão fazendo isto? Nós também somos seres humanos como vocês, sujeitos aos mesmos sentimentos, e anunciamos o evangelho a vocês para que se convertam destas coisas vãs ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há._

Uma lenda local conta que Júpiter e Mercúrio uma vez visitaram a região montanhosa da Frígia, mas estavam disfarçados de homens. Ao procurar abrigo, foram rejeitados milhares de vezes, até que um casal de camponeses idosos ofereceram sua cabana para hospedá-los, embora fossem pobres. Os deuses recompensaram os idosos, mas destruíram os que não os ajudaram com uma enchente. Como a língua licaônica era usada para anunciar a sua crença de que os deuses os visitavam, Paulo e Barnabé não compreendiam o que estava acontecendo inicialmente. O fato de os missionários terem rasgado as suas vestes reflete quão horrorizados estavam com a blasfêmia do povo.

_— Senhores, por que estão fazendo isto? Nós também somos seres humanos como vocês, sujeitos aos mesmos sentimentos, e anunciamos o evangelho a vocês para que se convertam destas coisas vãs ao Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há. Nas gerações passadas, Deus permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos. Contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando a vocês chuvas do céu e estações frutíferas, enchendo o coração de vocês de fartura e de alegria. Dizendo isto, foi ainda com dificuldade que impediram a multidão de lhes oferecer sacrifícios. (Atos 15:15-18)_

O discurso de Paulo para iletrados pagãos nos mostra como o apóstolo usava abordagens diferentes para falar com leigos em Listra. Ao falar com os judeus em Antioquia, ele prega sobre o Antigo Testamento, mas com os pagãos, ele usou o mundo natural ao redor, que eles conheciam e viam. A mensagem tem seu cerne em Cristo, mas com abordagens diferentes para grupos de pessoas distintas. Após ser apedrejado e ir a Derbe, Paulo retorna com Barnabé a Listra, Icônio e Antioquia da Síria. Precisamos dar ênfase ao versículo de Atos 14:23: _E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de presbíteros._ Paulo precisou deixar os novos convertidos, mas deixou-os equipados com presbíteros. Há uma total dependência do Espírito Santo aqui, pois Paulo não poderia estar em vários lugares ao mesmo tempo, mas precisava se afastar dos novos cristãos para que eles crescessem independente dele, mas dependentes de Cristo.

### Tópico 2: O Concílio de Jerusalém (Atos 15:1-16:5)

_Alguns indivíduos que foram da Judeia para Antioquia ensinavam aos irmãos: — Se vocês não forem circuncidados segundo o costume de Moisés, não podem ser salvos. Tendo surgido um conflito e grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, foi resolvido que esses dois e mais alguns fossem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, para tratar desta questão. (Atos 15:1-2)_

Como Deus iria incorporar os gentios à comunidade cristã? Eles tornaram-se cristãos, mas não judeus. A paz na comunhão cristã em Antioquia da Síria foi quebrada com a chegada de alguns da Judeia, o qual posteriormente Paulo chama de "perturbadores". Eles afirmavam que os gentios precisavam se circuncidar e observar a lei de Moisés. Esta é a mesma situação a que Paulo se refere em Gálatas 2:11-16.

O pecador é salvo pela graça somente ou parte pela graça e parte por nossas boas obras? Uma mistura de fé e obras, graça e lei, Jesus e Moisés? A igreja de Antioquia decide convocar um concílio para esclarecer as dúvidas, acabar com as controvérsias e restabelecer a paz. Então, Paulo e Barnabé e mais alguns deveriam ir a Jerusalém para solucionar essas questões.

Uma carta foi escrita aos gentios em Antioquia, Síria e Cilícia, afirmando que saíram do meio deles um grupo que os perturbou com palavras e os transtornou a mente. O que ficou decidido? Os próximos versículos respondem a este questionamento:

_Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês maior encargo além destas coisas essenciais: que vocês se abstenham das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e da imoralidade sexual; se evitarem essas coisas, farão bem. (Atos 15:28-29)_

O concílio de Jerusalém obteve duas conquistas: confirmou o Evangelho da graça e o amor venceu ao preservar a comunhão através de concessões aos escrúpulos dos judeus conscienciosos. Como Lutero afirma: Paulo era forte na fé e manso no amor.

### Tópico 3: Missões (Atos 16:6-21:17)

A semente do Evangelho é plantada pela primeira vez na Europa, uma missão que estava no coração de Deus, pois foi deste local que as "boas novas" se espalharam para os grandes continentes: África, Ásia, América do Norte, América Latina e Oceania. Paulo incluía as capitais em suas viagens e ainda escreveria a cada uma das igrejas nessas capitais.

_E percorreram a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na província da Ásia. Chegando perto de Mísia, tentaram ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu. E, tendo contornado Mísia, foram a Trôade. À noite, Paulo teve uma visão na qual um homem da Macedônia estava em pé e lhe rogava, dizendo: — Passe à Macedônia e ajude-nos. Assim que Paulo teve a visão, imediatamente procuramos partir para aquele destino, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes anunciar o evangelho. (Atos 16:6-10)_

Uma característica importante nas viagens de Paulo é que ele estava na total dependência do Espírito Santo. O Espírito o impede de pregar na província da Ásia, de ir para Bitínia e é o mesmo quem lhe deu uma visão para ir à Macedônia. Outro fator essencial é a prontidão de Paulo para obedecer ao chamado de Deus, pois no versículo 10 eles procuraram partir _imediatamente_. Entretanto, o apóstolo não tomou uma decisão sozinho, pois o verbo "concluindo", significa literalmente "juntar", "encaixar mentalmente". Ou seja, ele partilhou os dados com os outros para, assim, decidir partir.

Lucas cita a conversão de 3 pessoas em Atos 16: Lídia, a qual parece ser uma mulher rica, uma jovem escrava anônima e o carcereiro romano. Pessoas de diferentes classes sociais, mas que foram recebidas sem distinção na igreja. No judaísmo, o cabeça da casa sempre orava agradecendo não ter nascido mulher, gentio nem escravo, mas aqui estavam os representantes dessas classes salvos em Cristo.

Como Paulo havia escrito aos gálatas: não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo. Este é o poder unificador do Evangelho.

Lucas relata as missões em Tessalônica e Bereia com bastante brevidade, porém os cristãos de Bereia deram um grande exemplo a ser seguido pelos demais. Paulo pregou para eles e os judeus de Bereia examinavam as escrituras para verificar se seus argumentos eram convincentes. John Stott afirma que Paulo "acreditava na doutrina (sua mensagem possuía um conteúdo teológico), mas não no doutrinamento (instrução tirânica que exige aceitação sem crítica)".

### Tópico 4: Roma (Atos 21:18-28:31)

Depois de suas viagens missionárias, Paulo chega a Jerusalém e há uma mudança abrupta. Ele foi atacado, capturado, preso e julgado. Lucas relata os 5 julgamentos que ele passou: diante de uma multidão de judeus na área do templo, diante do Supremo Conselho dos judeus, em Cesareia (terceiro e quarto) diante de Félix e Festo e o último diante do rei Herodes Agripa II, também em Cesareia. Esses 5 julgamentos englobam 6 capítulos na Bíblia, quase duzentos versículos, pois Lucas achou interessante retratar a reação dos judeus (que estavam mais hostis ao Evangelho) e os romanos (francamente favoráveis).

Apesar dos sofrimentos de Paulo não terem uma característica redentora, eles foram parecidos com o de Jesus, pois ambos o apóstolo e o Messias: foram rejeitados pelo seu próprio povo, foram acusados injustamente, foram batidos no rosto diante de um tribunal, foram vítimas infelizes dos planos dos judeus, ouviram o barulho de uma multidão que dizia "mata-o" e foram sujeitados a uma série de 5 julgamentos.

Além disso, Paulo e Jesus foram acusados pelos judeus, mas julgados pelos romanos. Lucas nos mostra que apesar das acusações dos judeus, os romanos não foram capazes de encontrar nenhum erro sequer neles. Após Paulo se apresentar diante do Sinédrio, O Senhor aparece a ele:

_Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado de Paulo, disse: — Coragem! Pois assim como você deu testemunho a meu respeito em Jerusalém, é necessário que você testemunhe também em Roma. (Atos 23:11)_

Coragem! Coragem, Paulo! Provavelmente, a violência dos últimos dias, a acusação dos judeus e estar diante do sinédrio deixaram o apóstolo ansioso quanto ao que estava por vir. Jesus o conforta com uma palavra clara e direta, o que deve ter dado a ele a calma e coragem que ele precisava para suportar os 3 primeiros julgamentos, 2 anos de prisão e sua viagem cheia de adversidades até Roma.

Roma era a capital do Império Romano e sua fundação foi chamada de "a maior conquista política de todos os tempos". Era a maior e mais estonteante das cidades antigas, ficando famosa pela sua administração e facilitou viagens através de um sistema de estradas e portos, agindo como ímã para as pessoas. Era ali que poderia ser o centro de propagação do Evangelho. Paulo chegou a Roma apesar de uma viagem atribulada, mas chegou como prisioneiro. A promessa de Jesus não incluiu esta informação. Sua prisão e julgamento deram-se por sua lealdade ao Evangelho. O sofrimento autenticou o seu ministério e ele estava à disposição de morrer por Cristo. Ele combateu o bom combate, completou a carreira, guardou a fé.

### Conclusão

Muitos foram os problemas encontrados por Paulo em suas viagens missionárias, mas ele seguiu firme até completar sua carreira. As viagens missionárias fizeram com que a promessa de Jesus fosse cumprida de pregar as boas novas "até os confins da terra". Vemos como as igrejas foram instituídas pelo Espírito Santo e como o apóstolo precisava se afastar para que elas ficassem dependentes de Deus.

Já o concílio de Jerusalém veio resolver o problema interno da igreja: a salvação é somente pela graça e não uma mistura de graça e lei. As outras missões de Paulo nos relatam seu caráter de coragem e fé em Cristo a ponto de sofrer pelo Evangelho, pois para Paulo o viver é Cristo e o morrer é lucro.

## Referências Bibliográficas

ARMÍNIO, Jacó. _The Works of James Arminius, D.D., Formerly Professor of Divinity in the University of Leyden._ Translated by James Nichols, Auburn and Buffalo: Derby, Miller and Orton, 1853.

BARCLAY, William. _The Acts of the Apostles_. 3. Ed. - Kentucky: Westminster John Knox Press, 2003.

_Bíblia King James Fiel_: com Estudo Holman. Rio de Janeiro: BV Films Editora, 2015.

CADBURY, Henry. _The Making of Luke-Acts_ (Macmillan, 1927; 2ª ed. SPCK, 1958).

FEE, Gordon et al. _How to Read the Bible: Book by Book_. Michigan: Zondervan, 2002.

STOTT, John. _A Mensagem de Atos_: Até os Confins da Terra. 2. Ed. - São Paulo: ABU editora, 2020.

## Editorial

Curso: Atos dos Apóstolos
Ano: 2024
1ª Edição

Conselho Editorial:

- Pr. Sinval Júlio de Souza
- Pr. Lúcio Andres

- Braitner Lobato

Revisão:

- Wagner Monteiro

Projeto Gráfico e Diagramação:

- Wagner Monteiro

Comentaristas:

- Marcelo Leite e Larissa Fauber
      